Graça Morais em Paris: "Aqui estou eu, quase com 70 anos"

Uma centena de desenhos mostra a parte menos conhecida da obra da pintora transmontana que viveu na capital francesa há 40 anos. Colóquio internacional a 6 e 7 de junho

"Eu por vezes sinto que estou a afogar-me", diz ela com sinceridade. Está diante de um dos desenhos da série As Sombras do Medo (2012) e explica que retratou uma mulher que se abandona à água, olhar perdido, ao fundo silhuetas fugindo da guerra. "É quase um autorretrato. Às vezes a vida é muito difícil."

É uma manhã fresca em Paris, a contrastar com o opressivo dia anterior, quando ao pesado calor se juntou a confusão no tráfego por causa da visita de Vladimir Putin à nova igreja ortodoxa, bem perto. A exposição de Graça Morais, na delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian, foi inaugurada ontem ao fim da tarde mas começou por ser mostrada aos (muitos) jornalistas, franceses e lusófonos. As explicações foram dadas pela própria Graça Morais e pelas duas curadoras - Helena de Freitas e Ana Marques Gastão. Helena, a mesma que preparou para esta cidade a grande exposição de Amadeo de Souza-Cardoso que surpreendeu o Grand Palais no ano passado, dedicou-se à conceção da mostra, procurando estabelecer um fio condutor no trabalho mais íntimo e menos conhecido da pintora transmontana. Ana, poeta, ensaísta e coordenadora da revista Colóquio-Letras, estudou a relação entre a pintora e a literatura e organizou o colóquio internacional que juntará aqui 20 especialistas a 6 e 7 de junho.

A exposição cruza trabalhos de diferentes tempos, desde 1982 a 2016. Logo na primeira sala, a série Orfeu e Eurídice, de 1990, um ano particularmente importante para a pintora: "Foi o ano em que começou a minha relação com o Pedro Caldeira Cabral, o ano em que Sophia e eu nos aproximámos, o ano em que encontrei o ateliê da Costa do Castelo." Os desenhos foram publicados em livro com poemas de Sophia, alguns anteriores, outros escritos na altura. Foram desenhados - figuras e até poemas - em papéis de pauta musical.

Outro livro aqui citado está logo na sala seguinte - as Metamorfoses, feito em coautoria com Agustina Bessa-Luís, de que foi agora publicada uma edição em francês. Vemos variações de corpos femininos em esqueletos e asas de gafanhotos - porque fortuitamente um inseto entrou no ateliê e Graça viu ali a estrutura, a força e a leveza das mulheres. A mesma transparência encontrou-a a curadora no quadro - o único sobre tela - Maria, de 1982. Tal como as outras marias, que surgem em pequeno formato mais à frente, são sempre rostos de pessoas que Graça conheceu em Vieiro, a aldeia onde nasceu e cresceu. Sabe-lhes os nomes e as histórias de vida. Conhece até o cão sentinela - o Fadista - que vai aparecer na Caminhada do Medo, em 2011, um olhar doce que redime o sofrimento das outras figuras retratadas, estas retiradas de fotografias de jornais. E aqui já estamos a falar das séries dos medos, iniciadas em 2011 - A Caminhada do Medo, As Sombras do Medo, Os Rostos do Medo, numa fase em que a pintora se abriu ao mundo exterior - a partir da Primavera Árabe e das sucessivas crises de refugiados. E em contraste, uma série de desenhos de cães, feitos, como os outros formatos pequenos, em estado de graça, quando sente "necessidade de grande concentração, intimidade e urgência".

Na última sala, entre marias e máscaras de morte, destaca-se uma cabeça transparente, vazia, o Rosto Mudo, de 2016. "É a grande interrogação sobre o nosso tempo, sobre a massa humana que anda pelo mundo à procura de qualquer coisa, de um paraíso, mas com um olhar vazio."

No andar térreo, há duas salas multimédia, onde correm dois filmes - Graça Morais e os Escritores, de Luís Alves de Matos, e Na Cabeça de uma mulher está a história de uma aldeia, de Joana Morais, filha da pintora. Em expositores, é possível ver os livros de Graça, e entre eles os feitos com escritores como Sophia, Agustina, Saramago. E também um inédito álbum de desenhos eróticos de 1985.

Depois da série de exposições que lhe tem consumido tempo e energias nos últimos meses, Graça regressa à cidade onde foi bolseira da Gulbenkian de 1976 a 1979. É visitante habitual: "Visito Paris muitas vezes, passo horas e horas, até ao cansaço, nos museus, nas galerias. Esta é uma exposição de dádiva do que tenho de melhor a esta cidade, do que como artista consegui fazer e ao mesmo tempo dizer: aqui estou eu, quase com 70 anos."

E o que vai fazer a seguir? Ela não sabe ainda. Primeiro, vai parar: "Preciso de voltar ao meu canto, ao meu ateliê naquele sítio ainda isolado em Trás-os-Montes. São retiros verdadeiros em que só estou em contacto com os meus livros, as pessoas mais próximas. Preciso de passear entre as oliveiras, de sentir pessoas muito verdadeiras. E aí depois começa a aparecer a pintura outra vez."

A jornalista viajou a convite da Delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian


La violence et la grâce

A partir de hoje até 27 de agosto

Delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian

Entrada livre

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