O elevador da rainha voltou a servir os visitantes do Palácio da Ajuda

Ontem foi dia de visita a espaços habitualmente fechados do Palácio da Ajuda, uma iniciativa integrada no Dia Mundial dos Monumentos e Sítios. E até Paula Silva, diretora-geral do Património Cultural, foi espreitar.

"Não sei se esta madeira não está a precisar de um bocadinho de hidratação", observa Paula Silva quando se entra no espaço onde se pode ver a estrutura da abóbada que suporta o teto da Sala dos Embaixadores do Palácio da Ajuda. O destinatário é José Alberto Ribeiro, diretor do palácio, que, tal como a diretora-geral do Património Cultural, ontem participou na visita guiada que juntou cerca de duas dezenas de pessoas que se inscreveram no percurso "À Descoberta do Paço Real". Esta foi uma das quase 600 iniciativas que assinalaram o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios em todo o país, simplesmente com entradas gratuitas ou organizando atividades diferentes das habituais. Como esta que levou os visitantes por espaços que normalmente não estão acessíveis a quem visita o palácio.

Esse espaço, onde uma estrutura de madeira deixa adivinhar o abobadado de uma das salas mais icónicas do Palácio da Ajuda, a dos Embaixadores, revestida a mármores, foi um dos locais por onde Teresa Marecos, do serviço educativo, guiou os passos do grupo de visitantes. Só com as telhas por cima das cabeças, altura para explicar que "são conhecidas desde sempre as infiltrações no Palácio. O rei D. Luís, antes de se mudar das Necessidades para aqui morar, descreve-as".

Antes de se passar ao varandim no torreão, uma pequena surpresa: "Espreitem por aqui", convida Teresa Marecos, apontando para um pequeno orifício entre duas das ripinhas de madeira de onde a argamassa se esboroou. As marcas de pó na roupa mostraram depois que não houve quem resistisse ao apelo e não tivesse alinhado um dos olhos por aquela pequena abertura para descobrir, mesmo em frente, um dos muitos querubins que decoram a elíptica Sala dos Embaixadores. Depois, como recompensa, uma vista única a partir do varandim do torreão: das Amoreiras a Palmela, passando pela Basílica da Estrela, com a Ponte 25 de Abril, o Tejo e o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia ali em primeiro plano.

Só faltava a descida pelas escadas de serviço e a fotografia de grupo na Sala dos Embaixadores para Teresa Marecos dar por terminada a visita que começara cerca de 45 minutos antes com ela a lembrar que o Palácio Nacional da Ajuda fora construído após a destruição do Paço da Ribeira, consequência do terramoto e maremoto de Lisboa. Isto logo na primeira sala do Palácio, onde se compra o bilhete e por cuja porta, assinalou, entravam diariamente o rei D. Luís e a rainha Maria Pia que aqui moraram e criaram os filhos.

Depois desta sala, a dos Archeiros, é preciso percorrer a Sala do Reposteiro (onde o porteiro da cana anunciava quem era recebido pelo rei), a Sala de Espera e a Sala do Despacho para se abandonar a passadeira vermelha que guia os visitantes pelo percurso habitual do palácio. "Para lá destas portas, a família real vivia enquanto família", anuncia Teresa Marecos. E passando essa porta, que regra geral está encerrada, abre-se uma outra à direita e "eis as escadas do gabinete de sua majestade, com corrimão de ferro, que terá sido terminada entre 1818--1821, ao mesmo tempo que da Sala dos Embaixadores", ou seja, cerca de 25 anos após a colocação da primeira pedra do Palácio. E pegando neste trabalho que anuncia já um estilo neoclássico, a guia aproveita para falar nos três arquitetos responsáveis pelo paço, desde Manuel Caetano de Sousa que o começa com traça barroca, a Francisco Xavier Fabri e José da Costa Silva que lhe conferem "a veia neoclássica" que entretanto já dominava a arquitetura europeia.

Regressando à Sala do Despacho, uma outra porta se abre excecionalmente. Basta atravessar um pequeno espaço normalmente utilizado para as atividades infantis e logo se chega ao elevador da rainha. "Só utilizado pelo Presidente da República, membros de famílias reais e figuras de Estado. E hoje, por nós também", diz Teresa Marecos. "De 1888, começou por trabalhar com bomba hidráulica", explica, mas olhando-se para a porta, parece um normalíssimo elevador de um qualquer prédio. "As plantas encontram-se na Torre do Tombo e está a ser feita uma investigação pelo que em breve saberemos mais sobre este elevador."

Quando as portas se abrem, as diferenças saltam aos olhos: revestido a madeira trabalhada, com bancos em veludo a toda a volta e enormes espelhos por cima dos lugares sentados, parece uma cápsula onde o tempo parou. A visita é retomada no terceiro andar, mais precisamente na sala do antigo 14, uma antecâmara da toilette das senhoras, que serviu de sala de espera das primeiras-damas antes do início dos banquetes de Estado. "Já aqui esteve a princesa Diana e Camila Parker Bowles", confidencia a guia. Daqui, a visita segue para a Sala dos Embaixadores onde, por trás de um dos reposteiros azuis, se acede aos lanços de escada estreitinhos que levam ao espaço onde se iniciou este texto.

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