O cante alentejano já enche salas. Passou de local a global

Um ano depois, o que mudou? Há mais gente a cantar e "isso é bom", diz Paulo Lima, responsável pela candidatura do cante alentejano a património Imaterial da Humanidade.

"Tivemos fins de semana livres, mas foi por opção", afirma Carlos Paraíba, ensaiador do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, ao DN. "Sempre tivemos muitas atuações, mas agora mais", acrescenta. Entre 25 de outubro e 11 de novembro, estiveram em Toronto para uma série de concertos.

O Grupo Coral de Beja também foi. E essa é uma das diferenças que Carlos Paraíba encontra neste ano que passou entre o dia 27 de novembro de 2014, em que a Unesco elevou o canto polifónico do Alentejo à categoria de património imaterial da humanidade e hoje, dia em que começa o CanteFest, um evento organizado pela Casa do Cante, em jeito de celebração deste primeiro ano, em que tantos grupos novos se formaram e jovens aderiram ao género. "O grupo tem 16 elementos, entre os 18 e 25 anos, e cantam muito bem. Têm um belo grupo".

"Para dizer a verdade, tirando alguns trabalhos com cantores e fadistas, o que tem mudado é que há mais audição de cante e outra maneira de ouvir. Era menos apreciado e visto de outra maneira", diz.

Ou, como diz o antropólogo Paulo Lima, um dos responsáveis pela apresentação da candidatura do Cante a património imaterial, "quando abalei para Paris era impensável encher o CCB [Centro Cultural de Belém, em Lisboa], nem o Pequeno Auditório, quanto mais o Grande". E, no entanto, em março deste ano aconteceu.

"O cante deixou de ser local para ser global", afirma. "Transformou-se em produto económico", adianta. Isso é bom ou mau? "Ainda é cedo para avaliar", diz. Mas o caso estará em análise este fim de semana numa das iniciativas deste CanteFest, no sábado, às 17.00, na Casa do Cante, em Serpa. O festival divide-se entre a vila alentejana e Lisboa. "Abriu-se espaço para outro cante. Os grupos são mais solicitados, há cada vez mais jovens a viver em torno do cante e mais solicitações para experienciar o cante", nota ainda Paulo Lima.

Esse é apenas um aspeto, acredita: "O Alentejo ganhou um reforço de identidade com esta candidatura".

Os Camponeses de Pias, por exemplo, fizeram a diferença este ano. Compraram uma antiga taberna -- esse lugar que faz parte da história do cante -- e que passou a ser o lugar onde ensaiam e aberto ao público.

Pedro Mestre, cantador e ensaiador de vários grupos no município de Castro Verde, a pessoa atrás do programa Cante na Escola que leva esta música a alunos do primeiro ciclo, diz que essa é uma das necessidades do cante: existirem locais para ouvir cante, como há para o fado. "Onde é que existe um espaço para ouvir cante no Alentejo?, pergunta, ao mesmo tempo que passa a bola aos empresário da área para que se criem infraestruturas para que possa haver uma agenda em volta do cante".

"Também não defendo que sejam os cantadores a estarem preocupados em ir para trás do balcão servir copos de vinho", contrapõe Pedro. "O cante pode acontecer de forma espontânea mas também tem de haver isto", afirma. Este ano sobraram-lhe os pedidos para assistir aos ensaios dos grupos. "Como é que um grupo trabalha?". Pedro Mestre diz que prefere não ter assistência nos ensaios. "Se preciso de trabalhar com alguém não consigo quando estão outros por perto."

Pedro mantém os mesmo cerca de 800 alunos que tinha há um ano, lançou um disco à viola campaniça, ensaia grupos, dá apoio a outros, ajudou a fazer nascer as Moças do Cante mas mostra algum pessimismo. "O cante é rico e diverso, mas estamos a perder qualidade e diversidade. Há pessoa vão para a Internet aprender cante", nota.

Diz que num ano aconteceu muita coisa, "pela positiva e pela negativa". "Há mais respeito pelo cante. Passámos de uma monotonia em que as pessoas consideravam de maneira depreciativa, não acarinhavam. Passou a ser falado lá fora e nós somos assim. Para nos valorizarmos é preciso que alguém nos valorize", nota o cantador. Pelo lado negativo, diz, "os detentores do cante são os que menos vão lucrar com o cante, os mais puros são os que mantêm a mesma vida.

Um festival para celebrar o cante

O CanteFest que hoje arranca quer ser mais do que uma desfiar de grupos de cante. Quer ser, antes, "um festival de polifonias", segundo Paulo Lima. Sexta-feira, às 21.00, o Convento de S. Paulo de Serpa abre-se a várias maneiras de cantar com atuações do Rancho Coral e Etnográfico de Vila Nova de S. Bento, as adufeiras de Monsanto e Cuncordu Lussurzesu, de Santu Lussurgiu, da Sardenha, e os Camponeses de Pias.

O festival muda-se para Lisboa no domingo. Às 10.00, é inaugurada a exposição de fotografia do Cante, em Paris, de José Serrano, e é apresentada a revista "A Tradição", às 15.00, antes da conferência sobre polifonia com o italiano Paolo Scarnecchia e a atuação do Grupo Coral e Etnográfico "Amigos do Alentejo" do Feijó.

O espetáculo de encerramento está marcado para a Igreja de S. Domingos, às 19.00, com a atuação do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa em colaboração com o fadista Ricardo Ribeiro. Outro género cuja entrada na lista da Unesco se celebra por esta altura. Faz quatro anos.

Esta colaboração é uma das várias que o grupo de Serpa tem feito este ano e que inclui uma versão de "Circo de Feras" dos Xutos e Pontapés, adaptada pelo músico Paulo Ribeiro. Carlos Paraíba acha que ficou "bonito". Mas uma das que mais gostou mais envolveu a Filarmónica de Serpa, e um concerto na Praça da República, em Serpa. "Com todos aqueles instrumentos, ficou um trabalho muito bonito", avalia.

Tanto se entusiasma com estes projetos, como põe os pés na terra. "São trabalhos que ficam bonitos mas não é esse o cante que foi a Paris".

O cante fora do cante

A propósito das variações em torno do cante, vem à conversa o nascimento do projeto Tais Quais, com João Gil, Celina da Piedade, Vitorino, Tim, Jorge Palma e Paulo Ribeiro. "Não definem o cante alentejano mas é bom para o cante. Acho muito bem", analisa Carlos Paraíba.

Paulo Lima simplifica: "O futuro dirá se os projetos são bons ou não. Será sempre um processo que acontece nestes casos. Aconteceu no fado", lembra Paulo Lima, que também esteve ligado a esta candidatura e está, igualmente, empenhado na do fabrico de Chocalhos. "E os Tais Quais chama a atenção para o cante", resume, acrescentando uma história. "Em Portel apareceu um grupo que usava instrumentos, toda a gente abominava aquilo. Mas foi um fenómeno que chamou a atenção para os outros. Têm liberdade criativa e todos têm o seu espaço", acredita.

Agora que o cante é património global, quer lançar o debate em outra direção. "Quero fazer outra coisa. Ter outras discussões em torno do cante. Não quero concentrar tudo em Serpa. Queremos potenciar encontros", explica sobre o programa, onde ficaram de fora os desfiles de grupo de cante alentejano. "Já ninguém quer ouvir".

O programa completo:

Sexta-feira

Casa do Cante, 18.00

Atuação do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento

Sessão Oficial Comemorativa do Cante Alentejano Património da Humanidade | 2014-2015

Apresentação de moeda comemorativa do Cante (Imprensa Nacional Casa da Moeda)

Lançamento da revista "A Tradição - nova série".

Exposição de Fotografia Cante . Paris . 2014, de José Serrano (Diário do Alentejo)

Atuação do Grupo Coral Feminino da ADASA

Convento de S. Paulo de Serpa, 21.00

Projeto POLIFONIAS DO MUNDO com Rancho Coral e Etnográfico de Vila Nova de S. Bento, Adufeiras de Monsanto, Cuncordu Lussurzesu, de Santu Lussurgiu (Oristiano|Sardenha) e Grupo Coral e Etnográfico "Os Camponeses de Pias".

Dia 28, sábado

Serpa

Casa do Cante, 17.00

Conferência: Património Mundial: um novo produto turístico, com Carla Melo, da Quaternaire Portugal

Atuação do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Brinches

Taberna dos Camponeses - Pias (Serpa), 19.00

Apresentação Roteiro Cante & Vinho do Alentejo

Musibéria, 21.00

Projeto Cante Novo, sobre Cante nas Escolas (municípios de Serpa e Cuba) e atuações de Grupo Coral Juvenil de Vila Nova de S. Bento e Grupo Coral "Os Mainantes"

Projeto Monda

Dia 29, domingo

Lisboa

Casa do Alentejo

10.00 Exposição de Fotografia Cante . Paris . 2014, de José Serrano (Diário do Alentejo)

15.00 Apresentação de "A Tradição - nova série" e conferência Polifonia, com Paolo Scarnecchia e atuação de Cuncordu Lussurzesu, de Santu Lussurgiu (Oristiano|Sardenha), e Grupo Coral e Etnográfico "Amigos do Alentejo" do Feijó.

Igreja de S. Domingos, 19.00

Espetáculo de encerramento "Cante e Fado - Patrimónios do Mundo", com o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa com o fadista Ricardo Ribeiro

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