Mick, Keith & Cia. levam Olé à ilha de Fidel

Outra revolução chega a Havana no próximo dia 25. Ultrapassa-se um dos ópios do povo para dar lugar a um concerto ao ar livre e gratuito. Já agora: com a melhor banda do planeta.

Sopram ventos de mudança no Caribe e, neste mês de março, as brisas ou os vendavais provêm de diferentes origens. Primeiro, interrompe-se uma "tradição" com 88 anos, no momento em que o presidente norte-americano, Barack Obama, pisar o solo cubano. Antes do antigo senador do Illinois, o último inquilino da Casa Branca a deslocar-se a Havana foi Calvin Coolidge, em 1928, para participar num Congresso Pan-Americano. Três dias depois da partida do chefe de Estado yankee, a "ofensiva diplomática" e a "mudança de costumes" transferem-se para outro palco - aquele que vai acolher o primeiro concerto dos Rolling Stones em Cuba, quase 52 anos depois do "início de atividade discográfica", 57 passados sobre a tomada do poder pelos homens comandados por Fidel Castro.

No dia 25 deste mês, Mick Jagger, Keith Richards e respetivos parceiros deixam "oficialmente" a lista negra daqueles que o regime cubano baniu e tantas vezes acusou de alienar a juventude.

Junta-se o útil ao agradável. Os Stones cumpriam já a digressão que assinala o regresso da banda à América Latina, dez anos depois de a Bigger Bang Tour fazer escala no Brasil, na Argentina e no México. Desta vez, o calendário era mais ambicioso: partiu do Chile (a 3 de fevereiro), passou pela Argentina, pelo Uruguai e pelo Brasil, previa ainda escalas no Peru (o espetáculo em Lima está agendado para amanhã), na Colômbia e no México, com despedida a 17 deste mês.

Afinal, as férias que Mick Jagger reservou para Cuba, em 2015, parecem ter funcionado como aproximação e, eventualmente, como negociação: a Olé Tour vai embarcar até à ilha. Para alguns intelectuais locais, como a poetisa e cineasta Wendy Guerra, trata-se de um momento histórico, que assinala "o fim da política musical e a rutura com a estética oficial".

Mais: "Assistir a este concerto será uma atitude política." Afinal, o que vai passar-se é bem diferente do que aconteceu com o norte-americano Ry Cooder, que, desafiado a viajar até Cuba, acabou por revelar uma série de "tesouros" musicais da ilha (Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Rubén González e Omara Portuondo, entre outros) que os boicotes a Cuba tinham apartado das atenções, fora de portas. Agora, trata-se de pôr os cubanos a cantar e a dançar ao som de It"s Only Rock"n"Roll, sem consequências de exclusão.

Os grandes desafios

Difícil seria descobrir melhores protagonistas para aquilo que muitos ambicionam ver eclodir - uma reviravolta, muito mais aberta e tolerante, nas possibilidades de escolha dos cubanos. Os Rolling Stones, que contam por septuagenários três dos seus quatro "efetivos" (a exceção é Ronnie Wood, que só tem 68 anos...), ultrapassaram já a impressionante fasquia dos dois mil concertos, vivendo momentos históricos e de esplendor, mas enfrentando igualmente grandes desafios.

Esta história particular pode começar a 5 de junho de 1964, data em que se apresentaram pela primeira vez nos Estados Unidos, mais propriamente em San Bernardino, Califórnia. Richards recorda a "tangente ao desastre", uma vez que grupo se apresentou sem nenhum êxito que apelasse ao público americano. Acrescenta ainda: "Em boa verdade, não tocávamos muito bem e ainda não tínhamos percebido exatamente o que fazer em palco." Depois, a 22 de janeiro de 1965, novo continente conquistado, com a estreia em Sydney, Austrália.

Se quisermos escolher o annus horribilis dos Stones em palco, 1969 não admite rivalidades: a 5 de julho, no Hyde Park londrino, a banda despediu-se dolorosamente de Brian Jones, membro fundador, morto poucos dias antes, o que levou a uma acelerada incorporação de Mick Taylor, que ficaria por meia dúzia de anos.

A 6 de dezembro, a morte voltou a marcar presença, quando um espectador do show de Altamont, Califórnia, foi esfaqueado por um membro dos Hells Angels, conhecido clube de motoqueiros, apressadamente contratado para tomar conta da segurança do espetáculo. Não podia ter corrido pior...

No palmarés, também se contam os concertos que não se realizaram. O caso mais sonante ocorreu em janeiro de 1973, quando os cinco concertos japoneses programados acabaram cancelados quando foi recusada a Jagger a entrada no país, por causa do seu "notório envolvimento com drogas", sentença ditada pelo próprio primeiro-ministro nipónico. Os Stones vingaram-se, mas só em fevereiro de 1990, com dez datas no Tokyo Dome.

Também merecem referência as datas que deram origem aos mais gloriosos discos ao vivo da banda: a 26, 27 e 28 de novembro de 1969, o que se passou nos palcos de Baltimore e Nova Iorque passou para Get Yer Ya-Ya"s Out, primeiro álbum ao vivo a chegar ao topo de vendas britânico; de 4 a 7 de junho de 1976, os shows realizados em Paris, na sala Les Abattoirs (literalmente: o matadouro), estão resumidos no notável Love You Live; mais recentemente, na comemoração do 50.º aniversário da banda, deu-se, a 6 e 13 de julho de 2013, o regresso ao Hyde Park, perante 65 mil pessoas, concertos traduzidos para o excelente Sweet Summer Sun.

A relação com Portugal justifica mais duas entradas: a primeira, imagine-se, por um concerto no Estádio Vicente Calderón, em Madrid, a 7 de julho de 1982. Num dia de absoluta tempestade, havia centenas de portugueses entre o público, descrentes de que alguma vez os Stones chegassem a Portugal. A desforra chegou a 10 de junho de 1990 quando os veteranos tocaram no Estádio de Alvalade, em Lisboa. Depois disso, já regressaram mais quatro vezes (2003 em Coimbra, 2006 no Porto, 2007 e 2014 em Lisboa).

Censurados na China

Há que salientar a deslocação dos Rolling Stones a destinos tidos como exóticos e que, no mínimo, ficam fora do circuito mais habitual para as grandes digressões das estrelas rock. Logo a 16 de fevereiro de 1965, puseram Singapura no respetivo mês. Chegaram a Joanesburgo, África do Sul, a 24 de fevereiro de 1995, já com Nelson Mandela na presidência e com o apartheid "revogado". A 4 de maio de 2003, foi a vez de Bangalore, na Índia. A 21 de fevereiro de 2014, Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Pelo meio, um caso especial: a 8 de abril de 2006, os Stones tocaram em Xangai, China. Com um incidente desvalorizado pelo próprio Mick Jagger, em nome "dos valores mais altos": a censura prévia de quatro canções, impedidas pelas autoridades locais de fazer parte do alinhamento. Citam-se, por curiosidade: Brown Sugar, Honky Tonk Women, Beast Of Burden e Let"s Spend The Night Together. Algo que, espera-se, não acontecerá em Havana, onde já se contam os dias que faltam para os primeiros acordes de Start Me Up.

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