O legítimo Bosch português vai passar 4 meses em Madrid

Desmontado em 2011 para ser estudado, o tríptico de Bosch que está no Museu Nacional de Arte Antiga será emprestado ao Museu do Prado em maio.

O tríptico de Bosch "Tentações de Santo Antão", do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), vai ser exibido entre 31 maio e 11 de setembro, no Museu do Prado, em Madrid.

A obra do século XVI assinada pelo pintor Hieronymus Bosch (1450-1516) vai figurar na grande exposição do Prado dedicada ao mestre holandês, para assinalar os 500 anos da morte do artista.

"As Tentações de Santo Antão" - a obra mais importante da coleção de pintura europeia do MNAA - vai figurar entre as 25 pinturas de Bosch, ou a ele atribuídas, que a exposição "El Bosco: La exposición del centenário" apresentará, incluindo "O Jardim das Delícias", da coleção do Prado.

O empréstimo surge no momento em que a autoria de três obras da coleção do museu espanhol -- A Extração da Pedra da Loucura, As Tentações de Santo António Abade e A Mesa dos Pecados Capitais -- está a ser posta em causa pelos investigadores holandeses que durante cinco anos percorreram a Europa em análises às obras do pintor e cujo relatório final será conhecido no dia 1 de fevereiro. Na mesma altura abre ao público a exposição "Hieronymus Bosch: Visões de um Génio", que estará patente em Hertogenbosch, cidade próxima de Amesterdão, onde o pintor nasceu.

Uma equipa de quatro especialistas do Bosch Research & Conservation Project (BRCP) esteve no Museu Nacional de Arte Antiga em setembro de 2011. Desmontaram o tríptico para submeter a obras a exames, de infravermelhos a microscópio.

Sem interferir, a equipa procurava desvendar o processo criativo de Bosch por baixo das camadas de tempo e de tinta. Com uma macrofotografia são capazes de precisar a densidade das pinceladas, a mistura de cores, as fissuras que o tempo provocou e as restaurações mal feitas.

Matthijs Ilsink, historiador de arte, especialista em Bosch e coordenador de operação, mostrou uma dessas macrofotografias, da orelha de um frade. O que a olho nu se parece com uma orelha de contornos bem definidos revela-se uma mistura de pinceladas de várias tonalidades. "Muito surpreendente para a altura, não é?", aponta.

Com o recurso à dendrocronologia, foi possível datar a idade da madeira dos quadros. "Sabemos que este quadro pode ser de Bosch". E com radiografia, fotografia de infravermelhos e a reflectografia é possível identificar, por exemplo, detalhes que o pintor começou por desenhar mas nunca chegou a pintar. Ou mesmo detalhes que Bosch chegou a pintar mas depois apagou. Caso do quadro Dilúvio, analisado no museu Boijmans Van Beuningen, em Roterdão, Holanda. O artista pintou um barco que não está na prova final. A descoberta não foi imediata, assegura Matthis Ilsink. Os painéis são divididos em quadrados e cada quadrado demorou 12 minutos a ser digitalizado. Só no final do dia perceberam a descoberta.

Além de "As Tentações de Santo Antão", a equipa examinou também o tríptico do Juízo Final, quadro oriundo do museu Groeninge de Bruges (Bélgica), que em 2011 se encontrava em diálogo com a obra da colecção do MNAA.

Antes de Lisboa, os investigadores estiveram na Bélgica, em Roterdão e em Viena. Seguiram-se o Museu do Louvre, em Paris, Bruxelas, Veneza e Madrid (museus do Prado e Escorial) e ainda cidades norte-americanas. O périplo só terminou em 2013 e durante mais três anos a equipa holandesa analisou os resultados.

Nascido em Hertogenbosch, na Holanda, cerca de 1450, Jeroen van Aeken, cujo pseudónimo é Hieronymus Bosch, dedicou-se à gravura e pintura, retratando, em muitas das suas obras, cenas de tentação e pecado, com figuras híbridas que vieram influenciar vários movimentos na História da Arte, nomeadamente o Surrealismo.

A mais importante pintura da coleção europeia

Se os investigadores põem em causa a autenticidade de obras do Prado, o mesmo não acontece com "As Últimas Tentações de Santo Antão". O diretor do MNAA garantiu ontem ao DN que o tríptico "tem um ADN da mais pura linhagem".

Assinado por Bosch, em 1500, o tríptico de Lisboa integra os quatro elementos do universo - céu, terra, água e fogo - tornando-os cenário de personagens estranhas, cuja presença remete para os temas recorrentes do artista: a solidão do homem justo perante o mal e o diabólico.

Contactado pela agência Lusa, José Alberto Seabra, diretor-adjunto do museu, indicou que aquela peça "é a mais importante da coleção de pintura europeia" do MNAA.

"As 'Tentações de Santo Antão', de Bosch, [são], em importância, o equivalente aos Painéis de São Vicente de Fora na pintura portuguesa", sublinhou.

A obra terá chegado a Portugal com Felipe II de Espanha, I em Portugal, um ávido colecionador de obras deste pintor.

Desde que há registo da entrada do quadro no museu, em 1913, proveniente das coleções reais que se encontravam no Palácio das Necessidades, o tríptico de Bosch saiu quatro vezes do MNAA, indicou José Alberto Seabra à Lusa.

Em 1935 esteve em Paris, para participar numa exposição sobre mestres holandeses, em 1936 esteve em Roterdão, na Holanda, para uma exposição dedicada a Bosch, e viria a sair novamente em 1958, para Amesterdão, para uma mostra de arte holandesa.

A última vez que o tríptico da coleção portuguesa saiu do museu foi em 1991, para a exposição sobre a arte no tempo das Descobertas, na National Gallery de Washington, nos Estados Unidos - "Circa 1492" - quando passavam 500 anos sobre a data que assinala a descoberta da América.

"As Tentações de Santo Antão" vão viajar desta vez para o Prado, no âmbito de um intercâmbio assinado há dois anos entre o MNAA e o museu espanhol.

Em troca, o MNAA receberá, na mesma altura, o autorretrato do pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), datado de 1498, considerada uma das mais emblemáticas obras do Museu do Prado, e também raramente exposta fora de Espanha.

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