Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus

Grande acontecimento desta temporada cinematográfica, Silêncio narra a odisseia trágica dos padres jesuítas portugueses no Japão do século XVII. Para Scorsese, é o prolongamento de uma reflexão radical sobre as relações entre o humano e o sagrado.

Não é todos os dias que um filme consegue escapar às rotinas instaladas no mercado, sejam elas de natureza promocional sejam induzidas pelo alarido mediático. Silêncio, de Martin Scorsese, é um desses filmes (estreia na próxima quinta-feira, dia 19): um objeto obstinado e obsessivo, alheio a tendências, modas ou estilos ditados por fatores exteriores ao seu próprio pensamento - aí residirá, afinal, o seu espantoso apelo universal.

Há em Silêncio uma dimensão genuinamente portuguesa que não pode deixar de nos tocar. Inspirado no romance homónimo do japonês Shusaku Endo, lançado em 1966 (editado entre nós pela Dom Quixote), o filme centra-se na odisseia de dois padres jesuítas portugueses. Enviados ao Japão na segunda metade do século XVII, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) têm por missão descobrir o paradeiro de Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), que, depois de torturado, terá renegado a sua fé. Essa sua apostasia - consumada através do pisar de uma fumie (imagem de Jesus Cristo ou de uma figura santificada) - envolve um desafio radical para a Igreja: como difundir a sua doutrina em território asiático? Mais do que isso, estamos perante uma questão subtilmente política: como lidar com o peculiar sistema de poderes e crenças da sociedade japonesa?

Para Scorsese, a adaptação do livro de Endo nunca foi uma banal tarefa de "reconstituição" histórica, muito menos a hipótese de fabricar um blockbuster habitado por heróis ou super-heróis. A sua relação com o romance foi mesmo vivida como uma saga introspetiva, inerente à reflexão sobre os caminhos da fé católica. De tal modo que a ideia de filmar Silêncio o acompanhou desde 1989, quando descobriu o romance, curiosamente em pleno Japão (onde se encontrava para interpretar a personagem de Vincent van Gogh num dos episódios do filme Sonhos, de Akira Kurosawa).

A rodagem chegou a estar prevista para 2009, com os nomes de Daniel Day-Lewis, Benicio Del Toro e Gael García Bernal a liderar o elenco. Certo é que Scorsese optou por concretizar Shutter Island (2010) e A Invenção de Hugo (2011), desse modo abrindo um conflito com os produtores italianos da Cecchi Gori Pictures, resolvido nos tribunais no começo de 2014 (através de um acordo cujos termos nunca foram divulgados). Pouco depois, foi decisiva a inclusão de Irwin Winkler na equipa de produção, ele que já estivera ligado a vários títulos de Scorsese, incluindo Touro Enraivecido (1980) e Tudo Bons Rapazes (1990). O essencial da rodagem viria a decorrer entre janeiro e maio de 2015, em Taiwan.

"Porquê eu?"

Silêncio vem encerrar aquilo que, a partir de agora, poderemos designar como a "trilogia religiosa" do seu autor, sendo A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997) os dois primeiros momentos. O que os liga é o reconhecimento de uma trágica e comovente desproporção simbólica. Tal como os padres de Silêncio, Jesus e o Dalai Lama, figuras nucleares desses dois filmes, experimentam a vertigem de serem convocados para uma missão propriamente sagrada - a assunção de uma verdade que transcende os dados da existência comum - que lhes suscita uma dúvida radical: serão eles capazes de satisfazer os desígnios da divindade que servem?

Há uma outra maneira de dizer isto: o trabalho dos portadores das palavras da fé não pode deixar de lidar com a vida comum, regressando à terra, às tensões sociais, às convulsões da política. Ou ainda: os protagonistas da missão divina vão ter de reconhecer os limites inerentes à sua condição humana. Um pouco como o Jesus de A Última Tentação de Cristo, que a certa altura se vira para o céu proclamando uma incontornável angústia: "Porquê eu?"

Escusado será dizer que Scorsese não perde de vista o paradoxo formal e filosófico que assim se instala: por um lado, a expansão da fé remete sempre, por definição, para qualquer "coisa" que está para lá do visível; por outro lado, o cinema é essa arte "primitiva" que ambiciona confrontar-se com o invisível, imaginando-o, ou melhor, revertendo-o para o mundo das imagens. Será preciso recordar que Georges Méliès, pioneiro absoluto do poder encantatório das imagens, era exuberantemente homenageado em A Invenção de Hugo?

Daí o peculiar suspense que se vai instalando no desenvolvimento de Silêncio. É verdade que a fé dos protagonistas está para lá das imagens (fumie) que ilustram a sua crença. Mas não é menos verdade que aquilo que as autoridades japonesas lhes exigem envolve a negação do valor simbólico dessas imagens (literalmente espezinhadas). Mais do que isso: eles vão ter de escolher entre esse ato de conspurcação das imagens e a morte - a morte dos seus irmãos de fé ou a sua própria morte.

Celebrar o corpo

No universo cinematográfico de Scorsese, o ponto de fuga de tudo isto é sempre, de forma intensamente física, o corpo. Será preciso recordar também que um filme como Touro Enraivecido se desenvolvia como uma epopeia intimista em que o pugilista Jake LaMotta se define como alguém que protagoniza uma celebração religiosa do seu próprio corpo?

Justamente, em Silêncio, a questão do corpo contamina todos os elementos da mise en scène. Desde logo, porque o gesto que consagra a apostasia (pisar o fumie) implica a violentação de uma vontade que desafia os valores inerentes à linguagem corporal. Depois, porque os mais diversos elementos narrativos nos vão fazendo sentir a violência da tensão que se estabelece entre os corpos ocidentais e a organização dos espaços nipónicos. Sublinhe-se, nesse aspeto, a fundamental importância da direção fotográfica de Rodrigo Prieto e da montagem de Thelma Schoon-maker - no primeiro caso, tratando o espaço, mesmo nos seus lugares mais luminosos, como um labirinto de luzes e sombras que repele aqueles que chegam do exterior; no segundo, criando ritmos e conexões, continuidades e descontinuidades que exprimem a solidão do olhar dos padres jesuítas perante uma realidade que ignora os seus valores e códigos.

No limite, o trabalho de Scorsese escolhe também um espaço de expressão de fascinante ambiguidade. Assim, mesmo através das suas singularidades narrativas, deparamos em Silêncio com a memória simbólica das grandes superproduções bíblicas que marcaram, em particular, os anos 1950/60 de Hollywood (Scorsese tinha 13 anos quando, em 1956, se estreou nos Estados Unidos o emblemático Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille). Ao mesmo tempo, na sua geométrica construção do espaço e gestão do tempo, este filme é também um herdeiro da sofisticação do mestre nipónico Kenji Mizoguchi (1898-1956), autor do lendário Contos da Lua Vaga (1953).

Talvez que o cinema seja "apenas" uma arte de questionar os nossos modos de ver e ouvir, de observar o mundo à nossa volta, inventariando as suas evidências tanto quanto as suas máscaras. Eis um filme que conduz essa arte ao supremo desafio de enfrentar o silêncio com que Deus recobre as atividades dos humanos.

Crentes ou descrentes, com Scorsese compreendemos que através de tal desafio podemos pressentir a possibilidade do sagrado.

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