O que ficou da Cornucópia um ano depois?

Parte do espólio da companhia foi entregue ao Museu do Teatro, ao Museu do Design e ao Centro de Estudos de Teatro. Mas o espírito da companhia sobrevive nos atores e criadores, que continuam a trabalhar.

Uma folha de papel quadriculado dobrada em quatro e metida na dobra da manga do casaco. Na folha, estão escritas algumas falas. Aquelas falas que o ator provavelmente tinha mais dificuldade em decorar. Um papel que ele consultava talvez antes de entrar em cena, só para refrescar a memória. José Carlos Alvarez, o diretor do Museu Nacional do Teatro e da Dança, mostra essa preciosidade encontrada num dos figurinos de O Misantropo (1973) do Teatro da Cornucópia e que foi entregue ao museu após o encerramento da companhia há quase um ano.

Foi no dia 17 de dezembro de 2016 que se ouviram os aplausos do público pela última vez no espaço do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. Nesse dia, perante uma plateia cheia, com gente sentada até nas escadas e no chão, o grupo apresentou um recital a partir de textos de Guillaune Apollinaire e, depois, fez uma pequena festa de despedida, com direito a lanche, discursos e lágrimas.

Antes desse momento, Luís Miguel Cintra e Cristina Reis tinham recebido a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes. Ambos manifestaram a disponibilidade para "conversações" no sentido de apoiar a continuação da Cornucópia mas a verdade é que essa disponibilidade chegava demasiado tarde: a decisão de encerrar a companhia foi muito pensada e prendia-se com o facto de, perante a constante redução de apoios por parte do Estado, acharem que não tinham condições para continuar a fazer um trabalho com a qualidade que queriam e a que estavam habituados.

Nessa altura, a preocupação do diretor centrava-se no cumprimentos das responsabilidades com os funcionários e na salvaguarda do espólio de 43 anos de atividade da companhia. Um ano depois, Cintra acredita que fez o que foi possível fazer: "A Cornucópia acabou, já saímos do sítio, e demos destino a todas as coisas que lá estavam, da maneira que nos foi possível", dizia numa entrevista recente à Lusa.

Lamentava, no entanto, não ter havido, por parte dos responsáveis políticos, "uma vontade de utilizar aquilo que a gente tinha utilizado durante quarenta e tal anos e que podia servir de instrumento de trabalho para outras pessoas." Referia-se sobretudo ao espaço - uma sala de teatro completamente equipada e que teria dado jeito a qualquer grupo de teatro. O imóvel que acolheu o Teatro da Cornucópia desde 1975, o seu segundo ano de atividade - na rua Tenente Raul Cascais, em Lisboa - voltou para os seus proprietários. Algumas coisas foram entregues ao Museu do Teatro e outras ao Museu do Design, a parte mais documental do espólio foi para o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, "outras coisas, a gente vendeu ou ofereceu, selecionando caso a caso".

No Museu do Teatro, o espólio da Cornucópia está ainda a ser inventariado e tratado. Uma caixa de madeira pintada que a companhia usava para guardar os objetos quando andava em digressão. Cerca de 25 figurinos , de espetáculos diferentes, as máscaras douradas usadas em Muito Barulho Por Nada (1990) e outros objetos de cena. Além de uma coleção completa de cartazes e programas dos espetáculos da Cornucópia e fotografias, muitas fotografias - que se vieram juntar a todo o material que já havia no museu sobre a companhia (proveniente, por exemplo, dos espólios da atriz Glicínia Quartim ou dos críticos Carlos Porto e Fernando Midões). José Carlos Alvarez espera poder em breve mostrar todos estes items numa exposição: "Foi a companhia que escolheu aquilo que queria dar ao museu e gostaria de pensar também com eles numa maneira de expor as peças", diz.

"Não sofro horrores por não haver Cornucópia já", dizia Cintra, referindo que tem "um bocadinho de saudade", mas valoriza principalmente, a consciência que tem, do que foi ter construído uma espaço à medida da companhia, "que é uma diferença muito grande de estar sem espaço".

O Teatro da Cornucópia terminou mas há algo que permanece: as pessoas que fizeram a Cornucópia continuam a trabalhar e a levar consigo, para outros palcos, um modo de pensar e de fazer. É pelo menos isso que sente Levi Martins, da Companhia Mascarenhas -Martins, que desafiou Luís Miguel Cintra para fazer Um D. João Português - um projeto que se iniciou em abril, no Montijo, e que depois de Setúbal e Viseu esteve nos últimos dias em Guimarães. Em cada um destes sítios, o encenador trabalhou um ato da peça, num processo que se quis sempre aberto à comunidade. Nos dias 19 e 20 de janeiro, será a apresentação final da peça completa.

Entre os 16 intérpretes estão várias da Cornucópia: desde Luís Lima Barreto a Diogo Dória, Rita Durão e Sofia Marques, passando por jovens como Duarte Guimarães, Dinis Gomes e Leonardo Garibaldi. "Essa memória da Cornucópia está muito presente", diz Levi Martins. Uma memória que está viva e que pode ser usada para criar algo novo.

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