Filho de um governador nazi vai devolver arte roubada pela família à Polónia

Filho do governador de Cracóvia durante a Segunda Guerra tem tentado devolver obras de arte roubadas pelos pais aos legítimos donos. Muitos anos depois, conseguiu

Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de meio milhão de quadros e outros objetos artísticos foram tirados ao Estado polaco, no período em que a Polónia foi ocupada pelas forças nazis ou soviéticas. Nos dias que correm, o Ministério da Cultura polaco mantém-se vigilante e não descura o circuito da arte internacional, onde tantas obras que pertenciam à Polónia surgem à venda, muitas vezes levadas a leilão pelos donos que são, na verdade, descendentes das famílias que as roubaram durante o conflito.

Segundo o jornal britânico The Guardian, e porque o Estado polaco não pode obrigar os detentores da arte a devolvê-la pela força, as autoridades acabam muitas vezes por arrematar as pinturas, gravuras ou mobiliário que foi levado dos museus, saqueados sem dó, comprando-as uma segunda vez.

Mas Horst Wachter decidiu que, com a família dele, seria diferente: este domingo, o governo polaco assinala com uma cerimónia a entrega de três obras de arte à Polónia que tinham sido roubadas pelos Wachter no final da década de 1930 do século passado. Foi Horst Wachter, o quarto dos seis filhos de Otto Waechter, das SS, quem decidiu fazê-lo. E não fácil: passou parte da vida a tentar.

Em 1939, Lora Wachter, a mãe de Horst, entrou alegremente no Museu Nacional de Cracóvia. Ia numa missão: escolher a decoração dos novos gabinetes onde trabalharia o marido, general recentemente apontado pelos nazis como governador de Cracóvia. Os Wachter tinham-se instalado no belíssimo Palácio Potocki e, de acordo com uma informação do governo polaco datada de 1946, e citada pelo The Guardian, Lora levou "os mais sofisticados quadros e os mais belos objetos de mobiliário antigo", apesar dos avisos do diretor do museu, que lhe pedira para não tirar obras de arte com o objetivo de servirem de decoração.

Horst Wachter tem agora 78 anos e vai finalmente conseguir devolver a quem de direito uma pintura do Palácio Potocki, um mapa do século XVIII da Polónia e uma gravura de Cracóvia feita no período do Renascimento.

Há alguns anos, procurou entregar aos descendentes da família Potocki, então a dona da propriedade ocupada pelos nazis na Segunda Guerra, o quadro do palácio, mas teve pouca sorte. Por email, a partir da Áustria - onde vive atualmente - contou ao The Guardian que a família não quis contactos com "o filho de um nazi".

A delicada tarefa de fazer regressar a casa as obras de arte ficou nas mãos de Magdalena Ogórek, polícia e historiadora polaca que conduziu uma série de entrevistas a Horst Wachter para um livro que está a escrever sobre o seu pai, o antigo governador nazi. "Tenho de admitir que não precisei de convencer o Horst a devolver nada, ele queria fazer a devolução", explicou. A parte que se revelou mais complicada foi a de convencer os responsáveis do governo polaco a negociar com o filho de um conhecido criminoso nazi, que morreu em Roma 1949 em circunstâncias desconhecidas, quando tentava fugir para a Argentina - Horst acredita que o pai foi envenenado.

No documentário My Nazi Legacy - O Meu Legado Nazi, em tradução literal - Horst Wachter admitiu que a mãe, responsável pelo roubo de tão grande quantidade de obras de arte, tinha "orgulho" em ser nazi e estava convencida de que o marido não tinha feito nada de errado. E ele próprio tem defendido o pai, garantindo que não passou de um peão na máquina de Hitler.

Ao entregar as obras, porém, acredita que conseguirá encorajar outras famílias que mantiveram os tesouros roubados nos países ocupados a fazer o mesmo, ainda que o mais certo seja continuarem a surgir quadros e antiguidades valiosas em leilão, levados pelos descendentes das poderosas elites nazis.

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