Ken Loach expõe abusos da burocracia

Nos primeiros dias do Festival de Cannes, o destaque vai para "I, Daniel Blake", de Ken Loach

Num grande festival como Cannes, somos levados a participar num curioso fenómeno de cumplicidades. A conjugação de tantos filmes, descobertos no mesmo contexto, leva quase sempre a identificação de um ou vários temas "dominantes" no evento. Consciente das armadilhas que isso pode envolver, Thierry Fremaux, delegado geral do certame, numa entrevista dada nas vésperas da abertura oficial, lembrou que "são os filmes que fazem o festival" (e não o contrário).

Este ano, para já, apetece falar de realismo. A primeira motivação provém de um filme que ilustra, justamente, a persistência de uma tradição realista (britânica), das mais enérgicas de todo o contexto europeu. Reencontramos as suas marcas no novo trabalho do veterano Ken Loach, I, Daniel Blake, uma surpresa se nos lembrarmos que também em Cannes, em 2014, O Salão de Jimmy fora apresentado como um título para encerrar a sua filmografia.

Loach entregou a um comediante muito popular no seu país, Dave Johns, uma personagem atualíssima, com profundas ressonâncias dramáticas. Johns interpreta Daniel Blake, um carpinteiro de meia-idade cujos problemas cardíacos o levam a procurar apoio na assistência social, nesse processo criando um laço muito especial com uma mãe solteira à deriva com os seus dois filhos - a lógica (ou a falta dela) de uma burocracia desumanizada irá pesar decisivamente no seu destino.

Encontramos em I, Daniel Blake uma atenção aos detalhes do dia--a-dia que, no fundo, pode resumir a estratégia do seu cinema, desde os tempos heroicos de Vida em Família (1969) ou Kes (1971). Mais do que isso: a construção do argumento - assinado pelo fiel colaborador Paul Laverty - vai no sentido da integração de algumas elaboradas componentes melodramáticas, decisivas na vibração emocional das cenas finais.

De realismo também será necessário falar a propósito de Eshtebak (título internacional: Clash), de Mohamed Diab, produção de origem egípcia, com participação francesa, que aborda um momento muito particular da história recente do Egito (abertura da secção Un Certain Regard). Tudo se passa em junho de 2013, na sequência da deposição do presidente Mohamed Morsi pelos militares, com o Cairo a ser palco de violentos confrontos. Mais exatamente: tudo acontece no interior de um carro blindado para transporte de presos. Em tão exíguo espaço vão encontrar-se apoiantes de Morsi e da Irmandade Muçulmana com cidadãos que apoiam o golpe militar. Obviamente perturbante pelo crescendo de violência (dentro e fora do carro), a importância do filme está limitada pela vontade de montar um huis clos que, em boa verdade, a certa altura, perde a sua justificação dramática.

Para algo completamente diferente... teremos de citar Ma Loute, do francês Bruno Dumont, história bizarra de 1910, centrada na convivência dos pescadores de uma povoação do Norte de França com os membros de uma família burguesa em processo de patética decadência. Parece evidente que Dumont quis reencontrar a ironia picaresca da sua série televisiva O Pequeno Quinquin (2014), caindo no erro de confundir a dinâmica das personagens com a criação de eventos mais ou menos "chocantes". Um pouco mais de realismo talvez tivesse ajudado.

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