Na companhia dos fantasmas da história do Chile

Ao longo de cinco semanas o DN faz uma análise a cinco realizadores que continuam a surpreender. Esta semana é a vez do chilena Pablo Larraín.

Quase todas as notas biográficas sobre Pablo Larraín sublinham o facto de ele ser originário de uma família chilena politicamente conservadora: o seu pai, Hernán Larraín, advogado, professor universitário e senador, além de ter sido presidente do Senado, é o atual líder do partido Unión Demócrata Independiente. O misto de desencanto e crueza com que os seus filmes abordam a história do Chile no séc. XX seria uma reação ao peso da herança familiar.

Nos seus contornos edipianos, tal retrato de Larraín toca, por certo, algo de essencial. Podemos até supor que a sua primeira longa-metragem, Fuga (2006), centrada num jovem compositor cuja paixão musical vai tendendo para a loucura, envolve uma perturbação eminentemente autobiográfica: como viajar pelos labirintos da história, cumprir os desígnios da sua arte e, enfim, não alienar a sua própria identidade?

Ele é um "filho revoltado" face à história que herdou e à sua tragédia central: os tempos da ditadura de Augusto Pinochet. Se quisermos insistir na sugestão psicanalítica, afinal nada estranha à economia narrativa dos seus filmes, podemos lembrar que o cineasta vive essa tragédia a partir de uma falha primordial: Larraín nasceu num tempo amputado de liberdade, cerca de três anos depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973 que pôs fim ao governo democrático de Salvador Allende, abrindo caminho a Pinochet.

Mas seria precipitado rotulá-lo de "cineasta de esquerda". Conscientemente ou não, o imaginário das esquerdas desenha nas superfícies da história um determinismo utópico que Larraín não partilha, muito menos procura. No limite, para ele, a história é sempre irracional e claustrofóbica - não é um destino a que se chega, mas apenas aquilo de que se não sai.

É bem provável que, com o passar do tempo, a sua filmografia venha a ser classificada como sintoma de um verdadeiro resgate geracional, protagonizado por aqueles que viveram infância e adolescência num regime brutalmente repressivo - quando Pinochet abandonou o poder, a 11 de março de 1990, Larraín ainda não completara 14 anos.

E não deixa de ser irónico, de um negrume que só a ironia pode atrair, que Larraín tenha iniciado a sua admirável trilogia sobre os tempos da ditadura - Tony Manero (2008), Post Mortem (2010) e Não (2012) - convocando memórias cinéfilas muito precisas.

De facto, o título Tony Manero provém da personagem com esse mesmo nome, interpretada por John Travolta em Febre de Sábado à Noite (1977), de John Badham; no filme de Larraín, Tony Manero é o alter ego de um homem solitário, de escassos meios de subsistência, empenhado em vencer um concurso de imitadores de Travolta - a pouco e pouco, de forma tão insidiosa quanto assustadora, vai pressentindo a violência visceral da repressão política.

Interpretado pelo admirável Alfredo Castro, nome grande do teatro chileno e presença regular na obra de Larraín, esse simulacro de Tony Manero define um padrão de anti-heroísmo: não é um agente da história, muito menos uma consciência crítica das suas convulsões, antes um ser arrastado por essas convulsões, no limite agindo como um animal acossado.

O mesmo se poderá dizer do assistente de patologia da morgue de Santiago do Chile (de novo Alfredo Castro) que, a 11 de setembro de 1973, vai assistindo à proliferação de cadáveres por todos os recantos das instalações em que trabalha: a morte instala-se como coisa totalmente física, sem metafísica, uma comunidade de fantasmas que insistem em conviver com os incautos humanos.

Mesmo no emblemático Não - sobre o plebiscito de 1988 em que Pinochet quis saber se, "sim" ou "não", os chilenos apoiavam a sua continuação no poder -, há na abordagem de Larraín uma amargura que nenhuma esquerda (nem direita, convém acrescentar) tem coragem de assumir: a histórica vitória do "não" é filmada a partir dos bastidores da respetiva campanha, muito para além de qualquer maniqueísmo militante, com Gael García Bernal a interpretar um profissional de publicidade cuja visão política é, no mínimo, volátil. Não é cinismo - antes a coragem, de uma só vez cinematográfica e política, de colocar em cena o mais ancestral fator humano: o medo.

O mesmo se poderá dizer de O Clube (2015), gélida descrição de uma casa esquecida, numa praia remota do Chile, onde foram colocados alguns sacerdotes católicos responsáveis por crimes de pedofilia.

E também de Neruda (ainda inédito entre nós), retrato de Pablo Neruda em que a sua condição de comunista perseguido não exclui, antes exponencia, a perturbante ambivalência do olhar do polícia (outra vez Bernal) que o vigia.

Nos filmes de Larraín, a vida revela-se sempre ingrata, sendo preciso sobreviver ao sem sentido das suas peripécias - no cinema do século XXI, há poucos a enfrentar, assim, os desafios estéticos e éticos do realismo.

Perfil:

Pablo Larraín

› Nasceu a 19 de agosto de 1976, em Santiago do Chile.

› Em 2003, com o irmão Juan de Dios Larraín, fundou a produtora Fabula.

› Em 2014, encenou a ópera Katia Kabanova, de Leos Janacek.

› O seu filme Não foi nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro referente a 2012. Em 2015, O Clube valeu-lhe um Urso de Prata/Grande Prémio do Júri, no Festival de Berlim.

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