"La folle soirée" de Amaral e Andrade

Ópera "Beaumarchais", criação conjunta de Jorge Andrade e Pedro Amaral, em cena no D. Maria II até domingo, dia 2

Um objeto difícil de explicar e, precisamente por isso, tanto mais estimulante. O espectáculo que Pedro Amaral (compositor) e Jorge Andrade (encenador e ator da mala voadora) conceberam a partir da trilogia de Beaumarchais (Barbeiro de Sevilha/Bodas de Fígaro/A mãe culpada) é uma fusão e/ou entrelaçamento das dimensões teatral e músico-teatral, do texto declamado e do texto lírico musicalmente sustentado.

Só por aqui se nos afigura sadio que um compositor com um percurso como Pedro Amaral tenha aceitado este desafio... e se saia airosamente dele, com "golpes de asa" que revelam inéditas virtudes no seu "métier", sobretudo quando recordamos a sua anterior experiência "operática" (com muitas aspas): "Sonho" (2010).

Agora, face a tanto teatro, Pedro Amaral respondeu em conformidade, convocando uma música que não desdenha evocações e alusões, situações e sugestões, mas na qual está imensamente presente... Viena. A de Mozart, claro, mas também a de Berg (e de outros pelo meio). E depois com a lição e o "filtro" de Boulez. A escolha dos textos musicados, no fundo pequenos fragmentos dramáticos, permitiu aferir da versatilidade do compositor neste "medium", sendo que, isolados e quase descontextualizados, alguns deles remetiam para universos estéticos bem mais avançados no tempo que o século XVIII tardio.

O pretexto cénico é um clássico e bem a-propósito "Rossio na Betesga" (3 peças num espetáculo), desafio do qual Jorge Andrade se sai com muita imaginação, com as interpolações teatrais, com uma dose q.b. (que nele é ainda assim muita!) de desconstrução e derisão. Face ao todo, porém, teria sido interessante envolver mais a orquestra (mais que só a falsa trompista) naquela loucura controlada.

O falso final, "a capella", não pode deixar de convocar o "Tutto nel mondo è burla" do "Falstaff" verdiano, que a "gravitas" do epílogo orquestral depois (questionavelmente?) faz por dissipar.

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