Laurent Cantet filma as ilusões e desilusões da revolução cubana

Com Regresso a Ítaca o autor de A Turma filma as memórias da revolução

Face a uma estreia tão fascinante como Regresso a Ítaca, o menos que se pode dizer é que o seu realizador, o francês Laurent Cantet (n. 1961), continua a ser um cineasta imprevisível. Começámos a conhecê-lo através de Recursos Humanos (1999), crónica tão dramática quanto atípica sobre o universo da gestão empresarial; vimo-lo consagrado com a Palma de Ouro de Cannes através de A Turma (2008), visão perturbante da crise contemporânea do ensino; mais recentemente, em Foxfire - Raposas de Fogo (2012), inspirado num livro de Joyce Carol Oates, deu-nos uma crónica subtil das atribulações de um grupo de raparigas na América de meados da década de 50.

Agora, com Regresso a Ítaca, trabalhando a partir de um argumento em que contou com a colaboração do escritor cubano Leonardo Padura, descobrimo-lo em Havana - Cantet encena o diálogo de cinco amigos (quatro homens e uma mulher), motivado pelo regresso de um deles depois de um exílio de 16 anos vivido em Espanha. Escusado será sublinhar que o título evoca o simbolismo da Odisseia, de Homero, desta vez a partir de um homem que, com os seus amigos, se vê compelido a reavaliar as ilusões utópicas e, sobretudo, as muitas desilusões, afetivas e políticas, da revolução cubana.

Escapando a qualquer facilidade panfletária, Cantet reafirma um valor fundamental do seu cinema: o respeito pelo caráter irredutível de cada personagem, impossível de esgotar em qualquer descrição mais ou menos coletiva. Mais do que isso: o confronto dos cinco protagonistas passa, de forma decisiva, pela espessura dramática dos diálogos - em cada troca de palavras, sentimos que há um peso real, asfixiante e contraditório, de um passado que está muito para além dos padrões ideológicos do "socialismo real".

Num tempo em que tantas vezes se confunde a ação com a "rapidez" das naves espaciais que atravessam o ecrã, eis um exemplo modelar de um cinema de inusitada velocidade. Porventura assumindo-se como herdeiro de outro francês, Eric Rohmer (1920-2010), Cantet celebra um modo de ver (e ouvir) em que a fala pode ser a mais vertiginosa forma de ação.

Tudo isto é filmado na cidade de Havana, no essencial no terraço de uma casa. Dir-se-ia que a cuidadosa elaboração dramática de cada situação pressupõe a transparência de uma visão que, à sua maneira, também é documental. Mais do que isso: a agreste densidade do passado surge exposta num tempo quase linear, com a ação a desenrolar-se entre um fim de tarde e o nascer do sol do dia seguinte. E há uma beleza estranha e envolvente nas transformações de luz a que assistimos - como se os protagonistas fossem peões incautos de um impossível regresso a um tempo medido apenas pelos ciclos da natureza.

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