O elogio da loucura de Pirandello nos 45 anos da Comuna

Loucura e razão, realidade e fantasia digladiam-se em Henrique IV, de Pirandello. A partir de hoje, em jeito de triplo aniversário.

"Todos nós nos agarramos de boa-fé a uma boa imagem de nós próprios", diz a páginas tantas o homem que se diz Henrique IV, protagonizado por Carlos Paulo. Com humor e ironia, a questão da identidade perpassa a obra de Luigi Pirandello (1867-1936). Isso é visível desde o primeiro volume de teatro do autor siciliano (Máscaras Nuas, 1918) e é o cerne de Henrique IV, de 1922. "Uma homenagem que Pirandello faz ao teatro", diz o encenador João Mota, justificando a escolha para a tripla comemoração em curso na Comuna - Teatro de Pesquisa: no dia 1 celebra 45 anos, ao passo que Mota iniciou-se nos palcos há seis décadas e o ator Carlos Paulo há cinco.

Algures no princípio do século XX, uma aristocrática cavalgada de Carnaval termina em acidente: o marido da marquesa Matilde cai do cavalo e quando volta a si acredita ser a personagem que representa, o imperador Henrique IV do Sacro Império. A irmã do doente mental tratou de transformar a casa num palácio medieval, no qual não faltam na corte conselheiros de faz-de-conta. É com estes a entrar em cena que arranca Henrique IV, após vinte anos de reinado. Os falsos conselheiros do falso soberano instruem um recém-chegado. Fica a saber que este Henrique IV é o da Alemanha e não de França, e que viveu há uns 800 anos. "Eu não sabia a ponta de um corno", admite, do papel que vai interpretar na farsa. Mas afinal quem são, pergunta o homem que ganha o nome de Bertoldo: "Somos nomes desse tempo (...) Nós temos a forma mas falta-nos o conteúdo." Está dado o mote para esta obra.

"Henrique IV é uma peça que já persigo há muitos anos, raramente representada em Portugal. Salvo erro, a última representação é de 1933, pelo Alves da Cunha. Quantas profissões temos por dia? Se formos ao médico vamos queixar-nos, há os outros que estoicamente dizem nunca estar doentes e também representam. Quantas personagens cada um de nós faz por dia? Qual é a verdade? Nada é verdade. A verdade parece, só pode parecer. Nada é verdade. Só temos uma verdade: o eu interior e a transparência que é possível. O que é ser ator, o que é a criação, e esta peça é maravilhosa sobre isto", reflete João Mota, que também faz o papel de mordomo Giovanni.

A morte da irmã do monarca de pechisbeque precipita os acontecimentos. Como última vontade delega ao filho, o marquês Carlo (Francisco Pereira de Almeida), a missão de tudo fazer para que aquele recupere a consciência. Este faz-se acompanhar de um médico (Igor Sampaio), da marquesa Matilde (Custódia Gallego), de Frida, a filha desta e noiva do marquês (Maria Ana Filipe) e do barão Belcredi (Guilherme Filipe), o velho rival do marquês. Depois de interrogar Henrique IV, o médico mostra-se otimista: "Podemos ter esperança em acertá-lo como a um relógio." E giza um plano: vestir Frida como Matilde estava há 20 anos. A máscara do imperador cai, mas não da forma como alguns esperavam e o barão temia: "Preferi continuar louco a viver com a mais lúcida consciência."

"Muito, muito exigente, muito complicado, porque me traz à memória muitos outros papéis que já fiz. E tem o lado do teatro dentro do teatro. Há muita coisa de que não tenho memória, já fiz cento e tal peças, mas outras ficaram. E de repente esta trouxe-me coisas que eu pensava que estavam arrumadas, guardadas. O meu trabalho foi voltar ao princípio e isso mexe muito ao nível interior, com aquilo que é a nossa profissão, que é fazer de", comenta Carlos Paulo. O ator (e figurinista) relaciona a peça com a atualidade: "Olhamos para a rainha de Inglaterra e, coitadinha, já não a vemos como um ser humano. Hoje já ninguém quer ser como é, toda a gente quer ter uma aparência de qualquer coisa."

Festa na Praça de Espanha

Na noite do próximo domingo, o casarão cor-de-rosa - ocupado em 1975 pela Comuna - abre as portas para festejar o 45º aniversário do grupo teatral. "Espero ter cá algumas pessoas que deviam cá vir", diz João Mota, aludindo a responsáveis políticos. E Marcelo Rebelo de Sousa, também? "Claro que gostava de ter cá o Presidente. É um Presidente que me surpreendeu." Desafiado a escolher um momento especial nestas quatro décadas, Carlos Paulo não hesita: "Aqueles nossos primeiros três anos foram extraordinários, contra tudo e contra todos. Criou-se um espírito de grupo e ainda hoje o João Mota continua a ganhar o mesmo do que o técnico, que é para cada um sentir-se tão responsável quanto o outro." Carlos Paulo identifica os problemas: "O difícil é manter e não deixar que fique velho. O João (Mota) tem consciência disso e eu também. Mas para nós está tudo muito mais difícil. Nunca tivemos uma política cultural tão vergonhosa quanto neste momento."

"A Comuna conseguiu ter coragem durante 45 anos, como o Luís Miguel Cintra teve coragem em dizer que não. É coragem continuar, como é coragem dizer que chega", comenta João Mota. A caminho dos 75 anos, o encenador prefere olhar para a frente: "A grande festa vai ser nos 50 anos, se ainda formos vivos. Nesta peça há pessoas de 70 anos, de 60, de 40 e de vinte e tal. Essa mistura é essencial para anunciar futuros."

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