Linda Martini "A diversidade é a nossa marca de água"

Um novo disco e concertos esgotados. A banda está de volta com.. Linda Martini

Os Linda Martini estão de regresso aos discos com um álbum homónimo que os traz de volta ao rock mais abrasivo dos primeiros tempos, mas também desbrava novos caminhos musicais. Criado ao longo de três residências artísticas em Amares (Braga), na Arrábida (Setúbal) e na Catalunha, em Espanha, este quinto registo de originais é talvez o mais coeso da já vasta discografia da banda lisboeta, que ontem atuou no Lux, em Lisboa, onde regressa hoje, para uma segunda noite de apresentação do disco, também ela já há muito esgotada.

Este disco resulta de três residências artísticas, em diferentes locais e momentos. Porque sentiram esta necessidade de se afastarem de tudo para compor?

Pedro Geraldes (P.G.) - Acima de tudo, teve mais que ver com questões de disponibilidade e de organização. A partir do Sirumba, o nosso último álbum, de 2016, passámos a dedicar-nos quase exclusivamente à banda, mas, com o tempo, fomo-nos apercebendo de que não estávamos a ser tão produtivos quanto desejaríamos. Chegavam-se a passar semanas em que nada acontecia e tornava-se cada vez mais difícil acertar as disponibilidades de cada um.

E como resolveram a questão?

P.G. - Chegou uma altura em que tivemos de fazer um balanço. Sabíamos que queríamos continuar a fazer música, mas isso não se refletia no tempo que passávamos juntos na sala de ensaios. E foi por essa razão que adotámos esta estratégia. Pensámos que seria uma boa ideia sair da nossa bolha e fazer algo mais intensivo e focado. E isso sente-se no disco, porque nos permitiu não só explorar mais mas também brincar muito mais. Permitiu-nos trabalhar de uma forma muito mais despretensiosa.

Como assim, mais despretensiosa?

P.G. - No sentido em que quando se ensaia apenas uma ou duas vezes por semana, sentimos a obrigação de fazer tudo de uma vez e logo muito bem, o que por vezes retira essa espontaneidade. Também houve momentos de frustração, claro, mas passada uma semana de trabalho já há um desprendimento tal, que tudo sai de uma forma muito mais fluida. Parece contraditório que um método tão intensivo acabe por se tornar mais leve, mas foi isso que aconteceu. E por outro lado fica mais fácil de conciliar com a vida pessoal e familiar de cada um, porque já há aqui mães e pais.

Cláudia Guerreiro (C.G.) - E por um lado também é difícil, porque sabemos que nos vamos embora mas vamos deixar alguém aqui sozinho, com tudo na mão. Por outro lado é uma semana em que tudo acontece. É diferente de estar aqui e ir fazendo.

Pode-se dizer que acabam por funcionar melhor, como banda, quando estão isolados do resto?

Hélio Morais (H.M.) - Funcionamos de uma forma mais assertiva, isso sim. Normalmente um disco faz-se em mais ou menos ano e meio, porque o processo de composição ocupa apenas partes ínfimas de uma semana de trabalho. Ao termos feito estas residências, conseguimos que tudo se conjugasse num terço desse tempo. Acabámos por ser mais eficazes, o que não significa que tenhamos funcionado melhor como banda, estivemos foi muito mais focados num curto espaço de tempo.

E os sítios por onde passaram, acabaram por influenciar o disco?

André Henriques (A.H.)- Nem por isso, acho que influenciou o facto de estarmos tanto tempo juntos. Ou seja, usufruímos dos espaços porque nos focámos na composição. Acordávamos muito cedo, tomávamos o pequeno-almoço juntos e tocávamos até à noite. Só parávamos para comer e às vezes nem isso. Não tínhamos sequer tempo para passear. É muito importante para uma banda como nós, que já temos alguns anos, conseguir quebrar as rotinas de disco para disco. No Sirumba, por exemplo, isso teve mais que ver com a abordagem aos instrumentos. Neste, tem mais que ver com o método.

A uma primeira audição, Linda Martini parece um disco bastante diverso, mas ao mesmo tempo homogéneo. Começa com um rock muito abrasivo, a fazer lembrar os primeiros tempos da banda, mas depois vagueia por territórios a fazer lembrar o fado...

H.M. - Sem dúvida, mas curiosamente, quando fizemos a primeira residência, estávamos a avançar para territórios mais próximos do Sirumba. De tal maneira que o nosso manager até dizia, meio a brincar, que estávamos a fazer um disco de jazz e não de rock. Isso acabou por nos picar e trazer de volta ao rock.

A.H. - Essa diversidade é um pouco a nossa marca de água, até porque isso sempre aconteceu em todos os nossos discos anteriores. A criatividade trazida por cada um, para o processo de composição, é que vai esticando cada vez mais a manta de retalhos que é a nossa música. Muitas vezes, quando temos uma música nova e a apresentamos a algum amigo, a resposta mais comum é que soa a Linda Martini e isso é bom. O que nos interessa é encontrarmos sempre novas formas para nos expressarmos

C.G. - Sim, todos os nossos discos têm essa abrangência, talvez até mais do que este, que é um disco que começa num ponto e acaba noutro, sem se dispersar muito.

H.M. - Por acaso discordo, em termos de canções este é um disco muito diverso.

C.G. - Mas o todo é muito mais coeso.

Esperavam esgotar os dois concertos de apresentação do disco em Lisboa?

H.M. - Em situações normais diria que sim, mas a questão é que há menos de dois meses já tínhamos tocado no Coliseu. É certo que foi um concerto a meias com o The Legendary Tigerman, mas é o Coliseu e estava cheio. Por isso estávamos relativamente reticentes em fazer duas datas no Lux. No início pensámos apenas numa, mas lotou tão depressa, que decidimos fazer uma segunda.

A.H. - É uma característica muito nossa, esse desprendimento, até na forma como fomos crescendo na música. Nunca perdemos muito tempo a antecipar o futuro. O nosso foco é apenas fazer, acreditando que, se trabalharmos bem, boas coisas poderão surgir daí. Isso é uma das coisas que nunca mudou em nós. Nunca fizemos planos para tocar no Coliseu, encher dois Lux ou ter um disco no primeiro lugar do top.

C.G. - Basicamente nunca nos damos como garantidos.

H.M. - Há dois fatores que sempre nos ajudaram nessa questão do não deslumbramento. Um deles tem que ver com o facto de termos vindo da cena punk hardcore, em que os nossos ídolos tocavam connosco e no final íamos falar com eles. O outro é conhecermos demasiados músicos que nos anos 90 viveram uma época muito gorda e hoje têm grandes dificuldades. Isso dá-nos bem a noção do quanto tudo isto pode ser efémero.

Linda Martini

Sony Music Portugal

PVP: 12,99 euros

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