Gala Amália, o fado para além da fama

A noite fria convidava a casacos grossos, luvas e cachecóis. Mas o calor que emanava na sala da Voz do Operário, em Lisboa, completamente cheia para assistir à VI Gala de entrega dos Prémios Amália tornava possível mostrar os as roupas escolhidas a dedo, os cabelos arrumados em penteados complexos, as costas nuas, os fatos elegantes.

A poucas horas de se saber a decisão da Unesco sobre a classificação do fado como património imaterial da humanidade, televisões, jornais e rádios invadiam uma cerimónia pouco habituada a estas atenções mediáticas e até pouco interessada nelas.

Os olhos colavam-se aos fadistas que iam desfilando pelo palco, os corpos balançavam devagar ao ritmo dos dedilhados das guitarras, os gritos e os aplausos surgiam em momentos em que o virtuosismo dos interpretes se revelava e que só ouvidos habituados à minuncias desta canção podiam detectar. E a decisão da Unesco, na distante Bali era uma coisa que ali não passava de um eco ténue. Euforia? Euforia despertou a voz poderosa de Ricardo Ribeiro (prémio de melhor interprete) interrompida por caloroso aplausos enquanto entoava "a fama às vezes difama/gente boa/Gente honrada". E é este mesmo fadista que explica ao DN este distanciamento em relação à candidatura: "o fado já pertence à humanidade porque é uma cantiga que canta a vida". Se daqui para frente alguma coisa mudar será "um olhar mais cuidadoso e atento sobre o fado. Agora até já os comentadores políticos falam desta canção" ironiza antes de acrescentar: "mas o hoje o que me importa mesmo é o prémio que me foi atribuído por estas pessoas e pensar que aquilo que canto serve para cada um se rever e reencontrar um pouco de si mesmo".

Ana Marta, que começou a cantar aos 12 anos e recebeu esta noite o prémio revelação, não se emociona quando fala na possível chegada do fado a património classificado pela Unesco mas sim quando fala da mãe "que esteve sempre a seu lado" ou na "extraordinária oportunidade" que lhe foi dada pelo Teatro Maria Vitória, para ser a fadista residente da revista "Ora Vira e Troika os Passos". Sobre a candidatura do fado diz que " espera que ela traga mais desafios profissionais" e que possa bater"no coração do mundo" como bate no seu.

Yoko não consegue pronunciar a palavras "património imaterial", mas articula com total correcção"Alfama", "Barco Negro" ou "Estranha Forma de Vida". É uma japonesa que, por causa do fado trocou há sete anos, Tóquio por Lisboa. Estuda afincadamente há dois anos, canta fados em japonês e português em tascas e restaurantes da Graça e vai ter esta noite a sua primeira grande actuação. Trouxe duas amigas que vieram da capital japonesa para a ver actuar e que apenas quando o DN fala com elas ficam a saber da candidatura da Unesco.

E Vitor Duarte (neto de Alfredo Marceneiro) lamenta que esta candidatura "tenha envolvido tão pouco as gentes que são a verdadeira alma do fado". A gala que distinguiu ainda Camané e José Manuel Osório deixou claro que o fado é muito mais do que a sua fama.

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