"Nos anos 60, os filmes eram uma arte sagrada"

Volker Schlöndorff está de volta às salas portuguesas com o drama intimista Reviver o Passado em Montauk - e confessa que pensou nos filmes que admirava enquanto jovem, sobretudo em Antonioni

Aos 78 anos, o alemão Volker Schlöndorff realizou Reviver o Passado em Montauk (em exibição), história do reencontro de um homem e uma mulher, marcados pelo seu passado amoroso. Escrito pelo irlandês Colm Tóibín, eis um filme sem preconceitos de retomar as regras antigas do melodrama ou, como ele diz, de enfrentar a "urgência" dos sentimentos.

Como encarou o argumento de Colm Tóibín? Do seu ponto de vista, será um drama nostálgico ou antes um conto sobre a possibilidade de um futuro?

Colm é um amigo, durante anos trabalhámos em Florença, no Festival degli Scrittori. Quando lhe pedi ajuda com um argumento, disse-me que não sabia escrever para cinema, mas eu tranquilizei-o: saber escrever seria suficiente. Escrevemos quase sempre sentados frente a frente, à procura dos diálogos, rindo muito, como os argumentos eram escritos nos velhos tempos - e como eu sempre fiz com Jean-Claude Carrière. O certo é que Colm revelou um sentido muito apurado do diálogo. O monologo de Rebecca [Nina Hoss] na praia é todo dele, creio que inspirado nas suas próprias vivências. Nenhum de nós acredita em "inventar", mas sim em usar como fonte a "vida vivida". Daí que aquilo que começou por ser a minha história - o amor falhado de Rebecca e o reencontro com o escritor Max [Stellan Skarsgard] - tenha evoluído para um retrato do próprio escritor. O resultado final é como um dupla autobiografia: de Colm e minha.

O filme mostra Nova Iorque de uma forma muito particular, digamos diferente de Woody Allen - que importância teve, para si, a imagem da cidade?

Não foi algo premeditado, mas realmente vivi sete anos em Nova Iorque, de 1985 a 1992, e tenho regressado frequentemente. Daí que mostre a cidade tal como a vivi - devo dizer que, na rodagem, essa parte foi a mais divertida, parece-me que conheço a cidade melhor do que a maior parte dos meus amigos americanos. A personagem da assistente do escritor, Lindsay [Isi Laborde-Edozien], é o retrato exacto de alguém que conheci nos anos 80, incluindo a casa onde mora e o seu temperamento.

É também uma história de pessoas de diferentes países, falando línguas diferentes. Podemos dizer que é também, de alguma maneira, uma história de amor num mundo globalizado?

Absolutamente. E o "jet lag" é uma parte da experiência global, no sentido em que nunca estamos realmente ali, estamos sempre dessincronizados e, meio a dormir, cometemos erros incríveis. Há uma irresponsabilidade que resulta do facto de tudo parecer de tal modo temporário que não damos conta do mal que fazemos aos outros - ora, os sentimentos nunca são temporários, são sempre urgentes. Adoro brincar com as línguas (sou fluente em quatro ou cinco), escapando-me sempre quando os outros me querem apanhar: na verdade, comporto-me como um verdadeiro Zelig, querendo ser sempre outra pessoa. Depois arrependendo-me. O arrependimento é o preço a pagar pelo instabilidade do nosso modo internacional de viver - arrependimento para sempre. Nada disto aconteceria se nos mantivéssemos, de cada vez, num só lugar.

Ao fazer o filme, sentiu algum tipo de relação com outros filmes ou autores da tradição melodramática, tanto europeus como americanos?

Pensei nos filmes que admirava quando era um jovem a viver em Paris, Antonioni sobretudo. Mas não me interpretem mal: nunca me compararia a Michelangelo. Pensei também em A Minha Noite em Casa de Maud, de Rohmer. E, de um modo geral, na Jeanne Moreau.

Será possível identificar as principais diferenças entre fazer filmes na Alemanha, em meados dos anos 60, quando realizou O Jovem Törless, e a atualidade?

A principal diferença tem a ver com o facto de, na altura, os filmes serem, para nós, uma arte sagrada: os cineastas eram uma irmandade especial, quase como maçons ou jesuítas, ou melhor, como monges. Agora, os filmes são uma mercadoria, "vale tudo" na fotografia, na montagem, na ética... Já nada é sagrado, nada está interdito. E há um permanente fluxo audiovisual, uma tal inflação de imagens e sons, que o simples conceito de urgência no estilo e de concisão nas escolhas dos meios para tratar um determinado assunto... já nada disso parece existir. A tecnologia é fácil, os subsídios abundantes, mas a fé está em défice.

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