Marcelo: Nicolau diria que era um "disparate" sentirmos saudades dele

Presidente discursou em Serpa, terra natal de Nicolau Breyner, definindo o amigo como um "criador de felicidade"

O Presidente da República fez ontem à noite, no Cine-Teatro de Serpa, uma homenagem ao amigo Nicolau Breyner, definindo-o como um homem que no teatro, na televisão e no cinema "chegava primeiro" porque "via mais longe". Marcelo recordou episódios animados que partilhou com falecido ator, natural de Serpa, num discurso emocionado.

Lembrou a vertente de "falso impaciente" de Nicolau, sem pressa para chegar aos sonhos e definiu-o como um "criador de felicidade":

Leia a homenagem do Presidente na íntegra:

"Permitam-me uma saudação especial para as filhas de Nicolau e também para o grupo coral que esteve, estivemos, juntos, na homenagem que lhe foi prestada na Basílica da Estrela, na missa de corpo presente. E que foi um momento inesquecível, emocionante, mas ao mesmo tempo triste, saudoso. Mas como ele virado para o futuro, aqui me encontro eu na terra que ele amava, na terra que ele adorava, numa homenagem que ele bem merecia, e que é apenas a primeira de várias homenagens, uma vez que o município, e muito bem, vai atribuir o seu nome, depois de devidamente restaurado, e melhorado, a este local de cultura de Serpa [Cine-Teatro], que é a melhor homenagem que se pode prestar a quem, ao longo de toda a vida nunca esqueceu as suas raízes. Era um alentejano, mas era um alentejano de Serpa. E vibrava com isso. E gostava de o ser, onde quer que estivesse, em qualquer ponto de Portugal, em qualquer ponto do mundo. Ele era desta terra, esta terra estava na sua alma. Falar de Nicolau Breyner é, ao mesmo tempo, muito fácil e muito difícil.

Muito fácil, porque ele teve uma carreira brilhantíssima: ele foi tudo aquilo que quis ser e que podia ser. Tinha um talento único. Foi um grande ator, um grande ator no teatro, um grande ator na televisão e um grande ator no cinema. E revelou-se nomeadamente no cinema, numa fase mais avançada da vida, de uma forma excecional, excecional, que muitos não esperariam.

Mas além de ser um ator, ele foi tudo: foi encenador, foi produtor. Animou aquilo que se fez como pioneiro no teatro, na televisão e no cinema em Portugal. Que ele era pioneiro. Ele chegava primeiro e chegava primeiro porque via longe, quem sabe por influência da sua terra. A capacidade de ver longe. E via longe e tinha paciência. Parecia impaciente, mas era um falso impaciente porque ele sabia esperar pela oportunidade para concretizar os seus sonhos. Portanto, foi notável a sua carreira.

Ele chegou primeiro a tudo o que fez na sua vida e quem acompanhou como eu acompanhei como amigo e como admirador essa carreira há cinquenta anos, pôde testemunhar que ele chegou antes de outros chegarem. Ele viu antes de os outros verem. Ele viu a primeira telenovela, antes de outros verem a telenovela. Ele lançou a primeira empresa de criação de produtos para a televisão, antes dos outros lançarem. Ele lançou mesmo muitos dos talentos que vieram a trabalhar com ele, mais jovens, e apadrinhou-os, apoiou-os. E um a um reconheceram isso. Porque depois não era invejoso, não era ciumento, não tinha medo da sua sombra, não tinha medo daqueles mais jovens que representavam, porventura, mais futuro do que ele próprio pela própria razão da idade. E fez dele uma figura singular no nosso panorama cultural.

Não há uma portuguesa, um português que não tenha tido um instante da sua vida marcado pelo Nicolau Breyner. Todos recordamos uma cena, um episódio, uma data, um gesto. Eu há bocado sentei-me e perguntei à filha: 'Não está com muitas saudades?'. Ela disse-me: 'Obviamente que eu estou com muitas saudades dele'. E, no entanto, se ele estivesse aqui ele riria, com aquela boa disposição que o caracterizava e diria: 'Que disparate, ter saudades. É preciso olhar para o futuro' Que perda de tempo ter saudades. É preciso é olhar para aquela obra, aquele exemplo e olhar para o futuro, construir o futuro.

Mas além de ser tudo isto na cultura portuguesa, ele era um homem excecional. Nós encontramos na nossa vida pessoas que são notáveis nas suas carreiras, mas não são pessoas excecionais. Eu estou a ver ali o João e estivemos juntos porque por acaso um dia, acabado de eleger, eu decidi ir de improviso no Chiado ver uma exposição e ele estava nessa exposição poucos dias antes de nos deixar, com aquele generosidade que o marcava dirigiu-se a mim e foi de uma alegria esfuziante e nós já sabíamos que ele não estava muito bem de saúde. E, no entanto, atirou para trás das costas isso e falou e esteve aqueles minutos como se estivesse com a melhor saúde do mundo, porque ele tinha tempo para dedicar aos outros.

Ele punha entre parênteses os seus problemas, os seus dramas, as suas doenças e tinha tempo para cada uma das pessoas que encontrava. Porquê? Porque eu lembro-me de ter dito à entrada ou à saída da Basílica da Estrela que aquilo que lhe agradecia em nome de todos os portugueses como Presidente da República de Portugal era a felicidade, os minutos, as horas, as semanas, os dias, os meses, os anos que deu de felicidade a cada um de nós. Ele esteve a dar felicidade a cada um de nós. A sua vida foi isso: foi dedicar-se aos outros, foi criar felicidade nos outros. E era feliz assim. E realizava-se com a felicidade dos outros. Podia não estar especialmente feliz naquele dia, mas proporcionava a felicidade dos outros e passava a sentir-se feliz. Isto aconteceu, mas não aconteceu por acaso. Há muita gente notável, da cultura, nomeadamente, que é notável, mas não é tão disponível como era Nicolau. Que é notável mas não era tão aberta e tão paciente a ouvir os outros, a ajudar os outros, a criar caminho para os outros como era o Nicolau. Ele fez isso durante toda a sua vida. Permanentemente. E é por isso que estamos gratos. É por isso que encaramos a sua distância, a sua partida, ao mesmo tempo uma saudade irreprimível, mas também com um a grande esperança no futuro porque todos os dias ele recriava a esperança na vida de todos nós. Para sermos fiéis à sua memória, é isso que devemos fazer.

Deve Serpa recordá-lo sempre, porque ele foi dos maiores que Serpa teve. Deve homenageá-lo aqui porque este era o seu mundo, o mundo da cultura e porque no seu coração nunca deixou de estar Serpa. Mas depois cada um de nós deve olhar para o seu testemunho e para o seu legado e projetá-lo no futuro. E por isso é que foi tão bonito que grandes figuras do teatro aqui viessem também homenageá-lo. É tão bonito que houvesse esta iniciativa, porque é a melhor homenagem que os seus pares lhe podem proporcionar: a estarem a representar aqui e a pensar nele. A imaginar: 'E se ele estivesse na primeira fila o que ele diria? Se ele estivesse atrás do palco o que ele sentiria? Que palavra diria quando entrássemos em cena? Que palavra diria quando saíssemos de cena? Qual é a palavra?' Ele diria sempre essa palavra, com ternura, com doçura. Porque ele era assim, era doce.

Sendo franco, frontal e direto, não deixando de ter as suas convicções, era doce para com toda a gente, aquilo saía-lhe de uma forma natural. E, portanto, hoje estamos no sentido de privação de quem gostava de o ter ao nosso lado. Aquela gargalhada, aquela história, aquele comentário, aquilo que não sei se fica bem um Presidente da República dizer, mas vou abrir uma exceção: De repente convenceu-me de uma coisa que nunca me tinha ocorrido na vida. Como sabem, quem faz televisão, caracteriza-se, maquilha-se, e o Nicolau Breyner tinha a convicção de que fazia mal à pele e então convencia toda a gente que tem de aparecer a ser desmaquilhado. Às vezes era um desmazelo, às vezes era uma complicação, mas ele era assim. Tinha os comentários, as propostas mais espantosas nos momentos mais inesperados. E, portanto, nós sentimos a sua falta. Mas ele está connosco no sentido da exigência em relação ao futuro. Esse é o lado que ele teve sempre. Ele nunca envelheceu. Podia correr o tempo e ele era sempre jovem de espírito. Nessa juventude de espírito o Nicolau está connosco esta noite. E, por isso, o Presidente da República em nome de todos os portugueses não podia faltar. Bem hajas Nicolau, lá em cima, por aquilo que fizeste, meu querido amigo. E fizeste por todos os portugueses. Nós estamos eternamente gratos."

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