Férias com jazz

A Lisbon Jazz Summer School abre de novo as portas, na sua sexta edição, este verão, para acolher músicos e estudantes de música, numa semana de aulas no Centro Cultural de Belém. O DN foi ver o que leva estes miúdos entre os 12 e os 16 anos a mergulharem na música.

Vasco Alves, 14 anos, é natural dos Açores, e aluno no Conservatório de Ponta Delgada. Um acaso feliz ditou que conhecesse o jazz através de uma amiga da sua professora e desde aí, tem sido sempre a experimentar. Também gosta de basquete, surf e construções em madeira. Quer ser médico, mas se não der, o piano pode ser um caminho a seguir. Já José Pedro Menezes, também de 14 anos, natural de Minde, recebeu a sua bateria aos dez anos, seguindo os passos dos irmãos mais velhos, todos com carreira na música. Mike Portnoy, ex-baterista dos Dream Theather, é o baterista que mais aprecia. Entre bateria de jazz ou percussão clássica, ainda tem três anos para decidir. É a sua segunda vez na Lisbon Jazz Summer School.

Os dois têm em comum o gosto pela música, claro, e o facto de terem trocado uma semana de férias por uma semana de aulas, concertos, jam sessions e dois cursos a decorrer em simultâneo lecionados por grandes nomes do jazz nacional e internacional. A Lisbon Jazz Summer School é orientada por um grupo de excelência com uma vasta experiência de formação. Há aulas práticas de improvisação, instrumento, combo, Big Band, secção rítmica, soundpainting, entre outras atividades musicais, com a oportunidade de participar nas jam sessions abertas ao público. A semana encerra com um concerto no Pequeno Auditório pelos alunos do Férias com Jazz, este domingo.

Alexandra Ávila e João Godinho são os mentores e motores do projeto da Associação Orelha Viva que, em parceria com o Centro Cultural de Belém, tornam possível que oito dias se transformem não só em memórias inesquecíveis mas também em possíveis portas abertas para os que por aqui descobrem ou (re) descobrem o jazz.

As candidaturas são abertas a todos os que tiverem entre 12 a 16 anos e que prefiram a companhia do seu instrumento em troca dos pés na areia. E são muitos os que optam pela música. Desde 2008, o sucesso é garantido e o número de interessados sempre a crescer. "Recebi perto de 90 candidaturas e ainda há gente a perguntar se pode entrar agora. O problema são as vagas para todos os instrumentos. Este ano, recebemos o dobro dos pianistas, por exemplo", explica Alexandra.

Numa iniciativa aberta a todos os que queiram viver a experiência, há a possibilidade de se concorrer a bolsas, financiadas pela Orelha Viva. "Todos podem concorrer, nós selecionamos as candidaturas, não é preciso ter nenhum perfil especial, mas é importante um certo domínio técnico do instrumento e ler razoavelmente uma partitura. É o ponto de partida para se sentirem à vontade para trabalhar uma nova linguagem musical", explica Alexandra Ávila.

Vêm de todo o lado de Portugal e até há um aluno de Inglaterra. Trompetes, bateria, guitarras, pianos, contrabaixos, baixo elétrico, violoncelo, clarinetes, saxofones, voz e oboé, num total de 45 participantes, este ano, entre os quais a Maria Fonseca, 12 anos, de Algueirão e já trompetista da Orquestra Geração.

A organização sente que todos chegam focados e determinados para aprender, acabando por passar palavra de uns para outros, muitos já ouvem jazz sozinhos, outros descobrem-no aqui. "Temos casos de alunos que começaram como adolescentes no Férias com Jazz, em 2008, e hoje são músicos profissionais", assegura a diretora. É o caso de João Pereira, 21 anos, começou com 13. Revela que a Lisbon Jazz Summer School (LJSS) foi um momento decisivo no seu percurso e depois da passagem pelo Hot Clube Portugal, já toca profissionalmente em algumas bandas como free lancer.

Para os professores, é uma oportunidade muito produtiva trabalhar com estas idades. "Eles chegam aqui com uma energia completamente diferente, só por aí já é muito gratificante para nós", declara Daniel Bernardes, professor de piano pela primeira vez convidado para a LJSS. Já Claus Nymark, um habitué nestas lides desde a primeira edição, trombonista, professor e diretor musical de Big Band, e um dos nomes mais ativos e experientes no meio jazzístico em Portugal, sente que o nível musical dos miúdos avança de ano para ano. "Quando começámos, o jazz parecia um mistério muito grande para os miúdos. Agora não, já chegam com uma noção clara do que vão aprender. Outra coisa que acho piada é no curso de avançados haver miúdos que já passaram pelo curso dos mais novos, isto já parece uma família!", conta, enquanto os cerca de 20 alunos aproveitam o momento sem supervisão para experimentar uma mini jam session uns com os outros.

Claus Nymark pede concentração e começa a aula: "Vamos lá? Estamos a fazer uma música juntos! Tenho a dizer duas coisas, saxofones: vocês têm de morder mais as notas! Malta, falem comigo sinto--me sozinho no mundo!".

Deixamos a aula da Big Band para chegar à de secção rítmica, aqui, sem lugar para instrumentos. Batem-se palmas e pés num complexo jogo rítmico essencial à aprendizagem da música. Os professores João Guimarães, saxofonista, e Marcos Cavaleiro, baterista e músico residente da Orquestra de Jazz de Matosinhos, gerem as palmas enquanto todos tentam imitar. "A parte rítmica é fundamental no jazz, desenvolve ritmos que não conhecem nem nunca executaram. Ao início, sentem-se um pouco expostos, mas depois habituam-se. A ideia final é aplicar o ritmo no instrumento", conclui o baterista.

A seguir, é a vez de François Choiselat lhes mostrar o caminho da improvisação livre, sem barreiras, através da linguagem gestual transposta em acordes, notas e sons. Do saco, tira uma melódica e uma cítara para distribuir pelos alunos. O que se pretende são melodias diferentes, aqui não há notas erradas. O músico soundpainter explica que, nestas idades, é tudo muito instintivo, o que se pretende é que a disciplina lhes sirva para encontrar a sua liberdade de improvisação. Parecem gostar e acompanham avidamente o professor que não fala português, mas que nem por isso deixa de se fazer entender. Aqui não impera a língua, mas sim o gesto que simboliza cada instante de som. "Feel the rythm", diz-lhes o professor.

O ritmo sente-se em todo o lado, e enquanto os mais novos dão asas ao sonho, há quem já ocupe lugar no estrelato, um lance de escadas acima. Becca Stevens acaba de aterrar em Lisboa. Na noite passada, deu um concerto com a sua banda, em Londres, mas teve de correr rápido para Portugal, para se juntar às duas parceiras que completam as Tillery, Rebecca Martin e Gretchen Parlato.

Individualmente, são três das mais aclamadas e respeitadas cantoras e compositoras de Nova Iorque. Como trio, estão juntas desde 2010, e quem as conhece assegura uma química musical notável. Aceitaram prontamente o convite para darem as aulas do Curso de Verão dirigido a estudantes avançados e músicos profissionais, mas qualquer pessoa pode assistir ao curso como ouvinte, não precisa saber tocar ou cantar.

E é vê-las, no final da aula de improvisação e técnica vocal, de olhos cerrados, juntamente com os cerca de 30 alunos que compõem o auditório mergulhado num instante de silêncio, meditação e de certa forma, gratidão pela música, culminando num trinado em espécie de onda de todas as vozes da sala. Assim acaba e começa o dia de aulas.

Rebecca Martin admite o seu encanto por Lisboa e pela hospitalidade que tem sentido desde que chegou de Nova Iorque, para onde se mudou com 21 anos, para conhecer e descobrir o jazz pelas suas próprias mãos. Diz sentir aqui, por estes dias do curso, um ambiente especial para a criatividade. "Adoro ensinar mas apenas ajudo a abrir algumas portas para que as pessoas se sintam mais conectadas com a música e isso tem sido muito imediato aqui!". Quanto às Tillery, Rebecca conta que houve logo uma grande química entre elas, em 2010, quando se juntaram em casa dela, uma vez apenas, para conversar. "Acabámos a noite a cantar e a tocar e decidimos que podíamos fazer qualquer coisa juntas". Esta noite apresentam o seu último trabalho, lançado digitalmente a semana passada, num tributo ao jazz como encontro, seja em Lisboa ou em qualquer canto do planeta, mesmo ao virar da esquina, entre miúdos e graúdos.

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