Hugh Hefner, mais do que uma revista criou um estilo de vida

Hugh Hefner desafiou as convenções da América dos anos 50 e criou um império em que o homem e a marca se confundem no coelho de orelhas arrebitadas e lacinho

Hugh Marston Hefner morreu na quarta-feira, de causas naturais na sua casa, a Mansão Playboy, perto de Beverly Hills, na Califórnia. Tinha 91 anos. Viveu o seu sonho porque, como gostava de dizer, "a vida é demasiado curta para viver os sonhos dos outros". Nascido a 9 de abril de 1926, em Chicago, criou um mundo de fantasia para milhões de homens mas, ao contrário dos seus leitores viveu o sonho que imaginou. E mais até, como reconheceu em 2008, numa entrevista ao The New York Times: "Os meus sonhos realizaram-se para além do que eu poderia imaginar".

"O meu pai viveu uma vida excecional e impactante como pioneiro a nível dos media e a nível cultural, sendo uma voz de liderança por trás de alguns dos movimentos sociais e culturais do nosso tempo, na defesa da liberdade de expressão, dos direitos civis e da liberdade sexual", realçou o filho, Cooper Hefner, diretor criativo da Playboy Enterprises desde 2016, através de comunicado.

Filho de dois professores e criado num ambiente de grande conservadorismo, a energia criativa de Hugh Hefner revelou-se cedo através da autoria de bandas desenhadas e de peças de teatro que depois levava a cena com os seus amigos da escola. Num vídeo disponibilizado pela Playboy Enterprises, o homem que se transformou numa figura icónica na América do pós Segunda Guerra Mundial lembra que foi uma primeira desilusão amorosa que marcou o início da metamorfose que mudaria a sua vida. Depois de servir no exército, casou com a sua namorada de longa data, "a mulher com que perdi a virgindade aos 22 anos", conta. Mas também a mulher que o fez passar "pela mais devastadora experiência da sua vida" ao revelar-lhe que tinha tido um caso amoroso com outro homem.

Casou-se assim mesmo - "já sem magia", refere -, trabalhou em várias revistas entre as quais a Esquire e em novembro de 1952 foi pai de uma menina, Christie. "Lembro-me de um dia em que estava na ponte sobre o rio Michigan com as lágrimas nos olhos a pensar - "a vida é só isto?" Uma semana depois decidi que iria fundar a minha revista para homens", conta na entrevista de 2008 . Nos Estados Unidos começavam então a sentir-se os primeiros efeitos do boom pós-Guerra, e os estudos de Alfred Kinsey sobre o comportamento sexual humano punha em causa as crenças convencionais sobre a sexualidade, levantando questões que até então eram tabu.

"Não tinha dinheiro para lançar o projeto. Pedi aos amigos, à família. O meu pai, conservador, disse que isso não era negócio. Foi quando já estava a sair de casa que a minha mãe me chamou de lado e, como tinha algum dinheiro dela por ter trabalhado durante a Guerra, deu-lhe um cheque de 4 mil dólares. Conseguiu juntar 8 mil dólares no total. Nesse verão, renasci."

O primeiro número, lançado em dezembro de 1953, incluía uma série de fotografias de Marilyn Monroe nua que Hefner comprara por 200 dólares e que, originalmente, tinham sido feitas para um calendário de 1949. O receio de Hefner era tal que não colocou data na capa da revista. As 51 mil cópias esgotaram e no segundo número surgiu pela primeira vez o coelhinho de orelhas arrebitadas e lacinho criado pelo diretor de arte da revista, Art Paul.

"Nunca vi a Playboy como uma revista de sexo. Sempre a vi como uma revista de lifestyle em que o sexo era um importante ingrediente. O sexo faz naturalmente parte da vida e as raparigas simpáticas também gostam de sexo. Nos anos 1950, esta era uma ideia revolucionária". Tão revolucionária que os correios se recusaram fazer a entrega da revista aos assinantes. Hefner levou a questão até ao Supremo Tribunal e venceu, tornando-se este um caso emblemático na defesa da liberdade de expressão.

Cinco anos depois, o lucro da revista atingia os quatro milhões de dólares e a críticas de conservadores e feministas subiram ao mesmo ritmo. Nada que o incomodasse. E se nesses primeiros tempos Hefner mantinha uma vida pública muito recatada, comandado a revista quase só a partir de casa, em 1959, após o seu divórcio, tudo mudou.

Foi nesse ano que começou a ser emitido o programa de televisão Playboy"s House com Hefner, de cachimbo na mão, numa postura entre um James Bond, um homem de negócios bem-sucedido e um galã de cinema a convidar os espectadores a ouvirem música, participarem numa conversa, acompanhados de belas companhias femininas. E aqui, mais uma vez, desafiou as convenções sociais ao incluir artistas negros entre os convidados. Algo que prolongou nas páginas da sua revista que não vivia apenas de fotografias de mulheres nuas. Escritores como Ian Fleming, Jack Kerouac Gabriel Garcia Marquez são apenas três dos escritores que escreveram para a Playboy que, a partir de 1962, com Miles Davies iniciou a publicação de entrevistas, destacando-se ainda Jimmy Carter, Fidel Castro, Malcom X, Martin Luther King ou George Lincoln Rockwell, o fundador do partido nazi norte-americano. À revista, que nos anos 70 chegou a vender sete milhões de exemplares, Hefner juntou um império com clubes noturnos onde os clientes eram servidos pelas "coelhinhas", hotéis, casinos, uma agência de modelos, uma editora discográfica e um festival de jazz.

A década de 80 foi menos fulgurante, com Hefner a ter de se refrear tanto a nível profissional como pessoal. O homem, que se gaba de ter dormido com mais de mil mulheres, sofreu um ataque cardíaco em 1985 e voltou a casar, em 1989, com Kimberley Conrad, a Playmate desse ano. Em 2005, com o reality show The Girls Next Door voltou em alta, sempre rodeado de exuberantes louras. O casamento é que não resistiu e em 2010 Hefner divorciou-se. Mas "o maior predador do mundo", como se apelidava, esteve apenas dois anos sem usar aliança, casando com uma das louras do reality show, Crystal Harris, sessenta anos mais nova do que ele. O segredo para tanta vivacidade, nunca escondeu, estava na Pepsi-Cola que bebia aos barris, nas anfetaminas e no viagra que tomava. Sobre este último afirmou: "É o mais próximo que se pode imaginar da fonte da juventude".

Ainda não são conhecidos os pormenores sobre o funeral, mas a morada é certa e foi assegurada por Hefner ainda em vida: Westwood Memorial Park, em Los Angeles, ao lado de Marilyn Monroe.

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