Há 50 anos Salazar quebrou um mito e nasceu o Panteão Nacional

A espada dita de D. Afonso Henriques e as chuteiras de Eusébio podem ser vistas em "Reis e Heróis - Os Panteões em Portugal", que inaugura hoje e celebra os cem anos da escolha da igreja, 50 de Panteão e 180 do decreto

Visitar a exposição Reis e Heróis - Os Panteões em Portugal no Panteão Nacional implica tanto percorrer uma grande parte daquele edifício como atravessar equivalente parte da História de Portugal. Comecemos pelo edifício, que há 50 anos guarda uma constelação de heróis do país. Se o faz ali é devido a uma decisão tomada há cem anos no Parlamento, ditando que seria naquela igreja, a de Santa Engrácia, que tomaria forma aquilo a que Passos Manuel, então ministro do Reino, decretou há 180 anos como necessário: um panteão.

As três efemérides comemoram-se na exposição que se inaugura hoje. Percorremo-la guiados pela diretora do Panteão Nacional, Isabel Melo, e pela comissária da mostra - a par de Clara Moura Soares -, Maria João Neto. "Não havia mitos invencíveis para Salazar, e este era um mito", lança a primeira, referindo-se à obra da igreja de Santa Engrácia, que esperava desde 1682 a sua conclusão e que desde aí, sem cúpula, fora "depósito de fardamento e armamento e fábrica de calçado durante a I Guerra Mundial".

"Salazar visita o monumento em 1964 e terá perguntado ao então responsável pelas obras: "O que é que é preciso para terminar Santa Engrácia?" "É preciso dinheiro e alguém que mande." Ele disse: "O senhor vai mandar e eu vou-lhe dar o dinheiro."" Assim foi. Em 1966, no 40.º aniversário do regime - fragilizado pela guerra colonial e pela candidatura de Humberto Delgado à presidência -, o Panteão Nacional era inaugurado (tal como a Ponte 25 de Abril, então Ponte Salazar), e terminava o mito das obras de Santa Engrácia, que se transformaram num adágio para tudo o que é moroso na sua finalização.

Salazar mostrava, nota Maria João Neto, que "o Estado Novo conseguia terminar em dois anos o que em mais de dois séculos e meio ninguém havia conseguido." Essa relação com o regime, nota, "trouxe uma conotação um pouco negativa a este espaço. Ainda hoje é um monumento pouco visitado [por portugueses]." Para a diretora há ainda outra razão para a fraca afluência de visitantes nacionais: "O sentido da morte é uma coisa com que lidamos com muita dificuldade. Mas este não é um lugar de morte, aqui celebra-se a vida." Ali, onde agora, com a exposição, é possível percorrer a história dos restantes panteões do país: nos mosteiros de Santa Cruz de Coimbra, de Alcobaça, da Batalha, e, em Lisboa, dos Jerónimos e de São Vicente de Fora.

"Cada dinastia", afirma a comissária, "procurou o seu espaço próprio" para ali ser sepultada. Vemos a espada dita de D. Afonso Henriques - habitualmente em depósito no Museu Militar do Porto -, ou uma réplica de medalhões que faziam parte do túmulo original de D. Sancho I, dois reis sepultados no mosteiro de Santa Cruz. Mais à frente: uma réplica da estátua de D. Manuel I que figura no portal dos Jerónimos.

No núcleo seguinte estão os heróis. "O panteão de heróis é algo muito próprio da Revolução Francesa, nasceu nessa altura para eles serem homenageados, quase até adorados, num espaço público. Mas não como santos, quase como uma alternativa num Estado laico", explica Maria João.

Ali estão, um por um e com objetos que lhes dizem respeito, aqueles que agora moram no Panteão Nacional. Está a guitarra que Amália usou n"A Severa - o seu túmulo nunca está sem flores -, ou as chuteiras que Eusébio usou no jogo do campeonato do mundo de que sairia a chorar. Curiosamente, foi também em 1966. Portugal perdia em Wembley contra a Inglaterra e ficava em terceiro lugar. Também ali está a borla e o capelo do Presidente Sidónio Pais, que poucos conhecerão como catedrático de Matemática, um candeeiro de Aquilino Ribeiro, ou objetos que reconhecem Humberto Delgado como general da força aérea e candidato presidencial.

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