O grande arco da dança ou o poder do autor

A partir de 2 de fevereiro, o Festival GUIdance desenha um grande arco poético em Guimarães.

Como pode um festival criar um campo de tensões que formule mais questões que respostas concedidas, para permitir ao público definir a sua própria procura na relação com um conjunto de manifestações criativas vitais?" A questão é enunciada por Rui Torrinha, programador do Festival GUIdance que, para esta edição, imaginou a "possibilidade de criar um grande puzzle assente numa série de nexos, que pudesse obedecer a vários encaixes na sua forma de leitura ou vivência. Ou seja, mais que uma obra bem esculpida, um processo aberto que se definisse pela forma como o espectador nele se conduz". Ou seja também, um processo que assenta em nós, espectadores, mas não procura o consenso, antes resolve refletir sobre o trabalho autoral, e o seu poder "num tempo em que se tenta propagar furiosamente o gosto comum. E senti que seria importante atravessar gerações na procura dos que continuam a resistir ao tempo e colocá-los lado a lado com os que agora emergem com a mesma urgência criativa".

Entre os nomes fundamentais estão o do coreógrafo britânico Russel Maliphant e a sua companhia - que celebra agora 20 anos e que abre a programação do festival, em estreia absoluta em Portugal, com um programa que põem em relevo a colaboração com o designer de luz Michael Hulls - e Wim Vandekeybus, que também está a festejar os 30 anos da sua companhia Ultima Vez e que encerra o GUIdance, a 11 de fevereiro (CCVF, Grande Auditório), com a estreia nacional de Speak low if you speak love, espetáculo assente em músicas de Mauro Pawlowski (cúmplice antigo do coreógrafo belga) interpretadas por Tuto Puoane, carismática cantora sul-africana, que "não é uma ópera, nem um musical, mas uma combinação irrequieta de música experimental e tradição clássica em que o tema central é o amor".

A assinatura fortemente individual mas em cumplicidade com outros criadores permeia também os vários trabalhos que resultam de um processo de co-criação e que estão em destaque no festival. Além de João dos Santos Martins e Cyriaque Villemaux e da dupla Jonas&Lander, Jefta van Dinther e Thiago Granato mostram pela primeira vez em Portugal a peça This is Concrete (CCVF, dia 10, 21.30) - em que dois corpos se "embrenham incessantemente, esbatendo as fronteiras um do outro, imersos num ambiente sonoro de batidas estonteantes e sombras giratórias" - e a dupla de jovens criadores Ana Jezabel e António Torres apresenta A importância de ser (des)necessário, em estreia absoluta, uma peça que explora a ideia de luto e luta e "a preservação do conceito de individualidade e personalidade". Ligados e em constante tensão, ambos "vagueiam pela cena à procura de um novo (des)equilíbrio"(dia 11, Black Box da Plataforma das Artes, 18.30 e, de 17 a 19, na Rua das Gaivotas 6, Lisboa).

Além de Tânia Carvalho, o GUIdance sublinha também a importância da carreira, do vocabulário e do trabalho fortemente autoral de Luís Guerra, também ele um criador que se expressa em múltiplas linguagens: a coreografia, o desenho, a interpretação da dança. Depois de construir um universo inteiro - Laocoi - e de explorar o Gelo, o Vento, o Nevoeiro e a Tempestade nas suas últimas peças, o criador apresenta um mundo para lá do visível em A Tundra,"um dos biomas mais ventosos, secos e frios deste planeta. A severidade deste ecossistema convida, muitas vezes, a que abrandemos para nos entregarmos à contemplação. Um local privilegiado para observarmos silêncio interno", convida Luís Guerra (dia 09, CCVF, às 21h30, depois de estrear a 2 no Teatro Viriato, no Teatro Municipal da Guarda (4), Teatro Maria Matos (7)).

A juntar aos espetáculos, o festival tem um cartaz de atividades paralelas pensado para aproximar público, artistas, escolas e pensadores: masterclasses, conversas pós-espetáculo, sessões para escolas e debates que são outros tantos caminhos para a dança. "Tentamos, a cada edição, construir um grande arco que poeticamente evoque os vários lugares que a dança nos pode oferecer através de uma importante diversidade de estéticas, proveniências e gerações", diz Rui Torrinha, a fechar o círculo.

Russell Maliphant

A abertura da edição 2017 do GUIdance fica por conta de um nome marcante da dança contemporânea que finalmente se apresenta em Portugal: Russell Maliphant e a sua companhia apresentam um espetáculo que condensa o trabalho do coreógrafo britânico num momento em que este celebra 20 anos da sua companhia e de parceria com o designer de luz Michael Hulls: Conceal | Reveal apresenta, numa só noite "de poesia física", criações recentes e um clássico da companhia, incluindo um solo criado para a bailarina Dana Fouras e o quinteto Piece Nº43.
Dia 2, às 21.30, Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF)


João dos Santos Martins e Cyriaque Villemaux

Autointitulado é um mergulho na história da dança que estilhaça as memórias e as referências de ambos os criadores - que pela primeira vez se juntam num trabalho de criação - para com elas jogar de novo, num processo que tem tanto de lúdico como de questionamento de noções fundamentais (ensaio e repetição, por exemplo). Autointitulado não é um dueto, antes - esclarecem os autores - "um solo de dança compartilhado por duas pessoas. Um livro de imagens. O reflexo de um processo de improvisação que contém uma sensação de infinito".
Dia 3, 21.30, Pequeno Auditório do CCVF

Jonas & Lander

Após 3 anos a mergulharem "no campo criativo um do outro", a dupla assume uma direção partilhada como ponto de partida, "num ato simbólico de uma união criativa". O resultado é uma "dança complexa, que é também um desafio ao público", a peça Adorabilis. "Pretende-se criar um espaço solene preenchido com diversas manobras ritualísticas operadas por corpos em estado de emergência. Estes corpos dançantes pretendem alterar a velocidade do tempo visual através de constelações coreográficas nervosas", afirma a dupla de criadores.
Dia 4, 18.30, Black Box da Plataforma das Artes e da Criatividade

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