Leonard Cohen: o homem que enganou o tempo

Foram quase quatro horas de concerto, num reencontro com plateia rendida e, depois de três encores, um fim de festa com o Pavilhão Atlântico transformado num grande salão de baile.

Ao som de Closing Time, já num segundo (e muito aplaudido encore), um homem de fato e chapéu, e de idade talvez não muito afastada da daquele que, em palco, também de chapéu e fato, fazia as honras da noite, dançava ao fundo da sala. A seu lado, muitos tinham ficado de pé, surpreendidos pelo regresso de Cohen ao palco quando já caminhavam para a saída. Na verdade, o músico voltaria a "enganar" a plateia uma vez mais. Voltou ainda para um terceiro encore. E desta vez terminava mesmo uma noite de três horas e 50 minutos de música (com intervalo incluído) ao som de, primeiro, I Tried To Leave You e, depois, Save The Last Dance For Me, um clássico de 1960 dos The Drifters. E naquele momento, a plateia do Pavilhão Atlântico transformava-se num inesperado salão de baile.

Leonard Cohen sabe, de facto, enganar bem o tempo. Sabe enganar os 78 anos, cumpridos no passado mês de setembro, não só pelo modo como, pouco depois das nove da noite, entrou no palco a correr ou quase dançou durante as primeiras canções como, da primeira vez que se dirigiu ao Pavilhão Atlântico quase deu a sugerir que esta podia não ser a última vez. Cohen falou até mesmo num futuro possível. Mas ao mesmo tempo sublinhou que nesta noite ia dar aos presentes tudo o que tinha para lhes mostrar. E assim foi. Tanto que, quando já depois da uma da manhã tira pela última vez o chapéu da cabeça para cumprimentar os músicos e agradecer aos aplausos, foi com a mesma vitalidade que, naquele passo que é meio de dança, meio de caminhar, que saíu de vez do palco. Perante um pavilhão quase cheio (mas não esgotado), a etapa europeia da Old Ideas Tou não podia ter terminado melhor.

A noite, como tem acontecido em outros concertos da Old Ideas Tour começou ao som de Dance Me to the End of Love, um clássico de meados dos anos 80 que na altura foi tremendo êxito em Portugal.E seguiu o seu caminho, entre clássicos (muitos deles já visitados nas suas recentes passagens pelos palcos, outros recuperados de outras memórias da sua discografia) e as canções do novo Old Ideas, álbum editado no início deste ano do qual a sala acolheu, com sonoros aplausos, sobretudo o tema de abertura Going Home ou o pungente Darkness, com tempero a blues.

Dada a banda que o acompanhava, era natural que não se afastasse das leituras e arranjos que nos mostrou na extensa digressão que nos visitou por três vezes entre 2008 e 2010. A sua voz profunda veste todavia todas aquelas canções de um sentido que as resgata ao passado e faz coisa presente. Sábia foi também a modalidade de partilha de protagonismos, ora em solos que integraram ou antecederam canções (como em Who By Fire, com uma guitarra que nos levou a outras latitudes solarengas) ou dois outros instantes de excelência vocal, com Coming Back To You entregue às Webb Sisters e Alexandra's Leaving em expressiva e poderosa interpretação de Sharon Robinson.

Não faltaram os "inevitáveis" Bird on a Wire, Sisters of Mercy, Suzanne, I'm Your Man, The Future, Waiting For a Miracle, Everybody Knows, Tower of Song ou I'm Your Man. Ouviram-se o belíssimo The Guests e o poderoso The Partisan. E depois das despedidas, a sucessão de encores abriu em festa com So Long Marianne e um bem vincado First We Take Manhattan.

Mais que uma vez Leonard Cohen levantou o chapéu para agradecer aos soberbos músicos que o acompanham (e ajudam a manter o patamar de rara excelência das suas atuações ao vivo). Cumprimentou igualmente a plateia, até mesmo de joelhos. E, com graça, começou a segunda parte do concerto agradecendo aos presentes o facto de não terem ido para casa...

Semelhante entrega e um rol de tantas canções que fazem a alma de uma obra soam a coisa de despedida. Já assim o eram em 201o, mas afinal, e quando ninguém já o esperava, regressou. A plateia, que o aplaudiu muitas e sonoras vezes, sublinhando mesmo os momentos em que a letra de Everybody Knows nos diz "I was born with the gift of a golden voice" (ou seja, "nasci com a dádiva de uma voz de ouro") ou, em Hallelujah, canta "I didn't come to fool you"(não vim para vos enganar), deixou claro que é sempre presença desejada por estes lados. Terá sido mesmo a última vez?

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