O regresso de Paulo Rocha e os nossos paraísos perdidos

O cinema de Paulo Rocha está de volta ao mercado Hoje e amanhã Jorge Silva Melo apresenta "O Rio do Ouro" no Cinema Ideal

Em meados de 2015, Paulo Rocha regressou à atualidade do cinema português com a reedição em DVD das suas duas primeiras longas-metragens: Os Verdes Anos (1963) e Mudar de Vida (1966). Na altura, tais redescobertas aconteceram a par da estreia de Se Eu Fosse Ladrão, Roubava, derradeiro filme do cineasta (falecido a 29 de Dezembro de 2012, contava 77 anos). Agora, sempre com chancela da distribuidora Midas Filmes, este último título vai ser lançado em DVD, em simultâneo com O Rio do Ouro (1998), em cópia restaurada nos laboratórios da Cinemateca Portuguesa.

O reencontro com O Rio do Ouro (que estará em exibição no cinema Ideal até 20 de Abril) torna possível reavaliar um trabalho que será, por certo, dos menos consensuais da obra de Rocha, mas também um dos mais significativos para compreendermos a dinâmica do seu tão peculiar romanesco.


Não foi, obviamente, por acaso que O Rio do Ouro suscitou os mais diversos paralelismos com as histórias de amores funestos que encontramos na prosa de Camilo Castelo Branco e, por emblemática cumplicidade, na filmografia de Manoel de Oliveira. Dir-se-ia que a teia de paixões, sangue e morte que se vai consolidando em O Rio do Ouro começa por ser um ajuste de contas com todo esse imaginário de desencanto e crueldade que, no limite, corresponde ao pressentimento das contradições do ser português.


Por alguma razão, o cineasta coloca as personagens dilaceradas de O Rio do Ouro em cenários cujo contundente realismo apela a qualquer coisa de artificioso e mágico em que, por vezes com alguma ironia, detetamos um continuado assombramento. Nesse aspecto, é essencial sublinhar o contributo da notável direção fotográfica de Elso Roque, a par do regresso de Isabel Ruth, singular atriz do cinema português cuja carreira começou, justamente, com Os Verdes Anos.


Tendo estreado depois da morte de Paulo Rocha, Se Eu Fosse Ladrão, Roubava foi inevitavelmente encarado como um filme-testamento. Não há nada de fúnebre em tal reconhecimento, uma vez que o cineasta o organizou, claramente, como um balanço de vida, a meio caminho entre a confissão biográfica e a celebração feliz do cinema como espetáculo para além da vida.


O ponto de partida é o labirinto de memórias da própria família e, muito em particular, a miragem obsessiva do Brasil vivida pelo pai do cineasta - vivida e concretizada, uma vez que para lá partiu no começo do século XX, procurando um paraíso perdido que nem ele saberia nomear. Tal impulso ecoa na trajetória pessoal de Rocha, primeiro com o período de formação em Paris, depois na longa permanência em terras do Japão, país que, através das memórias do escritor Wenceslau de Moraes, surge de forma exuberante no belíssimo A Ilha dos Amores (1982), porventura o título central da obra de Rocha.

Se Eu Fosse Ladrão, Roubava evoca esse vaivém geográfico e cultural através de um olhar tão minucioso quanto lúdico (nem sempre preocupado em respeitar a ordem fria das cronologias). Os vários extratos de filmes do próprio autor funcionam como capítulos reinventados de uma história que, sendo pessoal, é também visceralmente coletiva - um pouco como quem viaja entre o ser e o não ser português.


Escusado será dizer que este tipo de interrogações tem marcado alguns momentos emblemáticos do cinema português, desde a obra monumental de Oliveira até títulos recentes de Pedro Costa (Cavalo Dinheiro) ou Miguel Gomes (As Mil e uma Noites). Nesta medida, reencontrar agora o trabalho de Paulo Rocha é também revisitar as feridas da nossa identidade e, aqui e ali, as alegrias com que resgatamos as suas dores.

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