O baterista norueguês que se apaixonou por Lisboa

Paal Nilssen-Love é o grande protagonista dos últimos dias do Jazz em Agosto, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Hoje atua a solo e amanhã encerra o festival com o seu Large Unit.

Quando Paal Nilssen--Love era adolescente chegou a tocar em pequenas bandas de garagem, pouco ou nada ligadas ao jazz. Mas já na altura o baterista tentava levar a música que tocava por caminhos menos estandardizados, algo fora da caixa. Atualmente é uma das grandes figuras do jazz europeu, dividindo-se em múltiplos projetos. Cabe-lhe a si encerrar amanhã o Jazz em Agosto com a sua Large Unity (formação de 15 músicos), no Anfiteatro Ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, mas hoje atuará a solo, na Sala Polivalente do CAM.

Mesmo que durante alguns anos o jazz não tenha, propriamente, dominado os seus dias, na verdade nasceu já dentro desse mundo, uma vez que os seus pais geriram um clube de jazz em Stavanger, na Noruega, até aos seus 12 anos. "Eles eram muito bons a incluir-nos, a mim e ao meu irmão, nos encontros sociais que se davam no clube. Isso também acontecia porque não havia muito dinheiro para pagar a uma babysitter, mas eles acreditavam, e acreditam, em integrar as crianças na chamada "vida ou estilo de vida adulta"", conta Paal Nilssen-Love ao DN.

O músico recorda-se vivamente dos momentos em que músicos como Art Blakey - que chegou a desafiá-lo a tocar bateria quando tinha 7 anos -, George Coleman ou Tony Oxley - que deixou Nilssen--Love tocar na sua bateria - passaram pelo clube dos pais. O próprio pai era baterista. "O meu pai tinha uma bateria no quarto e já tocava ainda antes de eu nascer. Tinha apenas 1 ano quando me deram a minha primeira tarola. Lembro--me de tocar desde criança, mas, de facto, foi quando me juntei à banda da escola, e na altura eu estava determinado em tocar trompete, que quando o maestro me perguntou que instrumento queria tocar eu respondi bateria, tanto os meus pais como eu ficámos surpreendidos. Acho que foi algo que tinha mesmo de acontecer", revela.

Com o tempo veio a tornar-se um dos mais requisitados bateristas do free jazz contemporâneo, atuando ao lado de nomes como Peter Brötzmann, Evan Parker, Mats Gustafsson, Ken Vandermark ou John Butcher. Tem vasto conhecimento em tocar em grandes formações (tocou com o Chicago Tentet de Brötzmann, a Territory Band de Vandermark ou a Circulasione Totale Orchestra de Frode Gjsertad), e em 2013 formou a sua Large Unit, encarregada de encerrar a edição deste ano do Jazz em Agosto.

Mas na véspera mostrará o que vale a solo, uma tarefa que pode tornar-se "desgastante", diz. "Tocar a solo é extremamente desafiante e pode ser desgastante a nível físico e mental. Às vezes, aliás, a maior parte das vezes, pouco antes de começar a tocar, penso: "Porque é que disse que sim a tocar a solo?" É difícil chegar a um palco sem qualquer ideia de como começar ou do que fazer. Mas depois é muito reconfortante quando a música começa e me leva. É como nadar no mar. Uma pessoa posiciona-se, pronta para dar um mergulho, e parece ridícula, mas sabe que existe alguma coisa que a leva a mergulhar e quando acontece já não há volta a dar. É isto que sinto quando toco a solo."

Paal Nilssen-Love tem estado mais associado ao free jazz, mas com a sua Large Unit tem estabelecido pontes entre esta música e o samba, daí que no concerto da Gulbenkian façam parte dois percussionistas brasileiros, Paulinho Bicolor e Célio de Carvalho. "Vou ao Brasil, no mínimo, duas vezes por ano desde a primeira vez, em 2013, e não me canso", refere. As relações entre o free jazz e o samba existem, defende. "Se não existe uma ligação direta entre o samba e a improvisação livre, existe, pelo menos, uma relação por causa de toda a música experimental que saiu do Brasil. Não existe outro país com uma cultura musical tão rica e uma história da música tão interessante. Basta olhar para todos os movimentos e mudanças que se deram na música nos anos 1960 e 1970 e de como isso influenciou a música em todo o mundo até hoje."

Além do Brasil, Portugal também já o conquistou. Tocou cá pela primeira vez há 13 anos, então com o trio de Frode Gjerstad. "Foi nessa altura que conheci o Pedro Costa e toda a equipa da Trem Azul", recorda. Voltou em 2005, para atuar no Jazz em Agosto. "Cheguei uns dias mais cedo, com a minha ex-mulher, e fomos logo convidados para uma festa de anos de uns amigos do Pedro fora da cidade e, dois dias depois, estávamos numa sardinhada, também a quilómetros de distância de Lisboa. Só isto mostrou toda a generosidade, hospitalidade e amor que os portugueses têm demonstrado de cada vez que venho cá e que viajo pelo país." Daí que se sinta "muito feliz" com uma recente decisão: mudar-se do seu país natal para Lisboa. "Comprei uma casa na Graça e lentamente estou a trazer todos os meus discos, livros e roupa num grande camião vindo da Noruega."

O Jazz em Agosto encerra assim amanhã com um concerto de um músico que pode ter nascido na Noruega, mas que em breve fará também parte da vida cultural da cidade.

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