Luísa Costa Gomes: "Não acredito na santidade do papa Francisco"

O recente romance de Luísa Costa Gomes, Florinhas de Soror Nada, conta a história mal sucedida de uma jovem que aspira ser santa.

Antes de publicar Da Costa: praias e montes da Caparica, esta zona do país já tinha sido cenário na escrita de Luísa Costa Gomes no conto A Boa Mãe, onde recupera a sua experiência destas praias. Mas o mar também não deixa de surgir logo à quarta página do seu mais recente romance, Florinhas de Soror Nada, onde a vocação religiosa é o grande tema, com um primeiro capítulo onde a personagem salta de uma falésia e se suicida. Leia-se: "Que nem um prego. Afundada na imensidão das águas. Comida pelos peixes devagar da pesca à linha. Apenas uns ossos pousados no fundo de um oceano como algum tesouro."

Distante do ensaio sobre a praia da Caparica que chegou às livrarias, o romance não deixa de ter ligação à realidade, já que a dado momento refere uma "derrapagem anti-mística" na narrativa, por considerar que existe uma razão para esta cruzada ficcional em que critica a cada capítulo educação religiosa: "O tema escolheu-me, porque tive essa educação e por estar muito preocupada com a ascensão do fundamentalismo religioso, seja islâmico, cristão, até budista, e a incapacidade de se verificar um diálogo racional."

Para a escritora existe uma justificação para a história de Florinhas de Soror Nada: "A origem da personagem e da abordagem a uma educação que se baseia no terror de viver, agir ou relacionar, como se verifica com a da Igreja católica, que tem um poder de humilhação sobre pessoas frágeis." Acrescenta: "Preocupa-me o radicalismo primário que espalha - sem o terror do Daesh - uma loucura que é um desespero destrutivo."

Porquê um relato de uma menina que quer ser santa, pergunta-se: "Quem é que consegue seguir os modelos que a religião propõe? Quero falar desses modelos dados a pessoas que não têm capacidade de se defender por falta de estrutura e de autonomia intelectual. A história dela é a conquista dessa autonomia em relação às imagens que lhe propõem como formas exemplares de fazer o bem".

Quanto ao subtítulo que aparece na capa, Vida de uma não santa, a autora explica-o assim: "Cada capítulo parodia etapas das vidas dos santos, mas o que lhe vai acontecendo não permite continuar essa hagiografia. É uma vida de santo permanentemente sabotada."

Quando se questiona porque brinca com Francisco de Assis ao dizer que "parecia uma menina com uma barba postiça", refere os ensinamentos de uma catequese muito infantil, bons exemplos para "um romance humorístico" com "uma escrita comédica". No entanto, salvaguarda, "Francisco de Assis sempre foi o meu santinho preferido desde que me lembro".

Não é possível esquecer o papa Francisco quando se observam críticas à religião: "O papa não me veio à mente enquanto escrevia." Ele não é um coprotagonista da crítica que está neste livro? "Não, ele não é nada crítico, é mais um relações públicas. Não acredito na santidade do papa Francisco, é uma coisa que a Igreja nos vendeu e que as pessoas comem ao pequeno-almoço. Não creio nisso. Francamente, tenho uma visão mais do que crítica das igrejas em geral e da católica em particular porque foi aquela em que nasci. Se Cristo voltasse à Terra, ficaria extremamente desagradado com o que as igrejas fazem em seu nome, mas também não sei quem Ele era nem o que andou a pregar. Gosto de separar a figura de Cristo das igreja cristã, esta que o papa Francisco está a tentar configurar como imagem publicitária parece-me ainda a mais palatável. Enquanto houver padres pedófilos que não são levados a tribunal, não acreditarei numa Igreja que tem uma noção de secretismo e retrógrada. Não me convenço que haja uma tentativa honesta de transformação."

Educada num colégio para filhos de militares, recorda que não participava na maior parte dos ritos religiosos: "Naquele tempo não existia uma alternativa como agora, toda a gente fazia o habitual por inerência."

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