O humanismo cruel de Oliver Stone

John F. Kennedy, Richard Nixon e George W. Bush: todos foram abordados pelo realizador de "Platoon"

Na história das últimas três décadas de Hollywood, Oliver Stone (n. 1946) é muitas vezes encarado como símbolo modelar do cineasta "rebelde", da pureza do drama (Wall Street, 1987) à violência do thriller (Selvagens, 2012). Foi ele também que, através de Platoon (1986) e Nascido a 4 de Julho (1989), encenou de forma muito direta e contundente as histórias e os traumas de toda uma geração (a sua) marcada pela Guerra do Vietname.

Paradoxalmente ou não, os seus retratos de presidentes dos EUA combinam uma implacável visão crítica com um intenso calor humano. Veja-se ou reveja-se o caso exemplar de Nixon (1995), em que o extraordinário Anthony Hopkins recria a figura do presidente que caiu em desgraça por causa do escândalo Watergate. É bem verdade que o filme não poupa detalhes, entre o anedótico e o escabroso, para caracterizar uma personalidade que, para nos ficarmos pela definição mais básica, não primou pela honestidade; ao mesmo tempo, quanto mais avançamos e a ignomínia se inscreve na impressionante máscara de Hopkins, dir-se-ia que, em paralelo, descobrimos as muito humanas fragilidades da saga afetiva de Richard Milhous Nixon.

Será essa, afinal, uma marca de um genuíno humanista. A saber: a capacidade de encenar um líder político, mesmo na crueldade do ridículo, sem apagar as evidências e enigmas que definem um ser singular e, por isso mesmo, irredutível. Assim acontecia também em W. (2008), filme centrado numa outra brilhante interpretação, desta vez de Josh Brolin.

O retrato de George W. Bush construía-se como uma farsa trágica em que o protagonista evoluía da condição de ovelha negra da família a candidato a líder do mundo livre. Numa cena de perverso simbolismo, o pai, outro presidente, George H. W. Bush (interpretado por James Cromwell), repreendia o filho pelo seu comportamento indigno enquanto estudante universitário, perguntando-lhe: "O que é que pensas que és? Um Kennedy?"

Memórias de Kennedy

John F. Kennedy, justamente, constitui uma referência nuclear no universo criativo e ideológico de Stone, estando na base da sua obra-prima JFK (1991). Não se trata, no entanto, de uma abordagem biográfica. A evocação da visita fatal à cidade de Dallas (onde Kennedy foi assassinado a 22 de novembro de 1963) é feita a partir de acontecimentos posteriores, em particular do trabalho do procurador Jim Garrison (Kevin Costner numa das suas melhores composições) e do seu empenho em demonstrar que o presidente não foi vítima de um atirador isolado, Lee Harvey Oswald, mas sim de uma conspiração que poderá ter tido origem no "complexo militar-industrial".

Através de um assombroso trabalho de montagem, integrando o célebre "Zapruder Film" (que regista os instantes em que as balas atingem Kennedy), JFK discute o labirinto através do qual a verdade se pode revelar ou ocultar. Para lá de qualquer simplismo "conspirativo", Stone celebra em Garrison a exigência de não desistir da verdade - tal exigência envolve um profundo amor pela nação americana. Será esse o feliz paradoxo do próprio Stone: celebrar os valores ancestrais do seu país sem perder a capacidade de criticar as respetivas instituições. Foi ele, afinal, quem dirigiu World Trade Center (2006), um dos filmes mais tocantes sobre os atentados terroristas do 11 de Setembro.

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