Lisboa, esta cidade que desconhecemos todos os dias

Com ESTA É A MINHA CIDADE E EU QUERO VIVER NELA, o Teatro do Vestido redescobre Lisboa para cada um de nós a ver melhor.

Há uma cidade em construção em redor do Teatro Nacional. Começa num filme de Paulo Rocha, sobe pela Rua de São José conduzida pela máquina do tempo de Tânia Guerreiro, tem miradouros nos edifícios esventrados que Estêvão Antunes olha como se visse "o interior de uma pessoa", contém lugares para "desaparecer à vista de todos" seguindo o guião de Miguel Bonneville e jardins para partilhar leituras e bolinhos com a adolescente bem comportada que Inês Rosado resgatou à Praça da Alegria dos anos 50. Com Esta É a Minha Cidade e Eu Quero Viver Nela - assim mesmo, em maiúsculas - o Teatro do Vestido (TdV) redescobre Lisboa para cada um de nós se sentir estrangeiro nela e, paradoxalmente, a olhar nos olhos como nunca, guiados por anfitriões-atores que nos conduzem por uma geografia tão real como ficcionada.

"A experiência que procuro no teatro é esta - dos lugares reais, mesmo que vistos e sentidos à luz da ficção; das pessoas reais, mesmo que reinterpretadas por nós", diz Joana Craveiro, que assina a direção deste projeto do Teatro do Vestido, já com várias vidas (habitou Viseu e o Porto, além de vários lugares específicos de Lisboa) e que se afirma logo no título como reivindicação. "O teatro é, em si, um potencial manifesto, por todas as razões, mas principalmente porque podemos pôr um grupo de pessoas - atores - a falar para outras - público - sobre temas importantes, urgentes, relevantes. O trabalho que o TdV faz é político e de intervenção poético-política sobre a realidade." A investigação faz parte da metodologia de trabalho, e é com esse chão que se constroem as ficções. "Somos uma companhia de teatro e não um partido político, e o que fazemos é basicamente artístico." O cruzamento do território da ficção com o testemunho vivo - os lojistas, os habitantes, os comerciantes, as histórias do bairro - e documental propõe espetáculos que interrogam a biografia no campo ficcional, deslocando uma e outro para chegar a algo que é sempre muito pessoal. "Cada ator-criador fez a sua proposta a partir da sua observação de um pedaço de cidade que lhe foi distribuído, e foi assim que chegaram aos temas e histórias que queriam contar; eu depois fui por cima e acrescentei algumas coisas. O meu mapa de Lisboa está ainda em construção, e muitas dessas camadas estão nesta peça, onde as minhas próprias memórias estão confundidas com as deles; e o Paulo Rocha chegou então para nos abençoar a todos."

Esta É a Minha Cidade e Eu Quero Viver Nela escava memórias, acrescenta pontos a histórias, apega-se a ruas e escadinhas para construir uma ficção que é daquele lugar e daquelas pessoas e de todos os lugares, os nossos incluídos, arrastados para a experiência física de olhar Lisboa de novo. "Palmilhar, cheirar, subir e descer, ouvir os atores - mas não só os atores - e também tudo o que está à volta - não seria possível de outra forma. Falar de lugares sem estar fisicamente neles não é a mesma coisa", diz Craveiro. Quando Simon Frankel nos arrasta pelas Escadinhas do Fala-Só acima estamos nos antípodas da visita guiada "de borla mas com gratificação", mas mimando-a, compreendendo-lhe a astúcia face ao turista ávido, estrangeiros como nós, agora, na cidade que desconhecemos todos os dias. Erramos pelo Parque Mayer num "silêncio que não é bem um silêncio, é o som da desolação" - diz a artista de variedades de Ainhoa Vidal -, vemos o que já lá não está com os seus binóculos mágicos, descansamos num banco da Avenida da Liberdade enquanto Rosinda Costa nos sussurra ao ouvido - "estamos sentados em cima dos destroços de uma cidade e é bom que tenhamos consciência disso". E, acrescenta Joana Craveiro, estes destroços são tanto "a camada histórica do terramoto como a camada atual da destruição concreta da cidade e suas comunidades".

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