"Gosto da sensação de cantar coisas que eu própria escrevi"

Regressa hoje à Aula Magna, 30 anos depois de ali se ter estreado como voz dos Madredeus. Agora a solo, Teresa Salgueiro apresenta-se como guardiã da memória, com um repertório que junta autores essenciais da música portuguesa.

O que significa o título deste espetáculo, O Horizonte e a Memória?

Este espetáculo foi estreado em setembro na Casa da Música, tem percorrido Portugal, já esteve no Brasil e chega agora, para minha grande alegria, à Aula Magna, que foi a primeira sala onde atuei em Lisboa, há mais de 30 anos, com os Madredeus. Tem como base o repertório do meu álbum mais recente, chamado O Horizonte, mas também tem uma componente de memória, de músicas e autores que eu considero essenciais. Já na altura em que fiz o disco tinha pensado em incluir nele essa questão do horizonte 360, como lhe chamo.

O que é que isso significa?

É um horizonte no sentido de futuro, que nos mostra o caminho, mas também o das nossas memórias, que nos estrutura e nos transporta em direção aos sonhos. Por uma série de razões, isso acabou por não se concretizar no disco, mas de facto havia uma série de arranjos de vários temas, que acabaram por ficar de fora e me levaram à conceção deste espetáculo.

Que memória é essa?

No meu caso estou a falar de música, obviamente, de temas de vários autores e intérpretes, como o Carlos Paredes, a Amália Rodrigues ou o Zeca Afonso, que são para mim as figuras mais importantes para a formação da minha visão de uma portugalidade na música. Eles são parte da razão pela qual eu gosto tanto de ser portuguesa e de cantar em português. Foram e serão sempre uma grande inspiração, porque também estiveram no início do meu despertar para essa visão, que depois tive a sorte de viver intensamente durante 20 anos com os Madredeus e nunca mais me abandonou. Todos eles são figuras marcantes não só pela imensa obra que deixaram, mas porque cada um deles, à sua maneira, foi muito revolucionário na sua música. Para além deles, há ainda outras figuras, algumas delas até mais recentes e próximas da minha geração, que ao longo do concerto ajudam a construir essa memória musical.

E de que forma a música da Teresa Salgueiro se encaixa nisso tudo?

Pois, a minha música anda lá pelo meio [risos] e está representada acima de tudo por temas de O Horizonte, o meu segundo álbum de originais, e apenas um de O Mistério, que foi o meu primeiro disco a solo.

Por alguma razão em especial?

Apenas por uma questão de tempo e de espaço, porque a dada altura fiquei com o problema nas mãos, de construir um alinhamento onde coubesse tudo aquilo que tinha vontade de cantar. Claro que ficou muita coisa de fora, especialmente repertório do Mistério, também porque há uma parte do espetáculo na qual interpreto temas dos Madredeus.

Quem é que vai acompanhar em palco?

Será o Rui Lobato na bateria, percussão e guitarra e Óscar Torres no contrabaixo, que são os músicos que me têm acompanhado nos últimos dez anos. Vai estar também o Nélson Almeida no acordeão e a grande novidade será a presença do José Peixoto na guitarra, com quem convivi muitos anos nos Madredeus. É algo de extraordinário que aconteceu, porque já não nos cruzávamos em palco há mais de dez anos. Sempre segui com muita admiração o percurso dele e, há cerca de um mês, fomos beber um café e eu, muito timidamente, convidei-o e ele aceitou.

Como é que foi esse passo de avançar para uma carreira a solo, depois de tantos anos nos Madredeus, especialmente a parte de compor?

Quando saí dos Madredeus prometi a mim mesma que nunca iria abandonar a música e procurar um novo caminho. Nessa mesma altura, fui desafiada pelo Rui Lobato para ingressar num grupo de criação de repertório. Até então eu tinha sido apenas intérprete, nunca tinha feito música na vida, mas de repente percebi que até tinha ideias para criar música e melodias. Esse projeto acabou por não resultar, mas a experiência mostrou-me que talvez fosse possível. E foi isso que aconteceu com O Mistério, que foi composto em conjunto com os músicos, num processo completamente novo para mim, de criação de música e de letras.

E agora do que é que gosta mais, de estar na sala de ensaios a criar música ou em palco a interpretá-la?

Gosto de tudo. Gosto imenso do processo de composição, que foi uma surpresa e descoberta absoluta, porque nunca antes o tinha feito nos Madredeus, onde, apercebo-me hoje, aprendi muito a esse nível, com o Pedro Ayres Magalhães, que é uma pessoa extraordinária ao nível da criação e da escrita. E depois gosto muito da sensação de cantar coisas que eu própria escrevi. Tem um sentido muito mais profundo para mim.

Como é que lida com o facto de continuar a ser conhecida como a voz dos Madredeus? É um peso ou um orgulho?

Penso que vai ser sempre assim, o que é natural, porque foram 20 anos da minha vida. É claro que é um orgulho. Muitas vezes, nos cartazes, aparece o meu nome, seguido, entre parênteses, de ex-Madredeus, costumo até dizer que ganhei um apelido novo quando saí do grupo [risos]. Só voltei a pegar no repertório dos Madredeus durante a digressão de O Mistério, porque tive a necessidade de me ancorar em mim mesma, mas depois o regresso a essas músicas acabou por ser muito natural. Não só porque as pessoas as querem ouvir, mas porque também fazem parte de mim. E hoje lido com isso com muita alegria. A aventura dos Madredeus foi algo de extraordinário, de uma beleza, de uma poesia e de uma entrega únicas.

E agora, depois do Horizonte, poderá haver um disco dedicado à Memória?

É possível, sim. Não sei em que moldes, mas gostava muito que acontecesse, porque é algo que está por fazer. Penso que faria todo o sentido. Não sei se para já, mas é algo que sem dúvida continua no horizonte [risos].

Informação útil:

Aula Magna, Lisboa.

18 de novembro, às 21.30.

Bilhetes de 19 euro a 29 euro

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