Ney Matogrosso e Pedro Jóia. A (re)descoberta

A cumplicidade musical e pessoal entre ambos multiplicou-se em diversos projetos. Agora é a vez de Ney atravessar o Atlântico

A escolha do Mosteiro dos Jerónimos para palco deste concerto não foi ao caso, como confessou Pedro Jóia ao DN. "Como monumento que assinala a enorme empresa dos descobrimentos, pareceu-me o local mais apropriado para celebrar esta minha ligação ao Brasil e a amizade com o Ney Matogrosso, também ele representante de uma faceta da cultura brasileira ainda muito indígena", explicou o guitarrista. O concerto estará assim divido em duas partes: uma primeira, que servirá para apresentar o novo disco de Pedro Jóia, a quem se juntam o português João Frade no acordeão e o brasileiro Norton Daiello no baixo, e uma segunda, já com Ney Matogrosso em palco, apenas composta por temas do cantor brasileiro.

Como é que se deu esta aproximação entre o Pedro Jóia e o Ney Matrogrosso?

Tudo começou em 2001, quando fui ao Brasil, participar num disco da Né Ladeiras, que tinha convidado o Ney Matogrosso para cantar num dos temas. Como tinha sido eu a fazer o arranjo dessa música, fui gravar com o Ney, no Rio de Janeiro. Acabámos por passar algum tempo juntos, até porque ensaiámos na casa dele e, quando estava prestes a regressar a Lisboa, o Ney perguntou-me se não estaria disposto a passar uma temporada no Brasil, para participar num disco dele ou numa digressão. Naquela época não podia, porque tinha muitos projetos em aberto em Portugal, mas disse-lhe que sim, que teria muito gosto em fazê-lo no futuro, como acabaria depois por acontecer em 2003, quando fui com a minha família morar para o Brasil. O objetivo inicial era apenas participar num disco, que mas acabei por ficar cinco anos.

Mas como e quando é que sentiram essa cumplicidade musical?

Acho que foi imediato. No momento em que entrei em casa do Ney, tirei a guitarra e ele começou a cantar, houve logo ali uma espécie de encantamento mútuo. O Ney já várias vezes me falou disso e eu senti exatamente a mesma coisa. O Ney é um artista incrível, com uma voz muito especial, muito habituado a cantar acompanhado por violão ou guitarra e isso facilitou muito essa ligação imediata entre nós, que acabaria por dar muitos frutos no futuro.

Durante quanto tempo trabalharam juntos?

Toquei com o Ney durante quatro anos e durante esse tempo participei em duas grandes digressões, enquanto membro da banda dele, e gravámos dois discos de originais e dois DVD, um ao vivo e outro em estúdio. Foi uma relação muito profícua e regular, que se manteve mesmo depois do meu regresso a Portugal.

O que é o Pedro Jóia acrescentou à música do Ney Matogrosso?

O Ney sempre teve uma relação muito próxima com o violão e um pouco à semelhança do que já anteriormente havia feito com o Rafael Rabello, um grande guitarrista, já falecido, com quem trabalhou durante muitos anos, ele encontrou em mim aquele som ibérico, meio português e meio espanhol, do qual gosta muito e andava naquela altura à procura.

E o Ney Matogrosso, o que é que deu ao Pedro Jóia?

Em primeiro lugar e apesar das minhas muitas colaborações, nunca antes tinha trabalhado de forma tão intensa e durante tanto tempo com um único artista. Além disso, o Ney é uma mistura perfeita entre uma voz masculina e uma voz feminina, porque, sendo um homem, canta quase como um contralto. E depois há todo o universo poético e icónico do Ney Matogrosso, que cativa qualquer músico.

E para lá desse lado, como é o Ney Matogrosso na intimidade?

É um homem simples e generoso, extremamente atento ao mundo que o rodeia, que detesta ver injustiças à sua volta. O Ney não faz muito alarde disso, mas é uma pessoa que ajuda muita gente, das mais diversas formas. O homem por detrás de um artista daquela dimensão teria de ser assim. Nem sequer consigo imaginar o Ney Matogrosso ser o artista que é em palco e depois, fora dele, ser desligado do mundo e das pessoas. É alguém muito "atento aos sinais", que por acaso até é o título do último disco dele.

Não ficou com receio, a dada altura, de ficar com o seu nome demasiado ligado ao do Ney Matogrosso?

Nem poderia ficar, não só porque se trata de um artista enorme, que muito admiro, mas especialmente por ser um bom amigo. Tenho, aliás, todo o prazer nessa colagem. As relações musicais só são possíveis com tempo e a relação musical e pessoal criada entre nós só foi possível devido aos muitos anos, de convívio e intimidade, que passámos juntos. E isso não acontece por acaso...

Na altura em que foi para o Brasil, os músicos portugueses ainda deviam ser vistos por lá como um bicho estranho, concorda?

Quando fui, simplesmente não havia músicos portugueses no Brasil. Tinha havido algumas passagens fugazes, mas pouco mais. Tive experiências incríveis lá, porque o Brasil é um país fantástico, que me acolheu muito bem, mas a verdade é que ninguém tinha uma ideia muito concreta do que era um músico português.

Hoje, pelo contrário, já há bastantes mais colaborações entre os dois lados do Atlântico...

É uma realidade completamente diferente. As visitas de artistas portugueses tornaram-se regulares, basta pensar em nomes como o António Zambujo, a Carminho ou a Mariza, que têm feito as mais diversas colaborações com músicos brasileiros. Instrumentistas é que ainda não há muitos, mas também e tendo em conta a tradição musical do Brasil, é um pouco como ir para a praia com um saquinho de areia. No meu caso, consegui ter algum sucesso por ter levado um som muito ligado ao flamenco, que é pouco comum por lá.

E este disco e este trio, como é que surgiu?

Surgiu de uma brincadeira ou antes de uma vontade antiga que tinha, em gravar um corridinho do Algarve, de onde a minha família é natural. Gravei-o em guitarra e, depois, decidi convidar um músico algarvio, o acordeonista João Frade, para me acompanhar. Ao mesmo tempo, também tinha o desejo de fazer um trio sem percussão e acabei por convidar o brasileiro e gaúcho Norton Daiello, um músico com muita história, que toca baixo como quem toca guitarra. Trata-se de uma formação muito inusitada, reconheço, mas, de certa forma, este disco resume a minha carreira até aqui, tendo o Algarve como ponto de partida para um triangulo composto pela Andaluzia, o nordeste do Brasil e Lisboa.

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