"Lisboa é de aço, é de tal ordem que resiste a tudo"

O fadista português mais premiado de sempre, considerado um dos cantores mais importantes do seu tempo e uma das vozes mais emblemáticas da música portuguesa, apresenta-se logo à noite, no Largo do São Carlos, em Lisboa, para um concerto único e de entrada livre

As memórias de infância guarda-as em travessas de esconderijo e ruelas de encantar, quando, com os seus putos, capitães da malta, as calcorreava, voraz, deslizando em tábuas de madeira com sabão. E em estádios imaginários do bairro da Bica, engalanava as bolas de trapos, como se fossem as bolas dos campeões. Ele, o miúdo Carlos do Carmo e os seus putos.

Esta noite, Lisboa retorna, romântica, ao coração do homem na cidade, talvez, sob a forma de poema. Ainda se perde de amores por ela. Carlos do Carmo, hoje, joga em casa, rodeado de uma equipa de luxo, músicos e técnicos, em simbiose mútua apenas para o deixar cantar, quando soarem as 21.30, no Largo de São Carlos. Num concerto de entrada livre, a fechar o alinhamento de Eu Sou do Fado incluído no festival Lisboa na Rua. Melhor que ninguém, o próprio revela ao DN porque é que cantar em Lisboa para a sua gente é tão maravilhoso. Palavra dada a Carlos do Carmo.

Hoje canta em casa...

Vou usar uma expressão futebolística: há equipas que têm mais dificuldade em jogar em casa, já reparou que os resultados são mais difíceis, é perigoso! Eu espero que corra bem, mas é muito bom, cantar em Lisboa para a minha gente é maravilhoso, maravilhoso!

Sente-se mais próximo das pessoas neste estilo de concerto?

Já estou numa fase da minha vida em que tenho muita dificuldade em responder a essa pergunta. Sinto-me sempre próximo, estar com as pessoas, pode ser para 400 ou 40 mil, como já aconteceu, sinto-me sempre próximo em qualquer lugar. Sabe, o fado tem uma dominante, as pessoas sabem que para ouvir fado têm de estar em silêncio e o silêncio é uma coisa muito concentradora, muito intimista porque provoca reflexão, estou a refletir com os meus versos naquilo que tenho para dar às pessoas, estou em silêncio com a minha entrega naquilo que tenho para dar aos outros. Sinceramente eu hoje já não sinto essa diferença, para mim o que conta são as pessoas e não os espaços.

E que surpresas pode revelar?

Estou em Lisboa, vou centrar muito um repertório na nossa cidade e de fados que - ai de mim que não os cante! - já são das pessoas, não são meus, tenho mesmo de os cantar. Tenho o melhor trio de guitarras do fado. José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença e o Didi, e com a melhor equipa técnica, o meu filho Becas e o Pedro Leça Martins. Portanto, é uma equipa de luxo, todos craques. Eu só tenho de cantar, eles tratam de tudo.

Há algum fado sempre especial para si?

Não tenho especiais, os especiais são o público que escolhe, há uns de que gosto muito e que o público nem por isso.

Vai ter a sua gente da Bica por lá?

O quê? Raparigas do meu tempo? Então não tenho? Vêm, abraçam--me e beijam-me. O que acontece é que depois trazem os filhos e os netos, isso é que tem piada.

Ainda visita o seu bairro com frequência?

Gosto de ir à Bica hoje quando tenho razões para isso. Por exemplo, mostrá-la aos meus amigos estrangeiros. Gosto de lhes mostrar uma Lisboa diferente, as coisas recaem muito para o Bairro Alto e Alfama e é um momento agradável para mim rever a casa onde vivi, contar-lhes as histórias do que era e o que é hoje. As coisas mudam.

Que memórias guarda do Chiado?

As melhores. Durante 20 anos, tive uma casa de fados, e normalmente, ao fim da tarde, costumava ir ao Chiado. E tinha os meus hábitos. Por exemplo, gostava de engraxar os sapatos, o trabalho deles era magnífico, ficavam parecia um espelho... Estive lá o outro dia e estão em estilo minimuseu agora.

E que mais fazia?

Tinha muitas lojas interessantes, eu costumava comprar discos na António Cardoso Pereira, onde trabalhava um amigo meu que mais tarde foi um grande homem da rádio, o Matos Maia, ia à Valentim de Carvalho... O meu tio tinha uma livraria que era a Luso-espanhola, o Chiado era uma zona muito familiar para mim.

Mas em miúdo não ia brincar para ali.

Não, brincava na Bica, é um bairro todo em encostas, de um lado Santa Catarina, do outro, as Chagas, pequenas ruas em declives, numa das ruas, na Travessa do Cabral, com os meus amigos de infância, fazia corridas com os skates da época, eram tábuas de madeira e púnhamos sabão por baixo, era rolar por ali abaixo a ver quem chegava primeiro. E do outro lado da rua, que já era menos íngreme, fazíamos grandes jogatanas de futebol com bola de trapos.

Sente a sua Lisboa hoje muito diferente?

Eu tenho um olhar muito romântico sobre a cidade, e os olhares românticos são incuráveis, completamente incurável. E as mazelas e os seus defeitos, não é que os esconda, não lhes dou importância que provoquem infelicidade, sabe? Lisboa tem coisas tão boas, que eu deixo que no campeonato ela fique esses pontos todos à frente das coisas que estão mal feitas.

Mas já se dececionou?

Quando os meus filhos eram miúdos, houve um período em que a cidade foi desfeiada, foi maltratada, a Avenida da República e o Largo do Saldanha eram extraordinários, houve tantas maldades, tantas maleitas, tanta coisa novo-rica e feia. Atenção que eu não sou nada pessoa de paragem no tempo, antigamente é que era bom, não é nada o meu estilo, o que eu acho é que as cidades não podem perder as suas características. Há uma cidade que eu amo, Paris, por exemplo, onde não se permite, repare, que as coisas básicas sejam mexidas, está instituído, é cultural. Mas Lisboa é de aço, é de tal ordem que resiste a tudo.

76 de vida, 53 de carreira. Ainda há muito para fazer?

Tenho uma ideia em relação à finitude que resultou do facto de ter estado à beira da morte há 16 anos, e a minha filosofia mudou muito em relação à vida, não estou cheio de projetos mas não me estou a ver reformado, não me estou a ver reformado em casa, porque ao fim de 53 anos, eu seria um tipo completamente insuportável, vou trabalhando, dentro do possível, olhe, ainda gosto muito de sonhar, e através disso, passa o mundo na minha cabeça. Eu não vivo isolado. Posso dizer que há poemas lindíssimos na minha pastinha de trabalho, também do meu querido Jorge Palma, tenho muito para aprender e cantar, será mais para breve, não para esta noite.

Como vai preparar o seu dia até ao concerto?

Logo que seja chamado pelo general para fazer o ensaio de som, vou, mas até lá conto ficar fechado na minha casa - eu não uso ar condicionado - com a ventoinha perto de mim, que eu não estou para aturar o calor que está em Lisboa. E vamos embora!

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