Maria Filomena Mónica: "É mais fácil exportar Ronaldo que Eça de Queirós"

De chofre, revela no prefácio do seu novo livro que tem um cancro. Hoje, apresenta a sua viagem pela Europa, no dia 25 de novembro

Após as investigações históricas e literárias, memórias de outros e próprias, a socióloga Maria Filomena Mónica decidiu reunir num único volume o relato de várias viagens feitas pela Europa. Chamar-lhe A Minha Europa não foi por acaso, afinal é a grande radiografia de uma intelectual que se passeia por cidades com um olhar nada displicente e sempre atento ao significado do pormenor que escapa aos turistas que invadem mais do que nunca as ruas, as praças e os monumentos do Velho Continente.

Entre as viagens que constam deste "relatório" sobre o estado atual da Europa, existem duas que foram feitas de propósito para poder incluir a temática da Catalunha e de Bruxelas entre os problemas que a afetam. Deixa Portugal - "O Meu País" -, percorre Florença, Alemanha, São Petersburgo e o Reino Unido. Não falta França, onde a conselho de Antony Beevor foi visitar os arredores problemáticos de Paris, o bairro de Saint-Denis, por ser ali que o historiador adivinhava os conflitos a que assistimos nos últimos dias.

Entre as várias razões para viajar esteve o doutoramento, mas também a vontade de ver um fresco numa igreja distante ou descobrir outros cenários. O registo é pessoal e garante que se deixou de preocupar com a opinião académica valorizando antes a de quem a lê. Assim sendo, não há "parágrafos que só interessam à tribo dos intelectuais" nesta viagem europeia. "Agora, dei em falar com as pessoas na rua e quero saber mais", diz.

Fez há pouco tempo esta afirmação arrepiante: "Ainda não morri." É-lhe fácil dizer palavras destas?

Não. Como a maior parte das pessoas, tive a noção da mortalidade quando os meus pais morreram, principalmente com a minha mãe, que morreu de Alzheimer ao fim de 12 anos de doença. Esse era o pesadelo, tanto que quando o médico disse que tinha cancro respondi: "Ainda bem que não é Alzheimer."

Mas gostava de viver mais anos?

Sabemos que não somos imortais, mas pensamos que vamos durar muito tempo... Não sendo totalmente estúpida sabia que ia morrer, só que gostava de viver mais dez anos. No entanto, não é a morte que me horroriza, antes o perder das faculdades.

Vamos ao livro. É sobre a Europa de que gosta. Que outra visitaria?

Penso que não vou viajar muito mais porque os luxos que quero ter numa viagem são incompatíveis com o meu salário. Tenho pena de não ter estado durante um mês num país escandinavo, como a Dinamarca! Países que conseguiram um equilíbrio entre a liberdade, a proteção social e a segurança.

Avisa os leitores a não procurarem "pompa académica"...

Não faz falta e perturbaria. Seria mais fácil escrever assim porque o jargão académico é uma espécie de muleta que ajuda a pensar e, também, a não pensar. Basta introduzir frases da sociologia e entramos em piloto automático.

Cita a definição de George Steiner sobre a importância dos cafés na Europa. É frequentadora?

Os objetos físicos são também referências culturais. Quando fui a Londres aos 19 anos vi do avião como a urbanização era diferente. Não é por acaso que a Inglaterra tem casinhas individuais, é porque prezam o liberalismo. A ideia do café é latina, ligada às discussões intelectuais e a uma certa classe média pobre que, em vez de convidar as pessoas para as suas casas modestas, ia para os cafés. Onde havia tertúlias, algumas revolucionárias. Quando eu quis ir para a faculdade, os meus pais não gostaram. Achavam que era bonita e devia casar-me o mais breve possível. Uma mulher intelectual devia ser horrenda. O meu pai acabou por ceder mas com uma condição: "Deixamos-te ir para a faculdade se nos prometeres que nunca irás a um café." Fiquei tão estupefacta porque era uma coisa que não me passava pela cabeça. O café era um lugar para velhos com chapéus.

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