A juventude de Lachenmann e a maturidade de Burmester

Concerto de Abertura do Ano Alemanha na Casa da Música foi sobretudo um hino ao rasgo criativo.

A Abertura do "Franco atirador" de Weber como obra inauguradora do Romantismo musical germânico, ou seja, a era em que a música alemã mais foi de encontro ao seu "ethos" profundo; o "Concerto n.º 4" de Beethoven, ou o confronto entre o rigor formal clássico que Beethoven foi beber a Viena e a rédea solta à imaginação que o compositor foi permitindo inundasse crescentemente a sua criatividade; por fim, "Schreiben", obra de 2003 de Helmut Lachenmann, ela própria um hino a essas "rédea solta" e capacidade controlada de abstração, característica tão peculiar ao espírito teutónico. Foi este trio de obras que preencheu o concerto de abertura do "Ano Alemanha" na Casa da Música, a cargo da Sinfónica do Porto. As duas primeiras dirigidas por Baldur Brönnimann (primeiro concerto como titular oficial da OSPCdM), a última por Matthias Hermann, um especialista em Lachenmann. Solista no Beethoven foi Pedro Burmester.

E pelo que se ouviu de Burmester neste "Quarto", será deveras interessante acompanhar o curso da integral dos concertos de Beethoven que até dezembro ele irá levar a cabo na CdM. Aproveitando o seu apelido, foi um Burmester "vintage" aquele que ouvimos, entregando uma interpretação muito refletida e amadurecida desta obra: um fraseio de linhas sempre muito bem definidas em termos de curvatura dinâmica e de pontos de apoio/acentuação; uma articulação preferencialmente "détachée", muito homogénea e "perlée", nos andamentos extremos, ao passo que no "Andante com moto" deixou respirar sons e ressonâncias, fazendo de cada linha enunciada uma proposição dramática vinda de um "locus" misterioso, inefável. No estrado de direção, Brönnimann desvelou-se em bem acompanhar, complementar, contrapor ou contra-argumentar o solista, e a Sinfónica do Porto respondeu com ductilidade e equilíbrio ideal aos seus intentos.

Antes, ouvira-se uma Abertura do "Franco Atirador" de grande variedade de atmosferas sonoras (como convém), guiada por um Brönnimann muito atento à dramaturgia implícita dos vários temas e ao curso da obra. Mas houvera sobretudo "Schreiben", uma obra que coage à escuta, que força a nossa atenção e nos arrasta sem remissão. Hino à capacidade da notação musical em albergar expressividade e vida latente, "Schreiben" é também um "tour de force" inventivo e do modo como a mente humana pode impor uma ordem subliminar a materiais tão diametralmente opostos, cuja novidade nunca é gratuita e cuja beleza nunca é uma concessão.

Arranque em grande, portanto, para o par de artistas em residência na CdM em 2015.

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