Jodie Foster pergunta de onde vem e para onde vai o dinheiro

Regressou ao Festival de Cannes, desta vez como realizadora. Traz Money Monster e um elenco de luxo, com Julia Roberts, George Clooney e Jack O"Connell. O filme estreou esta semana em Portugal

A presença de Jodie Foster em Cannes, com Money Monster, o quarto título que assina como realizadora, não pode deixar de evocar a sua estreia absoluta no maior festival de cinema do mundo. Foi há exatamente quatro décadas, quando ela, com apenas 13 anos, surgiu como a inesperada "menina-prodígio" de um filme que se iria inscrever de forma singular na história e na mitologia de Hollywood - chamava-se Taxi Driver, era protagonizado por Robert DeNiro, dirigido por Martin Scorsese e, além do mais, arrebatou a Palma de Ouro de 1976 (com Tennessee Williams a presidir ao júri).

Agora, Jodie não irá ganhar qualquer prémio - Money Monster está na seleção oficial, extra concurso, e surge no festival enquadrado pela estratégia de um imponente lançamento global (aliás, acompanhado por rigorosas exigências de embargo à comunicação social, até à hora da primeira projeção em Cannes). Seja como for, pode dizer-se que a energia espetacular de Money Monster enraizada numa hábil estrutura de "thriller" e, em particular, a atualidade da sua temática de fundo - as fraudes dos sistemas financeiros - lhe trouxeram uma importante vitória simbólica.

Estamos, de facto, perante uma visão inesperada, não apenas dos movimentos do dinheiro, mas também das ligações perversas entre os circuitos financeiros e o espaço televisivo, condensadas na personagem do apresentador de um programa (intitulado "Money Monster") que, em tom burlesco, vai comentando os altos e baixos das bolsas, sugerindo aos espetadores onde vale a pena investir.

A saga dos "mercados"

George Clooney, também produtor do filme, compõe, num jogo de ambígua sedução, essa figura bizarra, muitíssimo bem secundado por Julia Roberts, como realizadora do programa, e Jack O"Connell (vimo-lo em Invencível, de Angelina Jolie), o inesperado grão de areia que vai por em causa toda esta engrenagem mediática.

O"Connell compõe a figura de um jovem desesperado que, munido de uma pistola e uma bomba, ocupa, literalmente, o estúdio de "Money Monster", exigindo explicações sobre o facto de ter seguido um conselho para a aquisição de determinadas ações, acabando por perder todas as suas economias.

Mais do que isso, se ele perdeu "apenas" 60 mil dólares, o certo é que as poupanças desbaratadas por todos os que, como ele, seguiram o mesmo conselho equivalem a 800 milhões...

O filme de Jodie Foster constitui um belo exemplo daquilo que é, ou pode ser, um cinema de raízes genuinamente populares - bem longe de qualquer facilidade populista. Aqui esta, de facto, uma história capaz de nos fazer ver como as grandes abstrações da economia global (a começar pelos célebres "mercados" sem rosto) remetem sempre, em última instância, para a ação muito concreta de seres humanos.

Ao mesmo tempo, compreendemos que nada disso pode ser separado de um mundo saturado de informação, nem sempre parando para pensar o que significa tal abundância. Na conferencia de imprensa de Money Monster, George Clooney disse-o de forma cristalina: "24 horas de notícias não significa que tenhamos mais notícias; significa apenas que recebemos mais vezes as mesmas notícias".

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