O arquiteto que fez uma casa com uma só parede está em Lisboa

Christian Kerez, arquiteto e professor suíço, está no Centro Cultural de Belém para uma conferência em torno da sua obra.

Antes de assinar projetos de arquitetura, Christian Kerez fotografava edifícios concebidos por outros. Nem então, porém, se sentia fotógrafo. Antes "alguém que ao tirar fotografias transforma a arquitetura em fotografia". Arregaçou mangas e começou a projetar edifícios quando, conta ao DN, "comecei a tornar-me um fotógrafo profissional e tirava fotografias a projetos de que pensava: "Bom, eu podia tê-lo feito muito melhor." E comecei a sentir-me frustrado por ganhar dinheiro tirando fotografias a edifícios que eu podia ter feito melhor".

Depois de trabalhar como arquiteto para Rudolf Fontana, Kerez, que nasceu na Venezuela em 1962, embora logo aos 4 anos se tenha mudado para a Suíça, fundava, em 1993, o seu ateliê. Hoje estará no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, às 19.00 (bilhetes a cinco euros), para uma conferência integrada no ciclo Distância Crítica, uma coprodução CCB-Trienal de Arquitetura de Lisboa, que foi transmitida em streaming no DN.

O que fará perante a plateia do Grande Auditório não constitui exceção na sua vida. Kerez é professor no Instituto Federal Suíço de Tecnologia, onde fez o mestrado, e conta diversas palestras no Massachusetts Institute of Technology (MIT) ou na Universidade de Harvard. Muitas vezes, as suas comunicações são antecedidas por fotogramas de cinema ou fotografias várias. É uma questão de afinação, para entrar no discurso e no trabalho do autor de edifícios como o Museu de Arte do Liechtenstein ou do polémico Museu de Arte Moderna (MoMA) de Varsóvia, que nunca chegou a ser construído e que causou uma grande polémica quando, em 2011, o governo polaco recuou após seis anos de trabalho.

Critica quem justifica o seu trabalho dizendo: "Em criança fiz isto e isto, e por isso o meu edifício agora parece-se com isto." Explica que "vivemos num tempo em que tudo é possível, tangível, e acho que um projeto não se deve relacionar com um gosto pessoal, uma biografia, mas com algo muito mais geral, que toda a gente possa compreender".

Não é estranho ouvi-lo e pensar nos seus projetos. A sua primeira obra, aliás, basta. É uma pequena capela em Oberralta, nos Alpes suíços. O adjetivo que primeiro ocorre ao olhar para ela é: simples. "Queria começar com algo que fosse tão geral como uma casa desenhada por uma criança, que toda a gente reconhecesse como casa. Para descobrir qual é a compreensão mais geral de uma casa, e não a minha", explica ao telefone de Zurique.

Depois, muito depois, em 2007, veio aquela que sempre é evocada ao lado do nome Kerez: a casa de uma só parede, erguida em Witikon, Zurique. É um mesmo edifício que pode ser habitado por duas famílias que, no seu interior, não se podem cruzar. "Qual é a compreensão mais básica que consigo encontrar de uma casa para duas famílias? É a parede divisória. E acabei por me concentrar nisso. Esta parede é uma necessidade."

Quando lhe perguntamos o porquê dessa busca pela simplicidade, diz apenas que, neste momento, está "a trabalhar num projeto de uma geometria muito complexa, e que não é fácil de compreender, nem para mim". É aquele que levará à Bienal de Veneza, que começa no dia 28.

De Portugal, fala de Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura, que muito admira e cujas obras o trouxeram ao país. Participou com Souto de Moura num projeto para a cidade chinesa de Zhengzhou, num grupo de arquitetos convidados pelo ateliê japonês SANAA.

"Infelizmente, as nossas torres não vão ser construídas", conta sem saber explicar porquê. Há dias, tinha estado com Souto de Moura na Suíça. "Estamos a competir", ri-se, referindo o concurso para um museu.

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