Feminino singular em retrospetiva no festival

Após Jovens e Atrevidas (1966), a realizadora Vera Chytilová foi proibida de trabalhar em Praga

Inconformada, turbulenta e feminista, Vera Chytilová (1929-2014) é senhora de uma das duas grandes retrospetivas que marcam a robusta 15.ª edição do Doclisboa. Nome associado à nova vaga do cinema da Checoslováquia, e único vulto feminino ao lado de, entre outros, Milos Forman e Jiri Menzel, a sua obra não teve um percurso nada fácil nas malhas do poder político, que no final da década de 1960 começou a sentir-se incomodado com o modo como os filmes checos eram interpretados no estrangeiro...

Desde logo, o mais conhecido dos seus títulos, Jovens e Atrevidas (1966), estreado antes da Primavera de Praga, foi aquele que lhe ditou a proibição de trabalhar no país até 1976. Trata-se de uma fábula política rabugenta, protagonizada por duas estudantes à procura da incessante diversão, que se converte num retrato violentamente cómico. A propósito dele, disse Chytilová que queria "mostrar a destruição em todos os sentidos da palavra, não apenas de coisas e relações mas também de toda a imagem". Ora é justamente essa atitude voraz que ainda hoje mexe com o espectador, nesta espécie de animação angustiada.

A decadência moral da sociedade e do regime comunista não foi, no entanto, o único tema do cinema de Chytilová, que se volta sobretudo para o lugar da mulher nessa sociedade, a sua emancipação, e as relações humanas. Tudo isto embrulhado em autênticas farsas de narrativa descontínua, com cortes rápidos e mudanças abruptas, como se vê, por exemplo, em Story from a Housing Estate (1979) ou em The Jester and the Queen (1987).

A experimentação formal de Vera Chytilová, entre a ficção e o documentário, é, para todos os efeitos, aquilo que melhor justifica esta retrospetiva programada no contexto do Doclisboa. Não por acaso, o filme que aqui dá início à viagem pela sua obra, Something Different (1963), apresenta essa perfeita hibridez: as histórias de duas mulheres contadas em paralelo, sendo uma documental e a outra ficcional. Destaca-se ainda nesta programação um filme infantil praticamente desconhecido, Kamarádi (1971), que a realizadora fez para a televisão quando estava proibida de filmar no país, e Chytilová versus Forman (1982), documentário à volta da dicotomia intelectual dos dois cineastas contemporâneos.

Em parceria com a Cinemateca, a outra extensa retrospetiva que salta à vista nesta edição do Doclisboa intitula-se Uma Outra América - O Singular Cinema do Quebeque. Um itinerário riquíssimo e variado pela história do cinema documental desta América francófona, desde os finais dos anos 1950 até à contemporaneidade. Falamos de uma cinematografia complexa, inscrita na sua especificidade territorial, que se deixou contaminar fortemente pelos traços da ficção, originando obras de expressividade única, como seja o kafkiano e político Les Ordres (1974), de Michel Brault, que recria uma absurda situação ocorrida durante o estado de exceção no Canadá, partindo de testemunhos representados por cinco atores. De René Bail a Denis Côté, passando por Claude Jutra, Pierre Perrault e Gilles Groulx, entre muitos outros, esta é uma mostra que chega a integrar clássicos do cinema de animação do Quebeque, como The Street (1976), de Caroline Leaf, ou Le Paysagiste (1976), de Jacques Drouin, em ordem a cobrir o melhor possível o imaginário e identidade deste território.

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