"Não tenho nada a provar aos fadistas ou ao fado"

Entrevista ao fadista Ricardo Ribeiro a propósito do seu novo disco.

Foi lançado na sexta-feira o novo álbum de Ricardo Ribeiro, Hoje É Assim, Amanhã Não Sei, no qual, além dos fados, contém temas cantados em francês, espanhol e canções acompanhadas só ao piano

Hoje É Assim, Amanhã Não Sei. Este título pretende registar o seu presente da forma mais fiel possível?
O fado é uma coisa muito espontânea e todas as coisas que me aconteceram na vida aconteceram espontaneamente. A minha vida foi ver-me a guardar ovelhas e de repente estar a cantar numa casa de fados e de repente trabalhar na construção civil ou num talho. A minha vida sempre foi imprevisível, o que me seduz bastante, porque sou uma pessoa avessa a rotinas. Para além disto, há uma frase do professor Agostinho da Silva que diz: "Tento ao máximo não fazer planos para a vida, para não estragar os planos que a vida tem para mim." Tinha tantos títulos para este disco e, apesar de ser um disco de fado, isso não se pode negar, tem abordagens a outros géneros. Hoje é assim, hoje canto estes fados tradicionais, estes fados-canção, mas amanhã o tempo o dirá.

Mas vê-se no futuro a estar menos ligado ao fado?
É impossível. Sabia perfeitamente que este disco ia provocar uma série de reações. Mas eu já não tenho nada a provar aos fadistas ou ao fado. Nada. Pode parecer arrogância da minha parte, mas o que for preciso saber sobre fado eu posso responder e posso cantar. Tenho uma grande dificuldade em sentir-me refém de alguma coisa ou de algo. Até dos sentimentos. Mas há outra provocação que quero fazer: onde começa e onde acaba o fado? Se me apetecer chamar a tudo o que está neste disco fado posso fazê-lo. Depois vamos discutir. Mas tento sempre temperar as minhas convicções com a dúvida.
Há um ano deu um concerto no CCB com João Paulo Esteves da Silva e agora inclui três temas acompanhados só por ele. Como é que começou esta parceria?
Há muito tempo que era fã do trabalho do João Paulo. Até que um dia surgiu a oportunidade de fazer os Dias da Música e tinha de apresentar algo relacionado com o cinema. Estava preocupado, não sabia o que fazer, e em conversa com o Carlos Manuel [Proença] surgiu o nome do João Paulo, mas eu achei logo que era impossível. Mas depois aconteceu. Depois do atrevimento veio o abuso, que foi convidá-lo para tocar no disco e compor para mim. Sinto-me feliz com a vida, porque o homem compõe para mim, com versos do Ary, e isto aconteceu, daí dizer que "amanhã não sei". É para este imprevisto que pretendo estar sempre preparado.
E mesmo que sejam temas só com voz e piano, têm muito de fado em si.
Meu amigo, eu tenho a essência. Posso cantar o que quiser. Muita gente vai achar que estou a ser arrogante ou vaidoso e até percebo esse julgamento, porque faço-o a mim próprio, mas eu tenho a essência, porque qualquer coisa que uma pessoa oiça de mim vai sentir sempre algo de fado. Eu nasci neste meio, faz parte de mim. Mas também não é justo massacrar o meu lado de cantor e músico. Tenho de fazer o que me apetece.
A estranheza que as pessoas possam sentir com este disco tem que ver com o facto de ainda lhe colarem o rótulo de purista do fado?
Não discuto rótulos, discuto conteúdos. É normal que tenha o rótulo de tradicionalista, vim dos fados e sou dos fados. Estou aqui para receber o que as pessoas têm para dar. Mas eu estava bem consciente do que ia acontecer.
Na Canção das Águas Claras voltou a compor música. Não pretende compor mais?
Foi um acidente. Surgiu-me a melodia e mostrei-a ao Carlos Manuel, mas sem qualquer intenção de gravar, mas ele tanto insistiu que gravei. No entanto, não tenho ambições nenhumas de ser compositor, para isso é preciso ter estudos e perícia. De repente surgem-me melodias, mas não faço força para isso. Não vá o sapateiro além do chinelo. Quis um dia o sapateiro escrever uns versos sensatos, escreve agora, emenda logo, não fez versos nem sapatos. É preciso cautela.
Tem também um tema com os Ganhões de Castro Verde. Qual a sua relação com o Alentejo?
Tenho uma paixão louca pelo Alentejo. Tenho pancadas, por exemplo, costumo dizer que descendo de Bernardim Ribeiro. O Alentejo é elegante, obedece às leis das proporções. Aquela gente com um bocado de água, alho, azeite, coentros e sal faz um prato que é de um homem cair para o chão. E os alentejanos que eu conheço são francos. Gosto dessa atitude, dessa franqueza, porque sabemos com o que contamos. Mas também tenho ternura pelo Minho e por Trás-os--Montes.
E vai apresentar este álbum no Coliseu de Lisboa, numa altura em que se assinalam 20 anos desde que pisou este palco pela primeira vez, na Grande Noite do Fado. Acresce algum tipo de responsabilidade?
A única coisa que faz em termos de emotividade é sentir algum nervosismo. A sala é muito grande. Mas também tenho medos dos outros sítios todos, estou sempre nervoso. Agora pensar no Coliseu, comigo sozinho, duas horas a cantar, fico ansioso e é difícil para mim. Mas o medo e a ansiedade dão-me imaginação para poder desenrascar-me.

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