João Magueijo: "O livro é escabroso mas as histórias reais são piores"

Entrevista ao escritor e cientista sobre o seu novo livro Olifaque

O título do novo livro do físico João Magueijo pode não ser percetível à primeira leitura. Chama-se Olifaque (Holy fuck) impresso numa capa onde se destacam as imagens de dois portugueses, um emigrante e um de fatiota, entrelaçados entre quatro bacalhaus pendurados, e um ponto no "i" que é um pastel de nata. Tem como subtítulo Uma farsa em Emigrês, ponte que o leitor irá compreender mal leia as primeiras páginas e se depare com as histórias da população que procura sobreviver fora deste retângulo europeu.

Uma chave para compreender este novo livro, o seu primeiro romance, está impressa na badana esquerda. É aqui que a editora explica ao que Magueijo vai: "É inevitável não pensar num certo estereótipo quando falamos de "emigrante português" portador de uma portugalidade orgulhosa que nem sequer existe em Portugal." Por isso, "Olifaque é um retrato humorístico com regionalismos que não se perdem" e, acrescenta-se, "escrito numa linguagem original - o emigrês - que nos obrigará a confrontar com a nossa cultura, história e costumes".

Está feito o aviso e ainda bem porque o leitor vai espantar-se com o que está narrado nestas 250 páginas de um romance tão inesperado por conter uma narrativa ordinária, racista, xenófoba e sexista. Uma farsa atual que leva o leitor a perguntar se Gil Vicente terá sentido as mesmas reações quando os do seu tempo ouviram as deixas de 44 peças dominadas pelas expressões populares próprias dos portugueses de então. Se o dramaturgo nunca evitou apropriar-se do modo como se falava na altura, o mesmo fez o físico português nesta volta pelos expatriados que vivem no Canadá, uma comunidade que conhece bem por lá ter convivido como muitas das personagens deste Olifaque. Aviso: deve entrar-se neste livro com muito cuidado.

Porquê um romance tão "diferente"?

Os meus livros são todos diferentes uns dos outros. Ninguém se pode queixar.

Exato, mas para este até é difícil ter perguntas para fazer.

O Grande Inquisidor era contra o estabelecimento [establishment] e ninguém se sentiu atingido. O facto de o livro ser assim é intencional, mas não resulta de uma procura de controvérsia. O meu primeiro, Mais Rápido Que a Luz, era um ataque ao estabelecimento científico; o Bifes Mal Passados era sobre o nosso complexo de inferioridade e a arrogância dos países do Norte; este é um ataque aos embaixadores, políticos e portugueses que se acham no direito de julgar os milhões de emigrantes. É preciso abanar essa situação.

Um abanão que começa logo no título!

As pessoas podem não perceber porque falam um inglês que vem pela via escrita. Não é fuck que se diz mas faque. O título resulta do emigrês que é apanhado de ouvido.

Para escrever neste registo foi precisa muita investigação?

Muita, porque este é um livro sério no sentido linguístico. Falei esta língua durante os anos em que estive no Canadá, onde se perguntarmos se o peixe é congelado ninguém percebe e é necessário dizer e depois acaba a referir frisado [frozen]. Fiz um levantamento da língua e acho triste que o único livro sobre o emigrês seja o do Eduardo Mayone Dias, porque é uma língua franca estabelecida que ninguém estuda.

Eles falam mesmo assim?

Exato, tudo isto foi ouvido e grafado segundo ouvi e falei. O emigrês de Toronto é riquíssimo porque apanha o dos italianos e franceses, bem como dos açorianos e pessoas do Norte.

O narrador é o próprio autor?

Não sou eu mas poderia ser porque a vida que levei lá não é muito diferente. Celebrei 40 anos numa tourada de corda - ia-me matando - e tudo o que aparece no livro é real. Se o livro é escabroso, as histórias reais ainda são piores.

Este é um livro sexista, xenófobo...

... E racista... O livro não é isso, as personagens é que são. O autor não tem culpa de estes serem os personagens e descrevo-os da maneira mais realista que sei. Só há duas hipóteses: resolvemos o problema ignorando ou expondo-o. Vivi lá entre 2005 e 2007 e estas coisas andavam a remoer na minha cabeça. Daí o livro.

Nunca se está à espera disto!

Ninguém está à espera do que faço, os meus colegas cientistas que o digam.

A xenofobia dos nossos emigrantes contra as italianas e as brasileiras é mesmo como está retratada?

É um país onde muita tolerância convive com o pior do revanchismo, da portugalidade e do chauvinismo. Notam-se bem essas divisões nos campeonatos de futebol, se houver uma final Portugal-Itália quase que há mortes. Mas o Canadá, ao contrário dos Estados Unidos, não pede às pessoas para se esquecerem de onde vieram.

É o paraíso para os nossos emigrantes?

Trabalham muito, ganham bem e não há estigma social pelas profissões que têm. É uma espécie de socialismo dentro de uma economia capitalista.

Este livro acaba por ser o mais mal escrito da nossa literatura...

Só é mal escrito se colocarmos em relação ao português convencional. Está bem escrito, está é noutra língua. O Molière escreveu muito em sabir, que era uma língua franca do Mediterrâneo, o Pasolini escreveu em dialeto. Nós é que achamos que a boa língua é escrever o português do Camões.

Até lembra O Que Diz Molero...

Esse é um grande elogio e não mereço. Sou um grande admirador do Dinis Machado, mas a minha inspiração foi uma autora nigeriana que escreveu sobre a guerra do Biafra numa língua semelhante a esta. Molero é inimitável. A coisa mais parecida talvez seja Irvine Welsh e o seu escocês muito malcriado.

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