O povo faz selfies, os atores produzem self-tapes

As audições para a escolha de atores recorrem cada vez mais às self-tapes, uma gravação feita pelo próprio ator para responder ao desafio dos diretores de casting. E é uma porta para a internacionalização. No evento Passaporte"17, dezenas de profissionais do espetáculo aprenderam os truques para fazerem boa figura

Publicar uma self-tape no Youtube? "Nunca! Um dia um parvalhão fez isso" -- e o destino do candidato foi de imediato traçado. Enfática, a resposta foi dada por Frank Moiselle, um dos dois diretores de casting que protagonizaram uma sessão aberta ao público sobre como fazer uma boa self-tape (uma gravação vídeo feita pelo próprio que é, no fundo, uma audição feita à distância). Perante um auditório composto em grande parte por atores, a outra oradora, Debbie McWilliams, completou: não se torna público um documento destes porque é privado e porque está a revelar informação sobre a produção. Esta e muitas outras perguntas foram feitas durante este workshop integrado no Passaporte"17, a segunda edição de um evento que reúne atores, agentes e diretores de casting europeus e americanos (dos Estados Unidos à Argentina) na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, em Lisboa.

"Organizei este workshop porque é importante que os atores se profissionalizem e que consigam aprender a fazer uma self-tape corretamente", explica Patrícia Vasconcelos, diretora de casting. Para este acontecimento da autoria da Academia Portuguesa de Cinema os atores foram convidados a participar num casting, ao qual tinham de concorrer com uma self--tape. Os 20 selecionados, num universo de 154, têm como prémio 15 minutos de entrevista individual e uma apresentação ao vivo em três minutos com os diretores de casting. Joana Pais de Brito, que os portugueses podem ver na RTP como uma dos Donos Disto Tudo, nunca tinha feito tal coisa, exceto para o Passaporte. Foi um dos atores selecionados e só tem palavras elogiosas para com o evento. "É uma oportunidade para conhecer estes diretores de casting e para ter o feedback de pessoas que trabalham em vários países, num nível muito bom", comenta. Joana Metrass, que vive entre Londres e Los Angeles afirma desconhecer outro local onde exista uma iniciativa como esta. "É uma iniciativa e uma oportunidade incríveis. São casting directors de topo, muitas vezes quando se faz castings para eles nem sequer os conhecemos, fazemos a audição para os assistentes", conta a rainha Guinevere da série norte-americana Once Upon a Time.

Para Joana Metrass, o casting faz parte do quotidiano -- seja de forma presencial, seja em vídeo. "Estou lá fora há três anos e o normal é ter dois castings por semana, pelo menos. Adoro fazer castings. É uma oportunidade de fazer aquilo de que gosto, mesmo que seja por cinco minutos. Tenho de preparar uma personagem, criá-la e apresentá-la a alguém", diz. Durante o workshop, Debbie McWilliams mostra uma série de self-tapes (a maioria com exemplos do que não fazer, das questões técnicas da filmagem à representação em si). Numa delas, um ator alterna o olhar entre a câmara e o lado, e com ar de enfado afirma não gostar de falar de si próprio, uma atitude que lhe custou um papel. "Há atores que dizem que não gostam de fazer castings e fico com pena deles, genuinamente. Porque a cada cem castings, com sorte, tens um sim, 99 são não. E só se tem prazer quando se tem um sim", resume Metrass.

Desta experiência, Joana Pais de Brito leva a experiência, mas também a esperança de que algo surja no futuro. "O mundo é muito pequeno, não é? Nunca se sabe". Esperança fundada também nos incentivos fiscais às produções estrangeiras em Portugal: "Há uma possibilidade de aumentar a procura de elencos adicionais e pequenos papéis".

O Passaporte"17 prossegue até domingo. Hoje, às 17.30, fala ao público a fotógrafa de atores Bee Gilbert.

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