O romance que deu fama mundial a Haruki Murakami

A reedição do Norwegian Wood, com nova tradução, permite recordar o grande livro do escritor japonês Haruki Murakami.

A primeira vez que o romance mais inicial e essencial de Haruki Murakami, Norwegian Wood, surgiu traduzido em língua portuguesa estava-se no ano de 2004, mais precisamente em novembro. E foi a Editora Civilização que o publicou, logo seguida pela Casa das Letras, com Sputnik, meu amor, em janeiro. A partir de Sputnik, talvez a mais desinteressante, insípida e travestida narrativa do escritor japonês, foi quase sempre a segunda editora a que tem publicado Haruki Murakami na nossa língua. E também quase sempre em traduções de responsabilidade de Maria João Lourenço, que deu o seu estilo próprio às frases made in Japan, conseguindo transportar os leitores que seguem a obra do mais internacionalizado autor daquele país para um registo muito próprio desde então e em sucessivas edições de novos títulos.

Para quem gosta de fazer comparações, será interessante reler o anterior Norwegian Wood e o atual. Aliás, nas contracapas de ambos há duas citações, ambas do jornal britânico The Guardian. No primeiro, dizia-se: "A escrita de Murakami é de tal forma requintada e delicada que tudo o que ele descreve é intensamente simbólico." Neste, reproduz-se: "Indiscutivelmente moderno, este livro a transbordar de estudantes à beira da revolta, amor livre, com álcool a rodos e referência à música pop, no final dos anos 60, é também emocionalmente envolvente, e tem o mérito de descrever os altos e baixos da adolescência."

Tudo começa numa viagem de avião, um Boeing 747, em que o narrador aterra em Hamburgo. Ao som da canção dos Beatles, a que dá nome ao romance, Norwegian Wood. Está assim no livro: "Mal o aparelho completou a aterragem, apagaram-se os sinais luminosos que indicavam proibição de fumar. Debitada pelos altifalantes, começou a soar baixinho a música de fundo. Norwegian Wood, dos Beatles, numa versão orquestral delicodoce. Como de costume, a melodia teve o condão de me comover. Não, em, bom rigor, não me comoveu; produziu em mim uma reação muito mais violenta do que era normal."

Numa das profusas notas de rodapé, a tradutora desta edição explica o significado da cidade de Hamburgo para os Beatles, onde deram os primeiros grandes passos. Uma indicação, das muitas entre as que se seguirão. Como a do romance O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, em que refere o apreço de Murakami pelo livro do escritor norte-americano, bem como o interesse em o traduzir para japonês - situação verificada este ano.

Neste primeiro capítulo, fica explicado o argumento do que se segue neste ótimo primeiro pé de Murakami a entrar na porta da literatura. Fala-se do poder da memória e de uma jovem importante na vida do narrador: Naoko. De quem no início demorava um segundo a refazer todo o seu rosto, mas que, com o passar do tempo, vai demorando cada vez mais a reconstruir os traços principais até a face se esbater no esquecimento. Hoje, após se terem lido os romances posteriores de Murakami, este Norwegian Wood exibe muitas das suas fixações e metáforas para os romances que serão escritos e que repescam ideias já aqui presentes, como a da fixação em poços logo revelada.

É aí que a ação avança para o terreno principal do que é Norwegian Wood, a história de um jovem que entra na faculdade e é acompanhado pelo leitor em todos os seus passos físicos e mentais. Sendo uma história juvenil, trata também dos problemas de sempre da humanidade, ao modo que Murakami passou a fazer após este sucesso.

Passa-se no final dos anos 60, momento em que os estudantes japoneses andavam envolvidos na contestação ao regime. O que torna o relato dos protestos único, é o de ser feito através do olhar de personagens jovens, que participam e refletem sobre o establishment japonês. Talvez tenha sido a razão para o grande sucesso entre várias gerações de leitores novos, tendo vendido mais de quatro milhões de livros.

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