"Não me apetecia nada morrer amargurado"

Aos 67 anos, o ator, encenador e diretor dos Artistas Unidos realizou um filme autobiográfico que é, ao mesmo tempo, um momento de partilha de memórias

As imagens a preto e branco levam-nos para 1968. São apenas alguns segundos e mostram os ensaios de O Anfitrião, o espetáculo do Grupo Cénico de Letras. "Foi o primeiro filme que fiz na vida", lembra Jorge Silva Melo. "Filmei em Super-8, com uma camarazinha que pertencia ao Eduardo Paiva Raposo. Filmei só uns dois dias, nem aparecemos todos."

Depois o filme andou perdido. Há uns anos, Luís Miguel Cintra, que "se vê ali a encenar, rodeado de papéis, que agora já não se usam", recuperou a fita e passou-a para DVD. "Olha eu", comenta ao ver as cenas. "Tão novo que era. Tem imensa graça ver aquilo hoje. A ingenuidade, a frescura, a teimosia daquelas pessoas."

É tentador dizer que foi ali que tudo começou. Mas não foi. Basta ver o filme Ainda não Acabámos, documentário autobiográfico do ator, encenador e realizador Jorge Silva Melo para percebê-lo: "Eu comecei antes de mim, vim de longe, não fui eu que fiz a minha história e é isso que te vou contar."

Feito como uma carta ao ator João Pedro Mamede, 23 anos, dos mais novos dos que colaboram atualmente com os Artistas Unidos, o filme começa com o livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre, de Victor Palla e Costa Martins. Fotografias a preto e branco de uma cidade de pregões e crianças descalças. "Um menino de 12 anos, pequeno-burguês, não via essa Lisboa. Vivia entre a minha casa e o Colégio dos Maristas. Não via a miséria nem a tristeza, para mim era tudo festa."

Uma das primeiras memórias que tem é da visita da rainha Isabel II. E, pouco depois, descobriu o cinema. "Era onde eu via o mundo. Era a evasão. Gostava do cinema popular, rasca, o Burt Lancaster no Corsário Vermelho e aquelas mulheres lindas a chorarem e a morrerem." Aos 12 anos viu Rio Bravo, o mais belo dos filmes.

E já vamos com vários minutos de documentário e ainda não lhe vimos a cara. Só as mãos, que folheiam livros e mostram fotografias, só a voz que vai desfiando memórias. "A minha primeira ideia para o filme é que eu sou aquilo que vejo, sou as pessoas que encontro. Não queria tanto filmar-me a mim mas o mundo como eu o vejo. Mas não consegui fazer isso porque entretanto meteu-se, pelo caminho, a melancolia, que não estava prevista. Aquilo era para ser um regabofe."

Mas, entre os recortes de jornais, os livros (aquele momento belíssimo, quando traduz O Desertor, de Boris Vian), as músicas, os filmes, as fotografias que os amigos traziam, e as conversas que foi filmando - sobretudo aquela com José Medeiros Ferreira -, foi-se dando conta de que ao mesmo tempo que olhava para trás era importante olhar para a frente. Ao mesmo tempo que se recordava o rapaz de Lisboa e A Capital, havia essa necessidade de deixar uma mensagem aos novos - aos atores, sobretudo. Os atores com quem tem "uma relação quase religiosa". "O que eu quero ver é o esplendor da vossa humanidade, encanta-me ver os atores, posso ficar horas a vê-los a ensaiar." Os que passaram por ali, os que estão agora a começar, os que já não estão. "Já vamos tendo muitos mortos..."

Foi neste caminho que Silva Melo se descobriu melancólico. "Entristeceu-me, em vez de me alegrar. Aquilo que eu gostaria de deixar às pessoas mais novas era uma certa alegria. Apesar de tudo, consegui ter uma vida só a fazer teatro e cinema. Consegui chegar aos 67 anos fazendo mais ou menos o que queria, mas agora estou tão cinzento." E entristece-se mais ainda: "Não me apetecia nada morrer amargurado."

Num sofá, nas traseiras do Teatro da Politécnica, onde fica o escritório que é cozinha e tudo o resto dos Artistas Unidos, com vista para o Jardim Botânico, Jorge Silva Melo não esconde que se sente a envelhecer: "Não me interessam muitas coisas novas que vejo e chateia-me não gostar. Creio que não me interessa a sociedade que vejo começar. Já estou como o meu pai, que via a Brigitte Bardot e tinha saudades era da Barbara Stanwyck. Durante muito tempo tive idade para ser pai dos meus colaboradores, agora já tenho idade para ser avô. É natural que eles gostem de outras coisas, é saudável, e isso interessa-me, porque trazem outras visões do mundo. Acho é que não construí para eles a estrutura-mãe que os pudesse acolher num futuro mais ou menos próximo, que era o que queria. Falhei em não ter conseguido criar uma vida melhorzinha para pessoas de quem gosto e que vão ter as mesmas dificuldades em recomeçar, vai ser a mesma porcaria."

Talvez não. Silva Melo sonha com um espetáculo que seja como um eterno ensaio. "Como um desenho, imperfeito, com a frescura da primeira ideia, com o que começa a ser." É isso que pede aos atores nos ensaios: ainda não acabámos. Ainda não acabámos, Jorge, parece dizer-lhe João Pedro Mamede naquela última cena em que olha de relance para trás enquanto continua o seu caminho. Ainda não acabámos.

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