O Panda do Kung Fu 3: um negócio da China

Estreou-se ontem o terceiro momento da série, uma das animações mais lucrativas e genuínas do estúdio americano DreamWorks

Rufem os tambores pelo regresso de Po! Este improvável "Guerreiro do Dragão" é um dos mais estimados bonecos da animação que nos chega da DreamWorks, desta feita em coprodução com a Oriental DreamWorks (congénere chinesa).

Ao terceiro filme, a saga que já nos tinha dado o percurso do panda que fora aprendiz numa loja de massinhas, mas que conseguiu realizar o sonho de se juntar aos grandes mestres do kung fu - não obstante o peso a mais - chega agora a uma fase em que o permanente contexto de luta contra o mal se coloca lado a lado com uma novidade afetiva: a descoberta da família de Po.

Filho adotivo do Sr. Ping, o ganso dono da loja de massas do Vale da Paz, o nosso amigo Po será visitado pela nostalgia de uma mãe que não conheceu, e por um pai biológico, Li, que só deseja resgatar o tempo perdido. Naturalmente, o Sr. Ping, qual ganso-galinha, não deixará de acompanhar o filhote rechonchudo para onde quer que vá, independentemente da sua idade... não lhe dê a larica pelo caminho. O destino é o paraíso secreto dos pandas, onde, supostamente, Li vai treinar Po para o ataque do vilão que se avizinha - um furioso iaque chamado Kai.

"Sê tu próprio"

Jogando com uma vertente mística oriental, por um lado, e por outro, com um cenário de diversão calorosa, num vale repleto de pandas (de todas as idades) que não fazem outra coisa senão brincar, descansar e comer, a mais-valia desta continuação de O Panda do Kung Fu é a sua capacidade de, sempre com elementos relativamente simples, se constituir como um objeto agradável, quer para crianças quer para adultos.

A mensagem geral de autoestima não mudou - "acredita em ti", "estamos juntos nisto" ou "sê tu próprio" - mas o mais extraordinário é que esses lugares-comuns, espécie de frases-talismã, não pesam sobre o grande entretenimento que se monta diante dos olhos, estimulam-no. Vejamos, é justamente porque alguns dos pandas não são capazes de lutar como Po (ou seja, não têm outro remédio senão "serem eles próprios") que tudo se transforma num fabuloso circo de variedades, em que a eficácia da animação digital - com o acréscimo do 3D - é desafiada na dimensão criativa dos seus realizadores, Jennifer Yuh Nelson e Alessandro Carloni.

A filosofia zen, os floreados do design gráfico asiático e a colorida linguagem estilística das artes marciais, que atraiu fãs um pouco por toda a parte, tudo isso mantém a coerência e a fluidez do imaginário criado. E neste filme, em especial, sente-se uma verdadeira intenção de deslumbramento, com paisagens idílicas a pedir um uníssono "uaaau!".

Não esqueçamos também os fiéis amigos de Po, o mítico mestre Shifu e os Cinco Furiosos (a Tigresa, o Macaco, a Louva-a-Deus, a Víbora e o Grou), que aqui, à exceção da Tigresa, serão vítimas do poder maléfico de Kai. Aliás, esta não é a única personagem feminina com destaque no rebuliço geral de O Panda do Kung Fu 3. A breve performance de uma roliça e charmosa panda dançarina, Mei Mei, não deixa ninguém indiferente... É por estas e por outras pequenas graças que a sequela não se torna uma versão cansada em relação aos filmes anteriores.

Uma carta de amor à China

Logicamente, este dá ares de ser o último, por fechar um ciclo, com o encontro da família de Po, embora a DreamWorks tenha, em tempos, colocado a hipótese de se fazerem seis doses desta iguaria oriental... No entanto, e na esteira do passado lucrativo, em que os resultados de bilheteira dos filmes de 2008 e 2011 excederam, cada, os 600 milhões de dólares em todo o mundo, a vontade de se imaginar ainda uma nova aventura, depois desta, pode não esmorecer. A propósito de ambição, foi a própria realizadora, de origem sul-coreana, Jennifer Yuh, que olhou para a trilogia como uma "carta de amor" à China e ao kung fu, afirmando que o importante era que fosse encarado, particularmente pelos chineses, como genuíno.

Trocando por miúdos: O Panda do Kung Fu é a mais concreta e feliz manifestação do apetite de Hollywood em expandir-se para o, muitas vezes cerrado e complexo, mercado da segunda maior economia do planeta.

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