O primeiro dia dos 70 anos de Sérgio Godinho

Está bem integrado na lista daqueles em que a actividade significa muito mais do que a idade. Mas, como o tempo não pára nunca, pede-se licença para assinalar e festejar a passagem do SG Gigante a septuagenário singular. Carta aberta de João Gobern a Sérgio Godinho

Meu caro Sérgio: dizem alguns dos que me conhecem, mas não muito, que tenho a mania das datas redondas e das efemérides. Aqui entre nós, não é verdade: gosto mesmo é de aproveitar as oportunidades, arquitetadas mais do que efetivas, para contar histórias daqueles de quem gosto. Como acontece contigo. Se outro fosse o caso, nem viria aqui; às selectas páginas do centenário DN, assinalar o teu septuagésimo aniversário. Tanto mais que a imagem - carregada de preconceitos, bem sei - de alguém com 70 anos não bate certo, à partida, com a do homem que, há pouco mais de dois meses, vi esgotar e contagiar a sala de espetáculos da minha cidade de adoção (Teatro Garrett, Póvoa de Varzim), passeando com intensidade e sabedoria por canções de tantas idades, tantos ciclos, tantos géneros, que continua a impressionar como tudo se reconduz ao que foste semeando para nosso alimento. A energia mudou, como mudámos todos. A intensidade, essa é a mesma de que sou testemunha ocular - mas também auditiva - há 40 anos, fazendo cada vez mais questão de perder a conta aos concertos em que me empolgaste, comoveste e convenceste de ser, feitas as contas, um sortudo por poder seguir-te de perto. Num mapa que, assim de memória, passou tantas vezes por Lisboa, pelo Porto, por Évora, por Sintra, pela Póvoa, até pelo extinto Cinema Europa (A Vez e a Voz, certo?) ou pela Festa do Avante!. Sempre com lucro do meu lado.

Talvez não saibas mas o dia do teu nascimento, uma sexta-feira, foi muito importante para a música. Nasceu o Van Morrison, outro guerreiro de décadas. Nasceu o violinista Itzhak Perlman. Até nasceu um dos guitarristas de uma banda que os teve, vários e óptimos: Bob Welch, dos Fleetwwod Mac. Mas, deixa-me lá focar esta história, porque a 31 de agosto de 1945, no Porto, nasceste tu. Menos de um mês depois de o mundo ter estacado, incrédulo, a ver rebentar as bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki, matando e arrasando em nome da paz. Mas no próprio dia, o 31, em que um cientista indiano, num laboratório norte-americano, conseguiu a síntese do ácido fólico, vitamina B9, fundamental para tratar anemias, "indispensável para uma gravidez saudável", capaz de reduzir o risco da doença de Alzheimer, precioso para ajudar a evitar doenças cardíacas e derrames, bem como para controlar a hipertensão. Nada mau, até do ponto de vista simbólico, pois não?

Claro que só ouvi falar de ti muito mais tarde. As tuas primeiras canções que soube de cor foram o Maré Alta (mais fácil) e o Romance de Um Dia Na Estrada (mais difícil e depois "substituída" por A Noite Passada), resultado de audições em grupo. Ouviamos-te depois das aulas, subversivos sem o saber, com a mesma devoção que dedicávamos aos Genesis ou aos Yes.

O teu primeiro disco que entrou lá em casa - ainda hoje não sei exactamente como, por causa da proibição que alguém fintou com maestria - foi o Pré-Historias. Esse, cantava-o de uma ponta à outra, sem esquecer o minuto reservado para os poemas de Alexandre O"Neill. Depois, veio Abril, que, a juntar a tudo, também me permitiu conhecer o teu passado de exílio, de itinerância que me soava como uma liberdade vagabunda, de entrega a outras artes, as de palco. Lembro-me bem de te abordar, a ti e à Shila, à porta de uma "grande superfície" (ainda não lhes chamávamos assim) em Cascais, no Verão de 1974, e de teres a paciência de ficar ali à conversa durante uns minutos que me pareceram uma vida. Esse "encontro" ajudou a que os teus hinos que saltaram do À Queima-Roupa se tornassem património, armas convictas que podiam usar-se, mesmo em ambientes hostis. Ainda hoje assim acontece, acrescento.

Fui ouvindo sempre, acompanhando à distância, percebendo que não eras homem para te deixar enclausurar num formato, num modelo, numa ideia repetida. Senti o salto que deste na digressão Sete anos de canções (hoje quantos são?), segui as tuas colaborações com os cineastas (José Fonseca e Costa e aquele genial Kilas, O Mau da Fita, Luis Galvão Teles), as incursões pelo Teatro e pelo universo infantil.

Pelo meio, o gosto e a profissão levaram-me a escrever sobre o teu trabalho. Ainda hoje não sei ao certo quantas vezes ouvi o Campolide, o primeiro dos teus álbuns que me calhou também como tarefa. A colecção foi aumentando, a "cotação" também. E, admito-o agora, acompanhei aflito a tua prisão no Brasil, porventura menos interessado na notícia (fez parte das minhas tarefas diárias em A Capital até à tua libertação) do que no teu destino e no teu regresso.

Foi a propósito do Coincidências, esse inesquecível encontro com os grandes do Brasil, que te entrevistei, formalmente, pela primeira vez. Estava o Novelli, lembras-te? Mas, reconheço, não lhe passei grande cartão... Segui de perto a reconquista do Coliseu - Era Uma Vez Um Rapaz (1985) era igualmente o título da tua primeira colectânea. Cinco anos depois, o Escritor de Canções, versão intimista, para pleno prazer de quem foi ao Instituto Franco-Português.

Os discos foram-se transformando, mas soubeste sempre renovar-te sem te renegares, nas companhias como nas propostas. Fomo-nos cruzando e, naturalmente, foste espaçando as edições de originais, muitas vezes seguidas de perto por registos ao vivo, impressões rigorosas dos rumos a que o palco te levava.

Em 1994, aplaudi-te à distância quando foste condecorado com a Ordem da Liberdade - nem podia ser outra, certo? Ainda te vi arrebatar a Casa da Música, nos espectáculos que ajudaram a divulgar o disco Ligação Directa, um sintoma claro de que continuas medicado com o elixir da eterna juventude. Passei a aproveitar as tuas vindas à Póvoa para as Correntes d"Escritas - umas vezes conversamos, outras nem há ocasião para isso. Mas, acredita, li o Vida Dupla logo na semana em que chegou às livrarias. E gostei.

Desculpa o abuso, mas a relação parece-me saudável: tu crias, eu usufruo e, à minha maneira e com os "meios disponíveis", tento passar a palavra que tu tratas tão bem (não se fiem em mim, mas acreditem em todos os estudiosos da matéria, a começar no professor Arnaldo Saraiva, há algumas décadas).

Vou continuar, sem pressas mas sempre com urgência, à espera das notícias que decidires ir mandando. Da mesma forma que teimarei em ouvir e fazer ouvir todos os avisos, todos os recados, todos os alarmes que foste juntando numa obra que, se calhar sem disso teres noção cabal, nos vale em simultâneo como tubo de escape e como válvula de segurança.

Hoje, mesmo em papel de jornal, não me importo, mesmo nada, de voltar a desempenhar o papel de adolescente deslumbrado de há 40 anos. Com uma diferença: agora, a "grande superfície" és tu, capaz de desassossegar qualquer um para, logo a seguir, transmitires a calma que só os pacientes convictos sabem acolher. Lá iremos. Grande abraço.

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