O Deus de Dormael vive em Bruxelas e gosta de atazanar as pessoas

Jaco Van Dormael explica como teve coragem para pedir a Catherine Deneuve para fazer uma cena de cama com um gorila gigante

Exercício de imaginação: o que passará pela cabeça deste homem quando decide escrever uma cena em que vemos um gorila enorme numa cama ao lado de uma senhora que fuma um cigarro no pós-coito. Ajuda se dissermos que a senhora é uma muito bem composta Catherine Deneuve, sempre capaz de tudo.

Claro, estamos no imaginário louco e incorrigível de Jaco Von Dormael, cineasta e argumentista belga que nos Encontros do Cinema Francês da Unifrance, há mês e meio em Paris, era o homem mais feliz do mundo. Deus Existe e vive em Bruxelas, que esta quinta-feira estreia em Portugal, está a ser um sucesso à escala de Toto, O Herói, o filme que fez dele um realizador com nome em 1991.

"Desde a Quinzena dos Realizadores de Cannes que sinto que as pessoas amam mesmo este meu filme e o que me surpreende é que funciona em países diferentes. Diria que encontrei o humor universal com este meu Deus. Só os espanhóis é que não o tornaram num sucesso, infelizmente. Seja como for, nunca percebo porque é que um filme funciona ou não. Às vezes as pessoas encontram a garrafa com a mensagem que eu lanço ao mar!", conta Jaco, homem gigante de tamanho e com um sorriso que é capaz de ter sido fulcral para convencer atores como Benoît Poelvoorde, Catherine Deneuve e François Damiens para entrar numa comédia negra sobre a relação entre o Todo-o-Poderoso e a sua filha de 11 anos em plena capital belga. Este seu Deus tem mau humor, gosta de atazanar as pessoas com coisas como a lei da probabilidade da fila do lado ser sempre mais rápida e coisas desse género.

Será isto humor belga? O que é o humor belga? "É fazermos piadas connosco próprios e sermos um pouco malucos. Puxa, vivemos num país com três línguas e onde ninguém concorda com nada! Na Bélgica ninguém faz a ideia do que é Bélgica... Sempre fomos gozados nas anedotas, por isso o melhor é fazermos nós mesmos primeiro as piadas. Além disso, eu aposto no absurdo e no nonsense, bem ao contrário do cinema muito realista que se faz na Bélgica", responde o realizador.

Voltamos à sugestão sexual da imagem forte de Deneuve na cama com um gorila amante. A provocação, segundo o realizador, foi escrita sem saber se a atriz aceitaria o desafio: "a ideia ocorreu-me quando houve aquelas marchas de protestos de jovens contra o casamento homossexual. Eles estavam todos mascarados e com cruzes e eu pensei: que estranho estes franceses!! Porquê misturar religião com amor? Lembro-me de numa reportagem televisiva a Catherine se ter insurgido e ter dito que ninguém pode decidir quem pode amar ou deixar de amar. Ela disse isso de forma tão desassombrada que pensei logo que seria ótima para estar na cama com o gorila". Curiosamente ou não, a atriz aceitou o convite imediatamente.

Este humor fantasioso e com apelo às bizarrias mais absurdas não é novo no cinema de Dormael. Toto, o Herói vivia apenas e só disso. O Oitavo Dia, de 1996, começava a jogar com humor "divino" mas tinha uma boa fação sentimental - o filme venceu em Cannes o prémio de interpretação para Daniel Auteuil e Pascal Duquenne; e O Sr. Ninguém, de 2009, o grande falhanço comercial da sua filmografia, incorporava romance ao registo de fantasia. "O melhor elogio que me podem fazer é quando escrevem que sou um cineasta impossível de compartimentar. Felizmente tenho a liberdade que tenho porque na Bélgica não há o chamado mainstream nem uma indústria de cinema. Deixam-me fazer um cinema que ninguém está à espera. É uma loucura ter este emprego. Ser realizador de cinema é a profissão certa para quem cresceu sem saber o que queria ser quando fosse grande. Tenho muita sorte em poder fazer filmes. Filmes que as pessoas pagam o bilhete para os ver...", completa.

Deus Existe e Vive em Bruxelas pode não ser para todos os tipos de humor, mas é seguramente uma ave rara com o seu charme. O segredo para Jaco Van Dormael pode estar na sua estrutura de episódios: "é a primeira vez que recorro a este método e isso permite que o espetador nunca esteja à espera de nada em particular. O público fica no presente, no momento! Ao não usar a estrutura dos três atos e final, estou a dizer ao meu público que tudo pode acontecer".

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