"Quando toco estou a contar uma história às pessoas"

O músico Marco Santos vive na Holanda, mas diz ter sempre "um pé" em Portugal. Numa das muitas visitas ao país, falou com o DN acerca do seu percurso e da sua visão sobre o ofício.

Num curto espaço de tempo com o músico, ouvimo-lo falar neerlandês com a mesa de trás, um pouco depois, cumprimenta dois homens em crioulo. Ao soar de uma canção ao longe, diz: "Acho que está ali um amigo meu, estou a reconhecer o instrumento." Afinal não era aquele, mas também era conhecido e, ao lado deste, um outro, que o cumprimenta: "Olá, professor!" Marco Santos parece estar por toda a parte em casa.

Se é sempre ingrato traçar a rota de alguém, a vida de Marco Santos torna a tarefa quase hercúlea. Nasce em 1981 em Pombal e começa aos nove anos na banda filarmónica do Catujal. Para desgosto da mãe, cedo veio para Lisboa, estudar no Conservatório Nacional de Música. Depois passou pelo Hot Clube Portugal em bateria de jazz, antes de ingressar no curso de Percussão Clássica da Escola Superior de Música de Lisboa.

Como integrar, porém, as noites no B'leza que, pelo largo Conde Barão, em Santos, traziam as notas e os ritmos de Cabo Verde, Angola e Moçambique? O músico diz, relembrando a carga que a cultura cabo-verdiana teve e tem em si, que muitos músicos lhe chamaram "o branco mais preto" [é difícil não recordar Vinicius de Moraes quando, em "Samba da Benção", dizia: "Eu, por exemplo, o capitão do mato/Vinicius de Moraes/Poeta e diplomata/O branco mais preto do Brasil"].

Deu inúmeros cursos de música, alguns lembrar-se-ão do grupo juvenil de percussão corporal, PULSAR, do Conservatório de Música Jaime Chavinha de Minde. Como integrar nesta rota, então, o sem-número de vezes que tocou com tantos músicos, como Jon Luz, Sara Tavares, Lilian Vieira, João Lucas, Maria Alice, Aldo Milá ou Kimi Djabaté? Ou as colaborações com coreógrafos como Clara Andermatt ou Rui Horta?

A mudança para a Holanda

Uma altura houve em que tudo parecia estável, as aulas, os concertos e o quotidiano. Foi aí que Marco Santos deixou Portugal e partiu para Holanda, onde começou por lavar pratos, até, aos poucos, integrar o panorama musical do país, tão acostumado a acolher músicos exógenos.

Foi na Holanda, nas cidades de Haia e Roterdão, que prosseguiu os estudos na música. "Precisava de me desafiar. Estava tudo bem, dava aulas, tinha concertos, tinha uma vida estável e tive medo de me acomodar", conta o músico ao DN.

"Quero que as pessoas se encontrem na minha música"

À dificuldade do traço perante a rota de Marco Santos substitui-se, todavia, a acuidade de "Ode Portrait", o primeiro álbum apenas com composições suas, que apresentou recentemente em Portugal. Encontrou vida para as suas composições num quarteto composto pela sua bateria, a guitarra de Rui Silva, o contrabaixo de Boris Oud e as teclas de Laurens Hoppe. "Durante muitos anos toquei composições de outros músicos, compunha, mas deixava as coisas. Depois senti que me devia dar espaço", conta o músico acerca das composições que quis "mostrar ao mundo".

Poderá parecer estranho que seja àquela que pode ser tomada como a mais abstrata das artes que se confie a concretude de uma mensagem, mas para Marco Santos é esse mesmo o ofício do músico.

"Quero que as pessoas se encontrem na minha música, como em tudo o que fazem. Esse é o meu lema e o que quero transmitir: encontra-te em tudo o que fazes." A estranheza pode ainda aumentar perante a notícia de que há, entre as notas, uma história a ser contada. "Quando toco estou a contar uma história às pessoas". E Santos anui, quando questionado se essa história pode ser meramente a de alguém que está "ali", "àquela hora", a tocar.

Há, para o músico português radicado na Holanda, algo que prevalece "em tudo o que se faz", nomeadamente na música: "Antes de ser músico, sou um ser humano". Por isso mesmo, o encontro entre aqueles que tocam, tal como com aqueles que recebem o que é tocado, é prioritário para Marco Santos, que insiste: "Quando 400 pessoas estão a assistir a um concerto, elas estão juntas, acontece ali qualquer coisa."

O músico compõe ao piano e não deixa de notar que, curiosamente, é à bateria, o seu instrumento, que mais espaço deixa na partitura, a que depois se encarrega de dar vida em jazzísticas tonalidades. Quanto ao processo, Marco Santos explica: "Não é como um trabalho das 9h às 17h, mas também não posso estar só à espera que a inspiração venha."

Será talvez porque a inspiração não se constitui numa espera que esta põe, por vezes, Marco Santos a correr para registar uma melodia que soa na sua cabeça. Talvez tenha sido em parte assim que nos chega um "retrato" (portrait) em ode, que talvez não seja um auto-retrato, mas um retrato com espaço suficiente para acolher traços alheios que ali se encontrem e, como numa ode, se destinem a ser cantados.

Quanto à vida de músico, com as incertezas e contingências que acarreta, Marco Santos remata: "Não é a vida mais estável, mas é a que faz sentido para mim."

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