O drama íntimo de uma criança diferente das outras

"Wonder - Encantador" é a história de um menino com o rosto deformado por uma doença congénita - um drama humano que pode valer a Julia Roberts uma nova nomeação para os Óscares.

Disostose mandibulofacial. A expressão médica não seria tema óbvio para um filme. Mas assim acontece em Wonder - Encantador (estreia quinta-feira), centrado num menino atingido por aquela doença rara, também designada por síndrome de Treacher Collins: manifesta-se através de deformações congénitas do rosto e do crânio, normalmente exigindo uma série de cirurgias mais ou menos complexas envolvendo, em particular, os olhos, os dentes e os sistemas respiratório e auditivo.

Wonder não é um relatório médico, nem sequer um documentário sobre a doença. Trata-se, aliás, da adaptação do romance homónimo de R. J. Palacio, entre nós lançado com o título Milagre (ed. Asa, 2012). Talvez possamos resumir a sua vibração dramática através da frase do próprio protagonista, Auggie Pullman, citada na capa dessa edição portuguesa: “Não vos vou descrever a minha cara. Seja o que for que possam pensar, é pior.”

Quando o filme começa, Auggie é já um estudante do quinto ano de escolaridade. Mais exatamente, está à beira de entrar na escola, uma vez que a sua existência foi, até aí, vivida na segurança do lar familiar, tendo a sua mãe, Isabel, como professora. Com o rosto marcado pelas muitas operações a que foi sujeito, Auggie gosta de se imaginar um astronauta a caminho de outras galáxias. O seu capacete funciona, aliás, como objeto dúplice: é um elemento essencial nas suas brincadeiras e também uma máscara que, para ele, funciona como proteção do olhar dos outros.

A realização de Stephen Chbosky contorna a facilidade de transformar a odisseia de Auggie num testemunho “abstrato” sobre a doença. Trata-se de encenar um drama muito íntimo que nasce do mais puro e paradoxal desejo de integração: Auggie é o primeiro a reconhecer a sua “diferença”, mas é também ele que anseia ser tratado como um ser “normal”. Chbosky tem-se distinguido, aliás, como um profissional versátil, capaz de abordar com tato e delicadeza as diferenças humanas - veja-se o seu filme anterior, As Vantagens de Ser Invisível (2012), baseado num romance de sua autoria, sem esquecer que integrou a equipa de argumentistas da recente versão de A Bela e o Monstro, produzida pelos estúdios Disney.

O impacto de Wonder decorre da capacidade de encenar as atribulações de Auggie recusando as facilidades de qualquer perspetiva banalmente piedosa. É um filme de muitas emoções, tanto mais genuínas e contagiantes quanto nascem das singularidades humanas das suas personagens.

O talentoso Jacob Tremblay

É inevitável destacar a performance do pequeno e talentoso Jacob Tremblay. Canadiano, nascido em Vancouver em 2006, já não é um principiante - vimo-lo numa espantosa relação mãe/filho, contracenando com Brie Larson, em Quarto (2015), de Lenny Abrahamson. Agora, Tremblay consegue representar Auggie com o rosto marcado por uma pesada caracterização (notável trabalho de uma equipa dirigida por Naomi Bakstad), sem nunca ficar reduzido a “símbolo” clínico.

Importa insistir neste ponto, quanto mais não seja porque a linha da frente do mercado cinematográfico global (por vezes, com o contributo de algumas formas seguidistas de jornalismo) continua dominada por personagens mais ou menos virtuais, definidas, não a partir de qualquer componente humana, apenas através dos respetivos “efeitos especiais”. Ora, desde a família de Auggie até aos seus companheiros de escola, Wonder é um filme de gente viva e contraditória, relançando o mais primitivo dos dramas. A saber: como é que as nossas diferenças podem contribuir para a construção de um território comum de comunicação.

Tremblay surge como a presença nuclear de um elenco invulgar, ilustrando também uma verdade tantas vezes esquecida: muito mais do que uma história de “efeitos especiais”, o património artístico de Hollywood define-se a partir da riqueza e complexidade dos seus atores. No papel da mãe, Julia Roberts volta a confirmar a notável capacidade de gerir a carreira em função da sua idade (celebrou 50 anos no passado dia 28 de Outubro); Owen Wilson interpreta o pai com esse misto de ligeireza e gravidade que, com ele, está sempre aberto a novas variações; enfim, atenção a Mandy Pantikin, no papel do diretor da escola, expondo os desafios institucionais e éticos que a integração de Auggie pode envolver.

Independentemente da sua vida comercial, Wonder fica como um brilhante exercício de cinema que sabe ser pedagógico sem ser moralista. Seja como for, registe-se o facto de, nas salas dos EUA, estar a ser um verdadeiro fenómeno: com um orçamento de 20 milhões de dólares, as suas receitas de 75 milhões, em apenas duas semanas de exibição, constituem uma invulgar proeza (é verdade que, também no mercado americano, Liga da Justiça já acumulou 180 milhões - mas custou 300). Aliás, tal performance pode servir de alavanca para uma presença forte na temporada dos prémios e, em especial, na corrida aos Óscares: Julia Roberts tem todas as condições para voltar a ser nomeada e não será surpresa se Wonder surgir, pelo menos, entre os candidatos a melhor argumento adaptado e melhor caracterização.

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