Fernando Dacosta: "Há quem tente servir-se de Amália"

De um jeito simples, cheio de episódios novos, reveladores da sua personalidade e contextualizados historicamente, Fernando Dacosta disseca a fadista Amália em 300 páginas. Fá-lo após a Voz ter sido definitivamente enterrada e de quem puxava lustro à sua memória por interesses vários a ter esquecido.

Não será por acaso que dá como subtítulo A Ressurreição, afinal após o seu fim o fado voltou a ser moda, até património mundial, e a fadista redescoberta, tanto na biografia como na discografia. Em entrevista, o autor não recusa polémicas, como a das ligações ao Estado Novo, as relações com figuras proeminentes, o experimentalismo nas letras com Oulman, Camões e Mourão-Ferreira, ou o aproveitamento de muitos dos novos fadistas que se serviram da fadista nas suas carreiras, recordando que Amália não gostava que cantassem o seu reportório.

Amália é tema eterno ou esgotar-se-á?

Na medida em que ela era um ser profundamente inquieto, haverá sempre zonas suas por descobrir, o que a tornará um tema inesgotável. "Se eu não me conheço, como hão de os outros conhecer-me?", observava. A sua complexidade tornou-a inalcançável, atirando-a para uma solidão intelectual terrível. Numa primeira fase não sabia que sabia; numa segunda fase sabia que sabia; numa terceira fase sabia que os outros não sabiam que ela sabia.

Esta "biografia" resulta de uma investigação ou também da memória?

Hoje privilegio a memória porque a investigação (factos, datas, provas, contraditórios) deixam-nos no exterior dos outros e dos acontecimentos. Para entrarmos no íntimo de pessoas e de acontecimentos temos de usar outras ferramentas. Por isso, deixei o jornalismo e não escrevo biografias, ensaios ou história, ambiciono ser apenas subjetivo e memorialista. Quanto às aspas na palavra biografia, concordo, pois trata-se de uma crónica, de uma narrativa memorialista e nunca de uma biografia, de um ensaio ou de uma tese.

Destaca o seu talento não só para cantar como para escrever fados. Porque não foram todos descobertos em vida?

Os mais atentos aperceberam-se do extraordinário talento poético de Amália em vida. Mourão-Ferreira disse-me que se não ficasse na história como genial cantora, ficaria como das grandes poetisas do século XX. Natália Correia idem. Marguerite Yourcenar, tocada pelo poema de Amália "Lavava no rio, lavava" (que termina com os versos "Já não temos fome/ Mãe/ Mas já não temos/ Também/ O desejo de a não ter"), escreveu o notável ensaio A Atroz Ausência do Desejo, onde prevê que os maiores problemas da humanidade surgirão quando o homem, satisfeito nas necessidades básicas, perderia o desejo pela vida. Amália antecipou isso.

Os novos fadistas admiram mesmo Amália ou reconhecem-na para benefício próprio?

De uma maneira geral admiram. Há, naturalmente, quem tente servir-se de Amália. Ela não gostava, aliás, que cantassem o seu reportório, e pensava que cada intérprete deve criar um estilo próprio, procurar poemas e músicas para si. Como ela fez, ela que conhecia e admirava, e estudava profundamente a poesia portuguesa, compreendendo-a como poucos, devido à sua enorme inteligência.

Até quando haverá novidades sobre ela para contar?

Não sei. Tudo vai da memória dos que com ela conviveram; se perceberam a sua inquietação, haverá, por certo, muito a revelar; se não perceberam, se se ficaram pelo quotidiano, o exótico, o epidérmico e o anedotário, acho que não.

De todas as histórias, qual delas o fascinou e surpreendeu mais?

Para mim, o episódio mais singular é o que refere o caso de uma senhora idosa que, numa viagem para a Suíça, se dirigiu a Amália, no avião, pedindo-lhe para a acompanhar num brinde, o seu último brinde à vida. Com uma doença terminal, ia internar-se numa clínica daquele país para lhe anteciparem a morte e um fim com dignidade. Assim aconteceu. Amália, Maluda (que a acompanha) e a desconhecida beberam champanhe com lágrimas entre sorrisos. À chegada, viram-na apanhar um táxi, acenar-lhes e desaparecer.

O que falta descobrir em Amália?

As esfinges são impenetráveis.

Quando é que ela foi mais sincera nas suas opções políticas: antes ou depois do 25 de Abril?

Profunda conhecedora da natureza humana, Amália não tinha ilusões - nem desilusões - com ela, natureza humana. Ideologias, partidos, políticos, intelectuais, analfabetos, governantes, opositores, guerrilheiros, juízes, ladrões, a todos conhecia, de todos deslizava. Daí ter sido alvo de alguns, ter sido acusada de tudo e do seu contrário, e de a PIDE, a KGB, a CIA e a Mossad a vigiarem com igual desconfiança. O ser idolatrada ao mesmo tempo por judeus e árabes, capitalistas e comunistas, totalitários e democratas, intelectuais e analfabetos era, de facto, perturbador. Uma opção assumiu: gostar de Salazar. "Ela gostava de Salazar mas não era salazarista, como eu gosto de Cunhal mas não sou cunhalista", dizia, compreendendo-a, Natália Correia. Amália não foi um produto do Estado Novo, foi um produto de Portugal. Por isso a inseri no meio que a gerou, sublinhando acontecimentos e personalidades que a acrescentaram, que ela acrescentou.

Mudou de opinião sobre a fadista ao escrever este livro?

Pelo contrário, confirmei o que sabia, tão pouco, afinal, dada a sua complexidade. Não consegui dizer tudo o que sentia apesar de a contactar pessoalmente desde a década de 1960. Como a maior parte dos portugueses não percebeu a importância mundial de Amália, tentei dar essa dimensão dela. Camões, Pessoa e Amália fazem parte do "triângulo de luz da identidade portuguesa", percebeu Natália Correia. Camões deu-nos a língua, Pessoa o pensamento, ela a voz. Foram seres tocados pelo absoluto.

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