Uma feira para enganar a crise inevitável no sector do livro

Em 2012, vendeu-se menos um milhão de livros. O mercado do livro digital está a crescer, só que ainda não é significativo. Mas os editores recusam-se a desistir. A feira é uma festa. E os descontos uma certeza. Até 10 de junho

Menos um milhão de livros. Um estudo da GfK Portugal apresentado este mês refere uma quebra de cerca de um milhão de exemplares vendidos no ano passado em relação a 2011. No total, foram comprados 13,56 milhões de livros, o que representa um volume de negócios superior a 149,05 milhões de euros. Valores que representam uma diminuição de 9% (mais de 15 milhões de euros). A análise, esclarece a consultora, incide apenas no mercado não escolar, com uma cobertura estimada entre os 75% e os 80% deste segmento.

Os portugueses têm menos poder de compra e mais dúvidas em relação ao futuro, e isso reflete-se no modo como consomem. "Se as pessoas não têm dinheiro para coisas essenciais, é normal que comprem menos livros", admite Sofia Monteiro, editora da Esfera dos Livros. De acordo com os dados apresentados esta semana pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), a queda no consumo de livros (em supermercados e hipermercados) é uma das mais significativas e situa-se nos 9,2%.

Em compensação, a venda de tablets registou um crescimento de 20,1%, mas de acordo com Pedro Pereira da Silva, vice-presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), "os livros digitais têm ainda um mercado muito, muito reduzido. Há muita gente a aderir. Mas não tanto que faça uma diferença relativamente ao livro de papel". As quebras registadas nas vendas de livros de papel não têm que ver com isto mas com a diminuição do poder de compra, acredita.

No entanto, no dia em que começa mais uma Feira do Livro de Lisboa, os editores recusam-se a deixar que as sombras da crise pairem sobre o Parque Eduardo VII. A feira é uma festa e nos dias de festa não é permitido ter pensamentos negativos. "O sector do livro também está a sentir o impacto desta profundíssima crise. Mas há a certeza de que vamos ultrapassar estes tempos difíceis", afirma Paulo Gonçalves, porta-voz do grupo Porto Editora. "A verdade é que o sector do livro é, de entre as indústrias culturais, a que menos apoio tem, como também é um facto que é um sector extremamente criativo, dinâmico e profissional", acrescenta.

Sem medo de apostar

Ou seja, a crise existe, mas é possível respirar. E ainda há caminhos a seguir. Que o diga Alexandre Vasconcelos e Sá que se prepara para lançar, no final do mês, uma nova editora, a Divina Comédia, estreando-se com, entre outros títulos, Mudanças, um livro do último prémio Nobel da literatura, Mo Yan.

Não há que ter medo de apostar, se se souber o que se faz. A Esfera dos Livros, por exemplo, "continua a editar o mesmo número de livros, quatro a cinco títulos por mês". "Temos é que escolher muito bem esses livros", explica Sofia Monteiro. "E olhando para os tops de vendas vemos que temos feito as escolhas certas." Entre os best-sellers garantidos e os nichos de mercado, há espaço para o otimismo das editoras, grandes e pequenas,dizem os vários responsáveis.

Outro dos dados curiosos revelados pela GfK é que a quebra no volume de negócios foi superior à registada em termos de exemplares vendidos, o que significa que as editoras estão a comercializar os livros por preços inferiores, refletindo, por exemplo, promoções mais agressivas. Pedro Pereira da Silva, responsável da APEL, admite que "tem havido uma quebra média do preço do livro", desde o ano passado, o que é uma clara tentativa para reagir à crise. "As editoras, distribuidoras e livrarias têm feito um esforço para que o livro se torne mais acessível", garante.

Promoções e descontos não vão faltar nesta feira, uma garantia dada por todos os editores. Cláudia Moura, da Livros Horizonte, acredita que é possível "adaptar os preços de todos os livros à definhada bolsa dos leitores, tentando diminuir ao máximo as dificuldades por que passa quem continua a querer ler". Por isso, vai haver "muitos e muitos livros ao preço da chuva, o que inclui até ofertas".

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