Índia,Pérsia e Grécia. Viagem para sempre cada vez mais próximo

A opinião do crítico de música clássica, Bernardo Mariano, sobre Os Dias da Música.

O dia começou num registo calmo: na Sala Fernando Pessoa, Paulo Sousa (sitar) e Francisco Cabral (tablas) executaram dois ragas e um dhun (peça de natureza mais ligeira e forma mais livre dentro da tradição clássica) da tradição hindustânica do norte da Índia. Instrumento de sonoridade emblemática dentre o instrumentário indiano, o sitar (cordofone com 18-21 cordas) apresenta três "níveis" sonoros: o som das cordas melódicas, ou seja, as que são de facto dedilhadas pelo intérprete; o som dos bordões, aos quais o intérprete recorre como chão harmónico; e o som das cordas simpáticas (produzindo harmónicos superiores). Ao bordão e ressonância por simpatia acresce outro componente característico: o deslize microtonal, semelhante a um glissando ou à "Bebung". E eis os ingredientes constitutivos do som do sitar.

O primeiro raga serviu para exemplificar a organização formal clássica deste conceito musical formal-rítmico-melódico basilar da música indiana e a forma como isso é transposto ou extrapolado pelo intérprete em termos da sua apresentação (material propriamente dito) e invenção sonora (parcela improvisatória). No meio, ouviu-se um dhun, sem dúvida melodicamente mais apelativo e com interessantes interações dos dois intérpretes. No raga final, foi alcançada uma síntese de rigor e comunicação.

Numa sala daquela dimensão, não havia necessidade de amplificação, a qual acaba sempre por distorcer o peso relativo das vozes na textura criada pelo intérprete.
Nas tablas, Francisco Cabral foi um atento, sensível, competente e, por vezes, provocador acompanhador. Interessante observar a sua técnica de execução, com a mão direita tocando sempre (ponta dos dedos) na extremidade da pele e a esquerda mais variada (dedos, palma, arrasto do pulso).

A seguir, rumámos à Sala Almada Negreiros, para um trio de senhoras iranianas, tocando piano, violoncelo e kamanche (o violino do instrumentário tradicional persa) protagonizando "Uma tarde num jardim persa": intercalação de poesia e música, viajando entre artes, entre séculos e entre regiões da Pérsia histórica.

Os poemas iam do epicurismo humanista de Omar Khayyam (séc. XI-XII, espécie de Leonardo persa) e do lirismo amoroso de Hafez (contemporâneo de Petrarca e a ele comparável) ao século XX, aqui, muito acertadamente, abordando duas poetisas. Pena os textos não serem projetados numa tela, nem ter sido feita tradução portuguesa dos mesmos. As peças musicais eram arranjos de melodias tradicionais persas, mas ouvi-las num piano e violoncelo, e usando a afinação temperada igual ocidental, afasta-as certamente muito das suas raízes! O que fez do jardim persa um cenário algo artificial...

Da Pérsia para a Grécia: interessantíssimo programa do Ensemble Méditerrain, com obras dos gregos Carrer, Skalkottas e Theodorakis, e canções sobre poemas gregos de Shostakovitch e Ravel, aqui revelando-nos a excelente voz do mezzo polaco Karolina Gumos, que integra o ensemble da Komische Oper de Berlim.

No sexteto de Theodorakis, a flauta foi prejudicada pela acústica da sala. A obra revelou-se deveras interessante, dentro dum típico idioma neoclássico. As outras obras foram de recorte mais pitoresco e, como tal, cheias de sumo... do (também) "país dos limoeiros em flor".
Nota para a organização: os concertos começam atrasados (até 10 minutos); no concerto de música persa, entrámos após o começo porque os "stewards" não nos deixaram entrar (algo inédito nos nossos anais...); no concerto grego deveria ter havido uma folha com os textos cantados.

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