Isao Takahata filmou o seu próprio cortejo celeste

Morreu o realizador japonês Isao Takahata que fundou, com Hayao Miyazaki, o Studio Ghibli. Ficou conhecido pelas séries mundialmente conhecidas Heidi e Marco.

Tinha antecipado a despedida em 2013, com o seu último filme, O Conto da Princesa Kaguya. Era o encerrar, em plenitude, de uma obra de vida. Despediu-se agora definitivamente, na madrugada de quinta-feira, num hospital em Tóquio, onde estava internado devido a um cancro do pulmão. A confirmação da notícia foi feita num comunicado pelo estúdio Ghibli, do qual foi cofundador. Tinha 82 anos. Isao Takahata é, com Hayao Miyazaki, um nome maior do cinema de animação nipónico.

Nesse último e esplendoroso filme, o seu adeus à arte das imagens animadas fez-se, simbolicamente, com a inesquecível cena de um cortejo celeste que, pousado numa grande nuvem, segue em direção à Lua... Uma maravilha para os olhos e um aperto no coração. Tem qualquer coisa de cerimónia fílmica transcendente. Algo que raramente nos é dado a experienciar na animação, pela distância que existe entre o espectador e os desenhos. Todavia, aqui não há distância. Partilhamos a dor da despedida daquela princesa, que nasceu de um bambu, qual Polegarzinho, e que na sua passagem pela Terra trouxe amor e alegria ao velho casal que a acolheu. Esta obra-prima, que é uma das mais belas animações da década, baseada num dos textos fundadores da tradição literária japonesa (século X), chegou a estar nomeada para o Óscar, mas Takahata não teve direito ao mesmo reconhecimento do amigo e sócio Miyazaki. Teve-o, noutra escala, na 14.ª edição da Monstra - Festival de Cinema de Animação de Lisboa, em 2015, que atribuiu a esse O Conto da Princesa Kaguya o Grande Prémio.

Isao Takahata é sobretudo conhecido pelo belíssimo O Túmulo dos Pirilampos (1988), um melodrama sobre dois irmãos órfãos que lutam pela sobrevivência em plena Segunda Guerra Mundial. Um filme de extraordinária sensibilidade e carga emocional (sobretudo se tivermos em conta, mais uma vez, que estamos a falar de cinema de animação) e com aquela delicadeza humana, passada para o desenho, que fez da referida derradeira obra um verdadeiro tratado da expressão visual dos sentimentos.

Nascido a 29 de outubro de 1935, em Ise, no Japão, o início da sua carreira está ligado aos estúdios Toei, que integrou em 1959, depois de terminar a faculdade. Aí conheceu e travou amizade com Miyazaki, tendo em 1985 fundado com este o emblemático Studio Ghibli, amplamente considerado a "Disney japonesa". Prestígio que vem da qualidade das suas produções, que cativam e continuam a cativar gerações e gerações de crianças, jovens e adultos. Um filme Ghibli é invariavelmente sinónimo de bom gosto, em todas as suas componentes artísticas.

Ao longo do tempo, o nome de Miyazaki foi ganhando mais peso do que o de Takahata (há mesmo quem diga que a relação dos dois era alimentada também por uma certa rivalidade). Mas se é um facto que o primeiro tem uma obra mais prolífica do que o segundo, não é menos verdade que Isao Takahata, nas suas poucas longas--metragens, tenha evidenciado uma especial depuração da narrativa. Vejam-se os exemplos de Memórias de Ontem (1991), sobre uma jovem mulher que, numas férias no campo, recorda a sua infância em Tóquio, ou A Família Yamada (1999), que retrata as peripécias de uma família japonesa contemporânea. Ambos os filmes partilham a graciosidade de outro mestre do cinema japonês: Yasujiro Ozu. Tem que ver com o seu delicado olhar sobre a natureza humana, no seio da vida familiar, exposta em composições simples.

Por essa razão, não faz sentido colocar Myiazaki sozinho no pódio. Os dois trabalharam muitas vezes juntos, apesar das carreiras independentes, inclusivamente para televisão. No caso de Takahata, um dos grandes sucessos foi a série Heidi, de 1974, sobre as aventuras de uma menina órfã, levada para a casa do avô, nos Alpes, a que se juntou Marco. Fenómenos de popularidade que marcaram a geração de 1970.

Comparados com a última parte da filmografia de Takahata (do final da década de 1980 até 2013), estes trabalhos televisivos de início de percurso ainda não tinham a marca específica do realizador, isto é, a serenidade da aguarela. Mas tinham um tema que lhe foi muito caro: a relação das personagens com a natureza, que se vê na espontaneidade de Heidi e Marco. Foi regressando a ela - à natureza - enquanto lugar mágico, em O Túmulo dos Pirilampos, Memórias de Ontem, Pompoko e O Conto da Princesa Kaguya, que o japonês nos deu expressões singulares da animação oriental.

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