O fado que sai das portas e das janelas

O Festival Caixa Alfama começou ontem ao fim do dia e seguiu noite fora. Hoje regressa, com Raquel Tavares na despedida. Mas pelas ruas do bairro, o festim do fado segue como sempre, com as tascas e as ruas cheias de gente que canta sem precisar de uma data mais especial

"Está ali o fado." Um sorriso indiano à porta da mercearia na rua estreita a ajudar nas indicações do mimo que, no salão de festas de Alfama - o Largo do Chafariz de Dentro -, recebe os visitantes com o enigmático cartaz Fado Inesperado, e aponta o caminho.

Não abre a boca, como bom mimo que é, e o visitante segue a provocação. Na esplanada de um restaurante da Rua de São Miguel há sardinhas, bacalhau e uma fadista do bairro - e isso não precisa de palavras para se perceber. Sente-se. E quando chegam da audiência "lindo!", "boa Maria", "começa tu, Tininha", temos a certeza. Este Fado Inesperado é uma espécie de aquecimento do Festival Caixa Alfama, que ontem começou em Lisboa (e termina hoje). Acontece antes dos outros concertos, entre as 19.00 e as 20.00. As vozes que ali desfilam foram escolhidas por Jorge Fernando, depois de uma seleção feita pelas ruas do bairro.

Tininha de Alfama canta com Maria Ramos e Lucas Calapez o fado final. O arranque do trio sai em falso. Recomeçam, "isto é mesmo inesperado, nem ensaiámos", cantam, as palmas fortes, e saem da esplanada para junto dos amigos e da família. Tininha está emocionada. Tem 48 anos e há mais de meia vida que admira o músico Jorge Fernando: "Nunca pensei vir a ser escolhida por ele." Diz que há muitos "talentos escondidos no bairro" que iniciativas como esta ajudam a descobrir.

Na mercearia da Rua de São Pedro, a dona Manuela ainda come uma bucha com a amiga. Já está de pulseira no braço e não quer perder FF, Fábia Rebordão e Carminho, que conhece desde "a barriga da mãe", diz fazendo o gesto na sua própria barriga.

Voltamos ao largo - onde o chafariz que lhe dá nome está escondido por um tapume, em obras. Lá em cima, em três janelas, chegam outros tantos guitarristas e guitarras à hora marcada: 19.45. As esplanadas estão cheias, há um bruaá de gente que come comida rápida ou mais lenta, pede caipirinhas, vinho, cerveja, encontra-se ou desencontra-se enquanto as guitarras choram. Há quem passe de banco a tiracolo, há quem arraste o cachorro mas é obrigado a parar no meio do largo para um enorme chichi. E há os que estão a chegar, de mala aviada e olhar perdido. A grega Marina e o namorado procuram a casa de Alfama onde vão passar uns dias de férias. Marina não sonhava com o que se estava a passar, achava que ia "sentar-se a comer e descansar" depois de pousar a mala. Mas quando viu fado a sair da janela, da porta, de todo o lado, em frenesim, ficou baralhada.

No Museu do Fado há fila à porta. E fila depois da porta. A lotação está esgotada no auditório onde Guilherme Banza (guitarra portuguesa) se apresenta com Bernardo Miranda e Frederico Gato. Lá fora, esperam que alguém desista, mas ninguém sai. E mal entramos percebemos porquê: Banza está entre amigos e dá-lhes mimos. "Estou a apresentar os temas novos de um disco de tributo ao rock mundial." Ainda o concerto está a começar e já há gente de pé, a aplaudir.

Má sorte para quem ainda espera lá fora: o conta-gotas do segurança está parado. À porta do museu está Luís Montez a ser abordado por duas moradoras do bairro que lhe cravam pulseiras que dão acesso aos concertos. "Vivi aqui seis anos, esta senhora é amiga da que me arrumava a casa. Não podia recusar", diz apressado ao DN o diretor da Música no Coração, enquanto se prepara para receber o ministro da Cultura para logo seguirem Rua de São Pedro fora, entre mesas postas de gentes e Alfama que parece pura. Entram no Grupo Sportivo Adicence, canta Vânia Duarte. "Fado é ternura" canta a ela no escuro. Também aqui há palmas batidas com força, palavras cúmplices que saem do público - que às vezes também não parece público e canta em uníssono com a emoção de quem está no palco.

Só no palco principal, junto ao rio (longe do rendilhado de ruas), se percebe que, afinal, está vento. Aqui é menos bairro e mais festival. Chega Gisela João: "Voltaste, ainda bem que voltaste", canta. Chegam cada vez mais pessoas, mas o recinto está longe de estar cheio. Continuam a chegar pessoas, mas os seguranças não têm de contar quem sai para deixar outros tantos entrar.

Nas ruas do bairro, o fado chega de todo o lado. Além do festival, há uma Alfama que tanto parece nem dar por ele como miscigenar-se, tranquilamente. Restaurantes cheios, com copos de vinho cintilante apesar das luzes baixas, corpos imóveis e fadistas de xaile nos ombros e vozes fundas. Também o homem que canta na janela lá de cima, em casa.

Em Alfama há um puto que desce de bicla no meio do Largo de São Miguel sem se importar com aquela gente a mais. Faz soar a campainha. A seguir vêm os amigos. Não é um festival qualquer que lhes vai estragar a brincadeira.

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